"Nem faço ideia como é que ele foi buscar aquelas contas": tarifas de Trump "não vêm em nenhum livro de economia"

2 abr 2025, 23:56

Donald Trump atribuiu tarifas a 49 países, além dos 27 que compõem a União Europa, numa lógica que nem os economistas compreendem. "Assim à primeira vista parece-me uma maluqueira completa, já próximo até da demência", admite Luís Aguiar Conraria. Armindo Monteiro, presidente da CIP, diz que nunca viu isto "em nenhum livro de economia nem de política económica"

O economista Luís Aguiar-Conraria ouviu com estupefação o discurso de Donald Trump. “Tenho de reconhecer que, como nem faço ideia como é que ele foi buscar aquelas contas, também não as consigo desmentir completamente”, assume à CNN Portugal, pouco depois de o presidente norte-americano ter anunciado tarifas de pelo menos 10% para produtos importados de dezenas de país, havendo casos em que o valor atinge os 49%.

Donald Trump justificou as disparidades nas tarifas a aplicar com a lógica do que disse ser uma “reciprocidade gentil” - vai cobrar metade daquilo que os países cobram aos EUA. Daí a aplicação de tarifas de 34% sobre produtos da China e 24% no Japão, por exemplo.

“Assim, à primeira vista, parece-me uma maluqueira completa, já próximo até da demência”, admite Luís Aguiar Conraria, assumindo não entender a lógica dos valores apresentados.

Nem Luís Aguiar-Conraria nem Armindo Monteiro, presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP) conseguem adivinhar as consequências desta política, vista por muitos como protecionista (apesar de Trump negar este termo). “É impossível saber quais serão os efeitos a longo prazo”, admite Luís Aguiar-Conraria. 

“É bastante imprevisível. É muito difícil, isto não vem em nenhum livro de economia nem de política económica. O que acabámos de assistir foi um comício que tem consequências imprevisíveis, do ponto de vista económico”, assume Armindo Monteiro, acrescentando, ainda assim, que há uma certeza no meio disto tudo: a taxa de inflação vai aumentar.

“Num primeiro momento”, diz Armindo Monteiro, “quem vai pagar estes aumentos serão os consumidores norte-americanos”. Luís Aguiar-Conraria diz que “há estudos que mostram que, quando se criam restrições ao comércio internacional, quem as cria também é prejudicado”.

Corremos o risco de "prejudicar-nos a nós mesmos" com resposta da UE

Mas a Europa e restantes países visados não ficarão incólumes, avisa o economista: “Claro que os outros países também poderão ser, obviamente, mas quem aumenta as barreiras ao comércio é prejudicado.”

“Eu espero que a Europa não entre numa guerra comercial destas, porque podemos estar a prejudicar os EUA, e nesse aspeto até podemos ter alguma satisfação na nossa retaliação, mas vamos estar também a prejudicar-nos a nós mesmos”, avisa Luís Aguiar-Conraria.

Tanto Armindo Monteiro como Luís Aguiar-Conraria defendem que a Europa deve enfrentar este desafio como “uma oportunidade”, começando, desde logo, por “aprofundar os laços económicos com outras regiões do mundo”, lembrando o acordo UE-Mercosul, assinado em dezembro passado, após 25 anos de negociação.

“Deixemo-los autoisolarem-se a abramo-nos nós ao mundo”, aconselha Luís Aguiar-Conraria. “Há muito mais alternativas aos EUA.”

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