O interesse de Trump pela Gronelândia não é novo — nem é o primeiro presidente dos Estados Unidos a cobiçar a ilha
A riqueza mineral ainda inexplorada da Gronelândia ajudou a colocar a ilha no topo da lista de desejos expansionistas do Presidente Donald Trump.
Responsáveis da administração Trump veem as riquezas subterrâneas da Gronelândia como uma forma de aliviar o controlo da China sobre os metais de terras raras, essenciais para tudo, desde caças e lasers até veículos elétricos e equipamentos de ressonância magnética.
“Precisamos da Gronelândia… É tão estratégica neste momento”, disse Trump aos jornalistas a bordo do Air Force One no início deste mês.
“Vamos fazer alguma coisa em relação à Gronelândia, quer eles gostem quer não. Se não o fizermos da maneira fácil, faremos da maneira difícil”, afirmou Trump na sexta-feira, numa conferência de imprensa com executivos do setor petrolífero.
Embora Trump tenha recentemente desvalorizado os recursos naturais da Gronelândia, o seu antigo conselheiro de segurança nacional, Mike Waltz, disse à Fox News em 2024 que o foco da administração na Gronelândia era “sobre minerais críticos” e “recursos naturais”.
Mas a realidade é que a soberania da Dinamarca sobre a Gronelândia não é o que impede os Estados Unidos de explorar o tesouro da ilha. É o duro ambiente do Ártico.
Investigadores dizem que seria extremamente difícil e dispendioso extrair os minerais da Gronelândia, porque muitos dos depósitos minerais da ilha estão localizados em áreas remotas acima do Círculo Polar Ártico, onde existe uma camada de gelo polar com mais de um quilómetro de espessura e a escuridão domina grande parte do ano.
A riqueza mineral inexplorada da Gronelândia
A Gronelândia tem mais de 1.100 locais minerais identificados, mas existem apenas duas minas ativas e apenas oito licenças ativas para mineração. Mais de 600 locais contêm minerais designados pelos Estados Unidos como essenciais para a sua economia e segurança nacional.
Nota: A ocorrência de minerais não indica a viabilidade económica da extração. Existem 60 “minerais críticos” definidos pelo governo dos EUA, 15 dos quais são elementos de terras raras. Os dados mostram apenas o recurso principal em cada local.
Fontes: Serviços Geológicos Nacionais da Dinamarca e da Gronelândia, Autoridade de Licenças Minerais e Segurança da Gronelândia, Departamento de Energia dos EUA, Serviço Geológico dos EUA, Associação Empresarial da Gronelândia.
Gráfico: Soph Warnes, CNN
Além disso, a Gronelândia, um território autónomo da Dinamarca, não dispõe das infraestruturas nem da mão de obra necessárias para transformar este sonho de mineração em realidade.
“A ideia de transformar a Gronelândia na fábrica americana de terras raras é ficção científica. É completamente absurdo”, disse Malte Humpert, fundador e investigador sénior do The Arctic Institute. “Mais valia minerar na Lua. Em alguns aspetos, é pior do que a Lua.”
Apesar do nome, cerca de 80% da Gronelândia está coberta de gelo. E a extração mineral — ou praticamente qualquer atividade — no Ártico pode ser cinco a dez vezes mais cara do que noutras partes do planeta.
A Gronelândia, ao contrário da Venezuela, está aberta a negócios
O interesse de Trump pela Gronelândia não é novo — nem é o primeiro presidente dos Estados Unidos a cobiçar a ilha.
Ainda assim, a intervenção surpreendente de Trump na Venezuela e a decisão de assumir o controlo das vastas riquezas petrolíferas do país sul-americano voltaram a centrar atenções no seu interesse pela Gronelândia.
A probabilidade de os Estados Unidos assumirem o controlo de qualquer parte da Gronelândia subiu para cerca de 40% no mercado de previsões Kalshi, face a cerca de 20% em meados de 2025.
Claro que existem grandes diferenças entre as situações na Venezuela e na Gronelândia.
Não só a Gronelândia é um território do aliado da NATO Dinamarca, como, ao contrário da Venezuela, está claramente aberta a negócios que ali possam operar e tem um longo historial de estabilidade política.
