Trump quer uma Gronelândia "great again"? Usando a força "seria um Estado da NATO a invadir um Estado da NATO". Mas pode conseguir acordo

11 jan 2025, 22:00
Donald Trump

Donald Trump volta a agitar a geopolítica ao insistir no controlo da Gronelândia e do Canal do Panamá. Apesar de supostas motivações de "segurança nacional", as declarações provocadoras do presidente eleito levantam outras perguntas: quais as verdadeiras razões? E até onde os Estados Unidos estão dispostos a ir para garantir a sua supremacia?

É na vastidão gelada da Gronelândia que nasce mais uma controversa ambição de Donald Trump. Desde o seu primeiro mandato, o republicano, que voltará a tomar posse como presidente dos Estados Unidos a 20 de janeiro, tem vindo a insistir na compra do território autónomo, sob controlo da Dinamarca há mais de 200 anos. “Para efeitos de segurança nacional e liberdade em todo o mundo, os Estados Unidos da América consideram que a posse e o controlo da Gronelândia são uma necessidade absoluta”, declarou recentemente.   

Para Jorge Botelho Moniz, especialista em Ciência Política e Relações Internacionais e comentador da CNN Portugal, a justificação do presidente eleito não colhe. “Não sei se é um leitmotiv para dar segurança ao argumento, porque Trump tem este impulso de negócio imobiliário, vê um terreno que pode explorar e ficar com ele”. A sugestão, recorde-se, já tinha sido rejeitada em 2019 pelo Governo da ilha: “Estamos disponíveis para negócios, mas não à venda”.

E assim, a Gronelândia manteve-se, até agora, uma peça intocável no xadrez da geopolítica, deixando no ar a pergunta: o que leva realmente Trump a querer usá-la?

Alterações climáticas: a galinha dos ovos de ouro

Embora entenda que a questão da segurança seja relevante, Jorge Botelho Moniz considera que as motivações de Donald Trump passam, sobretudo pelas vias marítimas que constituem a rota do Ártico. “Espera-se que, em 2035 esteja aberta por conta das alterações climáticas, e os EUA estão a ficar para trás, uma vez que a Rússia já tem uma presença forte”.

Essas novas ligações podem reduzir o tempo de transporte de mercadorias entre a Europa e a Ásia, diminuindo custos e acelerando a circulação, e é do interesse dos EUA garantir acesso às mesmas para competir no comércio global. Adquirindo o controlo da Gronelândia, localizada entre o Oceano Atlântico e o Oceano Ártico, terão uma vantagem logística marcante no tráfego marítimo e na supervisão dessas vias.

“Dizia-se antigamente que um dos grandes problemas da Rússia, a nível de expansão territorial, ou de se poder tornar uma verdadeira potência a longo prazo, era o facto de estar virada para o lado errado, ou seja, o mar virado para o ártico. Mas agora espera-se que, no futuro, isso venha a ser uma vantagem para o país”, explica o comentador. Com a abertura da rota do Ártico, questões como a exploração de minérios, novo comércio e colocação de bases militares passam a ser, por consequência, “mais apetecíveis”.

Mas os impactos geopolíticos do degelo não se limitam ao surgimento de novas rotas comerciais. A Gronelândia, caracterizada por uma imensidão branca que alberga mais de 56 mil habitantes, situada entre os EUA e a Europa, ocupa uma posição geopolítica única e tem vindo a transformar-se.

“Isso gera uma série de novas necessidades verdadeiramente instrumentais”, observa Diana Soller, investigadora do IPRI/NOVA e também comentadora da CNN Portugal Diana Soller. Primeiramente: terras raras e minerais raros. “E onde existe a maior concentração de terras raras e minerais raros? Na China. E os Estados Unidos querem garantir que não ficam reféns da China no que diz respeito às terras raras”. Para que isso seja possível devem, precisamente, criar situações nas quais o acesso a estes metais seja “fácil, barato e seguro”.

De acordo com uma notícia da agência Lusa, datada de 30 de junho do ano passado, a China – que extrai mais 80% das terras raras do mundo – publicou uma lei a reforçar o controlo sobre esses materiais, fundamentais para o fabrico de chips, tecnologias de comunicação, veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamento militar, entre outros. O regulamento divulgado pelo executivo chinês estabelece que os recursos de terras raras “pertencem ao Estado e nenhuma organização ou indivíduo pode reivindicá-lo ou destruí-los”. Ora, os EUA sabem que a ilha dinamarquesa da Gronelândia também possui alguns dos maiores depósitos de terras raras do mundo.

