Nos últimos tempos, há empresários de Seattle a sentir os efeitos na queda do número de turistas estrangeiros. E não é caso único nos EUA. A culpa: a guerra de tarifas de Donald Trump - e a sua língua comprida
Joe Koenen não viu um único chapéu da equipa de basebol Toronto Blue Jays este verão.
Os canadianos costumam deixar lotadas as ruas de Seattle durante o verão. Mas Koenen, que gere a Seattle Free Walking Tours, onde as pessoas podem pagam o que podem pelos passeios, conta que os turistas canadianos praticamente desapareceram. Para ele, as ruas parecem mais vazias.
Os canadianos que ligaram para cancelar as suas excursões “disseram-me explicitamente que era por causa das políticas e do comportamento do nosso atual presidente”, conta.
Com uma quebra de 30% no número de clientes este ano, Koenen tem pago os salários aos seus funcionários, mas não leva nada para casa. É também o primeiro ano, desde que assumiu esta empresa de passeios turísticos em 2021, em que teve de investir as suas próprias poupanças no negócio para mantê-lo a funcionar.
“Estou muito irritado. Também estou desapontado, mas acima de tudo estou triste… é uma lesão autoinfligida”, afirma Koenen.
Outro operador turístico de Seattle, John Brink, refere que “há um fim de semana que costuma ser um sucesso”, referindo-se ao confronto anual em maio entre os Toronto Blue Jays e os Seattle Mariners. Contudo, este ano, não houve movimento. Os Blue Jays são a única equipa de basebol do Canadá na Major League. Por isso, embora a equipa esteja sedeada em Toronto, muitos fãs do oeste do Canadá vestiam com orgulho o equipamento dos Blue Jays quando vinham a Seattle no verão.
A empresa de Brink, a Tasty Tours, que orienta os visitantes pelas barracas de comida no histórico Pike Place Market, registou uma quebra de 50% nos clientes canadianos.
Desde a primavera passada que há muitos canadianos a boicotar as viagens aos EUA, bem como a compra de produtos americanos. Foi quando o presidente Donald Trump fez falsas declarações e comentários depreciativos sobre o Canadá durante a sua guerra de tarifas.
A ausência dos canadianos tem sentido de uma forma intensa nos Estados Unidos, especialmente em cidades como Seattle, próximas à fronteira a norte. Ainda assim, os canadianos não são os únicos viajantes internacionais que estão a evitar os EUA. Há outros viajantes internacionais a citar as recentes políticas sobre tarifas e imigração como motivos para ficarem bem longe do território americano.
Em dezembro, a empresa de análise Tourism Economics tinha feito uma estimativa promissora, prevendo um crescimento de cerca de 9% de que os EUA teriam um crescimento de cerca de 9% no número total de visitantes internacionais em 2025. A previsão atualizada, da mesma empresa, estima agora uma quebra de 8,2%. É liderada pela quebra de um em cada quatro turistas canadianos que visitaram os EUA de janeiro a julho, quando comparando com o mesmo período de 2024.
O Conselho Mundial de Viagens e Turismo, uma organização global de defesa do turismo, projetou, em maio, que os Estados Unidos vão perder cerca de 12,5 mil milhões de dólares em gastos feitos pelos turistas internacionais em 2025. Trata-se do único país entre as 184 economias analisadas pela organização que terá um declínio este ano.
“Seguir na direção errada”
Esta dor no turismo americano pode estender-se para lá de 2025. Rob Hawkins, do Reino Unido, mudou os planos que tinha para uma viagem de 20 dias aos EUA com a esposa na primavera de 2026. Em alternativa, vai à Coreia do Sul e ao Japão.
“Para mim, os Estados Unidos são rock 'n roll, NASA, velocidade, jazz, cavalos, bourbon, hip hop, dança, MTV (a original), Hollywood, medalhas de ouro, inovação, força, respeito e tarte de maçã”, diz Hawkins à CNN por e-mail. “Não são o exército nas ruas e a divisão extrema a que hoje se assiste”, referindo-se à presença da Guarda Nacional em Los Angeles, durante as rusgas de imigração, e em Washington D.C., para assumir o controlo federal da força policial local.
A decisão dos Hawkins de evitar os EUA nos próximos tempos é repetida, nas redes sociais, por outras pessoas em todo o mundo.
“É inédito”, reage Didier Arino, diretor-geral da empresa de consultoria de viagens Protourisme, em França, acerca desta quebra sem precedentes no interesse por viagens aos EUA.
“É algo que já aconteceu antes em países em guerra, em países onde havia risco à segurança ou um risco de crise de saúde, mas, numa situação normal, nunca tínhamos assistido a este tipo de reviravolta”, referia Arino à CNN na primavera.