Durante anos, se não décadas, as autoridades da Gronelândia têm cortejado o investimento direto estrangeiro. Os habitantes da Gronelândia dizem que estão abertos a oportunidades de negócio sem qualquer hostilidade.
“Não vejo necessidade de tomar conta da Gronelândia. Estamos abertos a investimento e a trabalhar com americanos”, disse à CNN, numa entrevista telefónica, Christian Keldsen, diretor-geral da Associação Empresarial da Gronelândia. “Porque é que alguém haveria de dizer algo como ‘tomar conta do país’ quando pode obter o que quer simplesmente comportando-se?”
O mito do ‘pote de ouro’
Levar empresas norte-americanas a arriscar na Gronelândia pode ser uma fantasia, dizem especialistas.
“Se houvesse um ‘pote de ouro’ à espera no fim do arco-íris na Gronelândia, as empresas privadas já lá teriam ido”, afirmou Jacob Funk Kirkegaard, investigador sénior não residente do Peterson Institute for International Economics.
No entanto, Funk Kirkegaard, que trabalhou anteriormente com o Ministério da Defesa da Dinamarca, disse que é simplesmente “muito difícil” construir um argumento de negócio para o investimento inicial muito elevado que seria necessário.
É possível que Trump tente oferecer incentivos financeiros e garantias para atrair empresas norte-americanas a fazer esses investimentos massivos, semelhantes às garantias que as grandes petrolíferas procuram para perfurar agressivamente na Venezuela.
“Se lhes forem dados dólares suficientes dos contribuintes, as empresas privadas estarão dispostas a fazer quase tudo”, afirmou Funk Kirkegaard. “Mas será isso uma boa base para comprar um território? A resposta é não na Gronelândia, tal como é não na Venezuela.”
Fatores ambientais
A crise climática provocou o degelo e o rápido aumento das temperaturas no Ártico, levando alguns a esperar novas oportunidades económicas.
No entanto, é demasiado cedo para dizer se isso será suficiente para ultrapassar os desafios ambientais da mineração na Gronelândia. Embora o degelo tenha aberto algumas rotas marítimas, também tornou o solo menos estável para perfuração e aumenta o risco de deslizamentos de terra.
“As alterações climáticas não significam que isto seja fácil. Isto não é o Mediterrâneo nem a sua banheira. Há simplesmente menos gelo a congelar”, explicou Humpert, do The Arctic Institute.
Além disso, as rigorosas regras ambientais da Gronelândia acrescentariam custos e dificuldades a uma mineração em larga escala.
Naturalmente, essas regras refletem o desejo da população local de manter o ambiente intocado. Se a administração Trump de alguma forma fizesse desaparecer essas regras, isso poderia revelar-se profundamente impopular.
“Pode acabar por se criar uma situação política local hostil”, referiu Funk Kirkegaard.
Amigo ou bully?
A venda da Gronelândia aos Estados Unidos exigiria provavelmente um referendo.
Ainda assim, uma sondagem publicada em janeiro de 2025 revelou que apenas 6% são favoráveis a que a Gronelândia se torne parte dos Estados Unidos. A esmagadora maioria dos gronelandeses, 85%, disse não querer que isso aconteça.
Adam Lajeunesse, titular da cátedra de política canadiana e do Ártico na Universidade São Francisco Xavier, afirmou que a “retórica bizarra” sobre tomar conta da Gronelândia arrisca minar os objetivos económicos e estratégicos dos responsáveis norte-americanos, ao prejudicar a relação com a Gronelândia e a Dinamarca.
“Os Estados Unidos podem deixar de ser vistos como um amigo e parceiro e passar a ser vistos como um bully que deve ser enfrentado”, afirmou.
Em certa medida, isso pode já estar a acontecer.
Keldsen, o dirigente da Associação Empresarial da Gronelândia, alerta que os responsáveis norte-americanos correm o risco de danificar a relação com a população local.
“De momento, tudo o que é americano é um sinal de alerta”, afirmou. “Toda a gente se pergunta: ‘Estou a apoiar alguém que quer tomar conta do meu país?’”