Diana Soller lembra que grandes potências tendem a procurar garantir acesso a territórios que oferecem oportunidades únicas, como se viu com a corrida pelo petróleo no Médio Oriente durante os anos 1950 e 1960.

"Para haver uma compra tem de haver uma venda"

A ideia de aquisição de territórios por parte dos Estados Unidos não é inédita – serve de exemplo a compra do Louisiana à França em 1803, na Primeira República Francesa. Ainda assim, a proposta de Donald Trump pode ser interpretada como parte de uma estratégia de maior influência no Ártico, e não necessariamente como uma intenção real de concretização da compra.

A 25 de novembro de 2008, realizou-se o referendo sobre o autogoverno da Gronelândia, aprovado por 75% dos votantes, com uma taxa de participação de 72%. O primeiro-ministro daquele território à data, Hans Enoksen, anunciou a consulta a 2 de janeiro, esclarecendo poucos dias depois que a votação não significaria a separação da Gronelândia do Estado da Dinamarca.

Diana Soller sublinha que “a Gronelândia é um território soberano da Dinamarca”, pelo que a sua aquisição enfrentaria barreiras significativas. Para a especialista em política norte-americana, o que os Estados Unidos poderão fazer é procurar um acordo para garantir acesso à ilha e aos seus recursos.

Ainda que a abordagem de Trump reflita uma aversão a países que possuam uma “vantagem competitiva”, a comentadora antevê que, em troca de recursos estratégicos como minerais raros ou “total liberdade de navegabilidade no Ártico”, os EUA podem negociar concessões com o país detentor da ilha, garantindo a segurança daquele território contra investidas de outras grandes potências.

Este acaba por ser “o início de um processo mais longo”, onde os EUA pretendem garantir que chegam “primeiro” e com “melhores tratados” num contexto de competição internacional cada vez mais acentuada. Ou seja, a ideia de compra “parece um pouco obsoleta”. “O dinheiro não compra tudo, não é? E não compra soberania”, conclui.

Complementando esta análise, Jorge Botelho Moniz ressalta que “para haver uma compra tem de haver uma venda” e que, no caso da Gronelândia, a Dinamarca não parece demonstrar intenções de abrir mão do território. A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, declarou esta terça-feira que "a Gronelândia pertence aos gronelandeses", defendendo a soberania da ilha face às novas ameaças de anexação por parte de Donald Trump numa conferência de imprensa em Mar-a-Lago, Florida.

No mesmo dia, Donald Trump Jr, filho do presidente eleito, visitou o território autónomo, onde surgiu na companhia de alguns locais a usarem o famoso boné de campanha. O comentador da CNN Portugal observa que Trump procura associar a grandeza americana à Gronelândia, numa retórica que reflete o slogan “Make America Great Again”, ao sugerir que “também vai fazer a Gronelândia grande novamente”. Ou seja, “quer passar a ideia de que, para a Gronelândia ser grande, ambos têm de caminhar juntos”.

Na sua ótica, a abordagem maximalista de Trump visa exercer pressão para o estabelecimento de uma posição de negociação mais favorável para os EUA. Nesse sentido, Jorge Botelho Moniz acredita que o objetivo real de Trump pode não ser a compra da Gronelândia, mas sim uma “maior presença” dos EUA e uma participação ativa na “exploração de recursos minerais e daqueles minerais críticos para o desenvolvimento das tecnologias do futuro e do presente”.

Por outro lado, a proposta de compra, ainda que improvável, também não é tecnicamente contrária ao direito internacional, “desde que ambas as partes concordem”, esclarece.

Coerção militar? "Seria um Estado da NATO a invadir um Estado da NATO"

Durante a referida conferência de imprensa da passada terça-feira, Trump voltou a manifestar o seu interesse em anexar o Canal do Panamá e a Gronelândia, evitando comprometer-se a descartar o uso de meios coercivos, como força militar ou pressões económicas, para concretizar os seus planos.

Questionado diretamente por um repórter sobre a possibilidade de recurso à coerção, Trump respondeu: “Não posso garantir-vos nada sobre nenhuma dessas duas zonas”, reforçando, no entanto, a importância do Panamá e da Gronelândia para os interesses dos Estados Unidos, referindo que ambos os territórios são essenciais para garantir a “segurança económica” do país.