Além de referirem o receio de serem questionados na fronteira ou a sua oposição geral às políticas da administração Trump, os turistas de alguns países enfrentam agora um custo adicional inicial de 250 dólares para uma nova “taxa de integridade do visto”.
“Isto é um alerta para o governo dos EUA. A maior economia de viagens e turismo do mundo está a seguir na direção errada, não por falta de procura, mas por falta de ação”, aponta Julia Simpson, presidente do Conselho Mundial de Viagens e Turismo, em comunicado.
“Enquanto outras nações estão a estender as suas passadeiras de boas-vindas, o governo dos EUA está a colocar a placa de ‘fechado’. Está em causa o crescimento da economia dos EUA — é viável, mas precisa da liderança de Washington”, junta Simpson.
“Não sou só eu”
Para Brink, dono da Tasty Tours em Seattle, os passageiros americanos dos cruzeiros que passam pela cidade acabam por compensar a perda de turistas internacionais.
Ainda assim, “pessoalmente, acho que sem as tarifas, a retórica e todos aqueles disparates, tínhamos todos ganho mais dinheiro este ano”, conclui Brink.
Adam Duford, dono da Surf City Tours em Santa Monica, Califórnia, também tem sentido o impacto da queda no turismo.
“É como se as férias da primavera não tivessem acontecido”, diz Duford. «O mesmo com o Memorial Day”.
O negócio de Duford, que faz excursões em carrinhas de 13 passageiros por Hollywood, Malibu e Venice, sofreu uma quebra este ano devido a questões geopolíticas, aos catastróficos incêndios florestais e à desinformação.
O empresário conta à CNN que havia clientes a ligar para cancelar os passeios porque viram uma imagem falsas nas redes sociais, onde o letreiro de Hollywood estava a arder. A verdade é que o letreiro – e Hollywood inteira – continuam no sítio.
Duford aponta a desinformação sobre os incêndios de janeiro em Los Angeles e, mais tarde, uma perceção errada de que os protestos contra as rusgas de imigração tinham tomado conta de toda a cidade, como exemplos daquilo que levou algumas pessoas a quererem ficar bem longe deste destino.
De uma forma geral, as receitas deste negócio caíram 49% este ano. Duford pensava que pudesse ter sido um problema específico de Los Angeles. Contudo, acabaria por perceber que a sua base de clientes canadianos, que costuma fazer visitas durante as férias na primavera, também não apareceu este ano. E soube que havia empresas noutras cidades a sofrer também com a falta de turistas.
“Não sou só eu”, lamenta. “Havia gente a pensar que íamos sacrificar algumas coisas da guerra cultural por uma economia boa. Apesar de todas as promessas de uma economia boa, não me parece que isso esteja a acontecer”.
Antes dos mais recentes desafios, o turismo internacional para os Estados Unidos ainda não tinha recuperado totalmente depois da pandemia de covid-19. No ano passado, os 72,4 milhões de visitantes de outros países representaram 91% dos números antes da pandemia em 2019, segundo o US National Travel and Tourism Office.
A Tourism Economics, que acompanha dados sobre turismo doméstico e internacional, projeta agora que a recuperação total para os níveis pré-pandemia não terá lugar antes de 2029 – ou seja, três anos depois da previsão inicial.
O turismo doméstico não tem sido forte o suficiente para compensar a perda, segundo a Tourism Economics.
Vizinhos do norte a ir para sul
O facto de os canadianos estarem a afastar-se dos EUA é particularmente preocupante.
Segundo o National Travel and Tourism Office, os canadianos são a nacionalidade que mais visita os EUA: representaram cerca de 28% do total de visitantes internacionais em 2024.
Agora, em vez de irem para os Estados Unidos, “estamos a ver a assistir às viagens dos canadianos a começar a aumentar para o México, para as Caraíbas e até mesmo para a Europa, segundo os dados mais recentes”, refere Adam Sacks, presidente da Tourism Economics.
“Acho que, quando entrarmos nos meses mais frios, será difícil manter este tipo de quebra. Acredito que haverá uma pequena recuperação. Contudo, enquanto este tipo de retórica continuar – como a ideia de o Canadá se tornar o 51º estado dos EUA -, creio que vamos assistir a uma reação bastante sólida dos canadianos”.
As companhias aéreas já se ajustaram, alterando as rotas que tinham os EUA como destino. Houve menos cerca de 90.200 lugares aéreos disponíveis para reservar a partir do Canadá entre 1 de abril e 30 de junho, quando comparado com o mesmo trimestre do ano passado, segundo dados da Cirium, uma empresa de análise no setor da aviação.