“Bem, se uma incursão militar acontecesse na Gronelândia, seria muito chato”, graceja Jorge Botelho Moniz. “Em bom rigor, estaria a ir contra o exército dinamarquês, e seria um Estado da NATO a invadir um Estado da NATO”. Ao mesmo tempo, “a Dinamarca poderia invocar o artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte, o que seria pelo menos uma coisa suis generis, inaudita e impensável”. Conforme estabelecido aquando da sua criação, a NATO baseia-se no princípio de que um ataque a um ou mais dos seus membros é tratado como um ataque a toda a aliança. O comentador não descarta, porém, a possibilidade de os EUA usarem a ameaça militar para coagirem uma compra, o que por sua vez já colocaria em causa o direito internacional. 

"Não sei se inauguraria uma nova dinâmica, por tudo o que está a acontecer. O que a China faz é um neocolonialismo pela via económica, o que a Rússia e Israel fazem é um neocolonialismo pela via militar", observa. Neste sentido, pela força e imposição de conquista do território "o que os EUA estariam a inaugurar com a compra de novos territórios seria uma nova fase de neocolonialização, e isso poderia abrir um precedente". Ainda que se ambas as partes estivessem de acordo, "para tal acontecer, de certeza que há uma potência mais forte do que a outra que está a impor a sua vontade".

Jorge Botelho Moniz vai mais além na análise: "A Gronelândia também não quer declarar total independência por via de referendo, porque depois não há propriamente um exército da Gronelândia capaz de proteger o território, e ficaria exposta". Explica que, nessa situação, “os Estados fracos no sistema internacional vão sempre atrás de um protetor no sistema internacional”, normalmente “um Estado forte e, normalmente, um Estado próximo”. Segundo o comentador, os Estados Unidos “coincidem com todos estes itens”, o que leva à conclusão de que, ao optar pela independência, a Gronelândia poderia acabar “exposta a um neocolonialismo que, não sendo a sua vontade, acabaria por ser o caminho quase que inevitável para a sua sobrevivência”.

E o Panamá?

O canal do Panamá emerge como uma peça central na rivalidade geopolítica entre os Estados Unidos e a China, mais uma vez simbolizando o confronto de interesses estratégicos no comércio global e a luta por supremacia regional.

Jorge Botelho Moniz enfatiza que, no entendimento de Donald Trump, “o mundo é muito injusto comercialmente” e que os Estados Unidos devem “proteger-se obrigatoriamente”. O canal, outrora construído e administrado pelos EUA, foi transferido ao Panamá, mas, segundo Moniz, “quem está o esta explorar, de facto, é atualmente a China”. Este domínio chinês na operação do canal é visto por Trump como uma demonstração da “expansão global real” da China, à qual os EUA não conseguem responder “com tanta eficácia”. Na lógica de Trump, “não há situação win-win, é um win-lose, portanto ele tem de ganhar para os outros perderem”.

Diana Soller, por sua vez, coloca o foco na importância estratégica do canal para as duas potências. Segundo a investigadora, o canal foi originalmente construído para “fazer uma ligação dos Estados Unidos à América Central mais rápida, por razões comerciais”. No entanto, atualmente, a China “tem usado essa ligação e tem inclusivamente, segundo dizem alguns especialistas naquela região, feito algumas obras de manutenção” e “tentado comprar uma licença de exploração”. Para os Estados Unidos, estas ações violam “completamente o seu interesse nacional”, dado que o canal está situado na “vizinhança próxima norte-americana”. Apesar disso, a comentadora pondera que o Panamá dificilmente venderá o canal, mas poderá aproveitar-se da situação para obter “algum tipo de concessões que não conseguia até agora”, considerando a vontade de Trump de “dominar aquela via marítima”.

A segurança continua a ser uma questão central na política internacional, especialmente em contextos marcados por transições de poder e rivalidades entre superpotências. Como sublinha Diana Soller, "a segurança é a questão primordial de um estado de direito" e possui "múltiplas dimensões", envolvendo tanto a proteção territorial como a necessidade de evitar que outras grandes potências assumam posições dominantes. Esta abordagem não é, portanto, um "capricho", mas sim uma "necessidade de segurança", particularmente para Estados que desempenham papéis estratégicos no sistema internacional.

Neste contexto, as ações e interesses manifestados por Donald Trump em relação à Gronelândia e ao Canal do Panamá refletem, segundo a especialista, uma busca por consolidar a segurança e influência norte-americanas, numa altura em que o equilíbrio de poder global enfrenta desafios significativos. Embora controversas, estas iniciativas são também sintomas de uma dinâmica mais ampla, onde as potências tentam proteger os seus interesses perante mudanças no cenário global. Assim, as disputas por territórios e vias estratégicas como o Ártico e o Panamá não são apenas sobre recursos ou comércio, mas sobretudo sobre a perpetuação do poder e da segurança no sistema internacional.

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