Não é de admirar, por isso, que Koenen e Brink estejam a encontrar tão poucos canadianos em Seattle. A Tourism Economics estima que Seattle perderá mais de um quarto dos seus visitantes internacionais este ano, sobretudo devido à ausência dos canadianos.
«É mesmo muito difícil. Acho que temos pura e simplesmente de aguardar, de estar prontos para receber os nossos amigos do Canadá quando for a altura certa. Ainda não é a altura certa”, afirma Michael Woody, diretor de estratégia da Visit Seattle.
Mike Mondello, dono das lojas “Made in Washington” na região de Seattle, que vendem produtos de artistas e produtores locais, confessa que percebeu, durante as notícias da primavera, que este ano “ia ser diferente”.
Este empresário confessa que a “desaceleração do negócio na sua loja no centro da cidade tem sido uma deceção”. Ainda assim, Mondello acredita que “o tempo cura tudo”.
“Não vamos acordar numa segunda-feira e dizer ‘Uau, as coisas mudaram’. Vamos continuar a recuperar aos poucos, tenho a certeza”, junta.
Woody acredita que há uma oportunidade com o Mundial da FIFA em 2026, uma vez que a sua equipa de marketing em Seattle vai colaborar com a Destination Vancouver. Seattle e Vancouver são o segundo agrupamento geográfico com maior proximidade entre todas as cidades-sede da FIFA. Por sua vez, o calendário dos jogos foi alinhado para que os espectadores possam viajar facilmente para assistir aos jogos nos dois lados da fronteira.
Woody espera que cerca de 750 mil pessoas entrem e saiam de Seattle durante o período de três semanas em que decorrem esses jogos.
Ainda assim, Sacks, da Tourism Economics, alerta que, em todos os Estados Unidos, o aumento estimado de visitantes com o Mundial em 2026 não será suficiente para superar os danos causados este ano.
“Estamos aqui para quando estiverem prontos”
Os canadianos também deixaram de visitar outros destinos de sucesso nos EUA, como Orlando, que alberga o maior conjunto de parques temáticos do país.
As chegadas de canadianos a Orlando por avião diminuíram até maio. Também as reservas antecipadas de hotéis diminuíram significativamente desde abril, segundo Casandra Matej, presidente da Visit Orlando. Ainda assim, há turistas do Reino Unido, do Brasil e do México que continuam a chegar de forma consistente.
Steve Hill, presidente-executivo da Las Vegas Convention and Visitors Authority, conta à CNN que regressou recentemente de uma missão de vendas em Vancouver. Apesar de estas serem viagens de rotina para a sua equipa, Hill quis marcar presença desta vez, precisamente para ouvir o que mais de uma centena de operadores turísticos e agentes de viagens tinham para dizer sobre o sentimento no Canadá.
O que Hill escutou não foi nenhuma surpresa: há uma parte dos canadianos que rejeitam visitar os EUA neste momento por uma questão de princípio.
“Acho que não funciona muito bem a abordagem de tentar fazê-los superar”, refere Hill. “O que lhes dissemos foi: estamos aqui para quando estiverem prontos. Esperamos que estejam prontos em breve”.
Las Vegas registou uma queda no número de turistas nacionais e internacionais. Os dados mais recentes da Las Vegas Convention and Visitors Authority, disponíveis de janeiro a julho de 2025, mostram que o volume geral de visitantes caiu 8% em comparação com o mesmo período do ano passado.
Hill explica que ainda há turistas internacionais de outras nacionalidades a vir em números relativamente estáveis. Além disso, acredita que haverá mais canadianos a regressar no outono e no inverno, quando tendem a fugir do frio e a aproveitar a temporada de hóquei em Las Vegas.
Tanto a Tourism Economics, como os gabinetes de turismo de várias cidades, referem à CNN que precisam que o Congresso financie, com urgência e integralmente, a Brand USA, uma parceria público-privada que lidera um esforço global de marketing para promover os EUA como um destino de viagem de excelência. Em julho, o Congresso reduziu os fundos para a Brand USA de 100 milhões de dólares para 20 milhões de dólares.
Hawkins, que vive em Londres e decidiu cancelar a viagem para os EUA no próximo ano, como lhe contámos lá em cima, espera que a situação melhore, para que ele e a esposa ainda possam viajar para Yellowstone e Las Vegas em 2027.
“Olho para os americanos trabalhadores tal como os pequenos empresários daqui do Reino Unido”, diz Hawkins à CNN, acrescentando que “detestaria vê-los sofrer” por causa das decisões do governo.
“Não me importo com a filiação política desses empresários. Acho que, se tirarmos a política de qualquer conversa, o que eu costumo fazer, temos muitas coisas boas em comum com as pessoas”.
Vivian Song contribuiu para esta reportagem.