opinião
Analista de Política Internacional e Assuntos Europeus

O melhor modo de antecipar o futuro é criá-lo

20 jul 2025, 12:22

Trump é o superspreader do colapso global: contagia alianças, desfaz normas, espalha o caos. Gladwell traçou o mapa, o Presidente dos Estados Unidos acendeu o fósforo

Há livros que iluminam e outros que acusam – The Revenge of the Tipping Point, de Malcolm Gladwell, cumpre ambos com a precisão de quem rejeita as ilusões do progresso inevitável. Antes, Gladwell celebrava os pontos de viragem como epifanias virtuosas – instantes em que um superspreader ou o enigmático magic third inclinava as sociedades para o bem. Agora, mergulha no lado escuro: o momento em que um gesto, um líder ou uma ideia precipitam o abismo. Porque a malícia, ao contrário da virtude, é veloz, mais contagiante, mais calculada. As epidemias sociais nunca são neutras: trazem consigo a promessa de redenção ou a ameaça da desintegração. E, no nosso tempo, ninguém encarna esta lógica corrosiva com tanto instinto e frieza como Donald Trump no palco global. Não é acaso nem capricho. É engenharia social.

Tudo começa no indivíduo, invariavelmente. O superspreader, no olhar clínico de Gladwell, não é uma anomalia estatística, mas a convergência de forças invisíveis que irrompem no inesperado e nele desatam a disrupção. Trump não tropeçou neste papel – moldou-se para o ocupar. A sua política externa não é doutrina nem improviso: é uma coreografia de contágio. Cada tweet, cada desdém por um aliado, cada reverência a um autocrata, não são simples atos, mas propulsões virais lançadas num sistema global já exaurido e fragmentado. Como os ladrões de bancos de Los Angeles ou os mestres da fraude de Miami, que Gladwell evoca, Trump sabia que, num mundo saturado de dúvidas, o ruído supera a clareza e o espetáculo devora a substância.

Mas nenhum superspreader atua no vazio. É o overstory – o pano de fundo que Gladwell revela – que dá ao vírus social terreno fértil. O cenário que Trump herdou era um sistema internacional em erosão: uma NATO consumida por dúvidas existenciais, uma União Europeia afogada em cimeiras inconsequentes, o multilateralismo reduzido a um ritual vazio, um genocídio em Gaza e uma guerra a bater à porta da Europa. Trump não criou esta fragilidade, explorou-a. Como incendiário consumado, sabia que bastava uma faísca para incendiar a ordem internacional. Ao questionar a defesa coletiva, ao mercantilizar alianças, ao iniciar uma guerra comercial, não apenas desfez os laços entre aliados, minou o próprio conceito de confiança internacional.

E se o contexto era propício, as suas palavras foram o combustível. Gladwell mostra como a linguagem – sobretudo a passiva – serve para disfarçar responsabilidades: expressões como “erros foram cometidos”, “circunstâncias ditaram”, “o sistema falhou”. Trump aperfeiçoou esta arte da evasão até à mestria retórica e diplomática. 

As crises que fomenta nunca lhe pertencem. São sempre culpas dos “aliados traiçoeiros”, da imprensa “hostil”, dos antecessores “incompetentes”, ou de um sistema que, alegadamente, continua a “aproveitar-se” dos Estados Unidos.

Mas o contágio não é estático. É dinâmico, exponencial. Gladwell insiste nos ciclos de retroalimentação: cada reação não resolve, agrava. Cada resposta não estanca, intensifica. A política externa de Trump segue esta lógica inexorável: o cinismo gera desconfiança, a desconfiança alimenta insegurança, a insegurança degenera em instabilidade. O sistema internacional entrou num ciclo de reforço negativo, um mecanismo autónomo em que já não é preciso querer, basta a inércia do medo.

Aqui chegados, resta o desfecho que Gladwell prevê. A perda irreversível do controlo da narrativa. Uma vez consumado o ponto de viragem negativo, nem o superspreader domina o destino do que desencadeou. Trump abriu caminho a uma ordem internacional fraturada, onde os instrumentos tradicionais de contenção – tratados, diplomacia, alianças – perderam peso e respeito. O vírus social já não precisa do hospedeiro: torna-se autossuficiente.

Sobra, portanto, não uma conclusão, mas um imperativo. Gladwell ofereceu-nos o mapa da infeção social. Trump percorreu-o com a determinação de quem prefere o colapso ao compromisso. A nossa missão é clara: reconstituir os anticorpos institucionais, revitalizar o multilateralismo, preparar o terreno para que o próximo magic third – ponto crítico em que, ao atingir cerca de um terço de um grupo, uma minoria deixa de ser invisível e começa a exercer influência e integração efetiva no ambiente social – não seja composto por autocratas.  

É aqui que a Europa deve intervir, não como espectadora que demora quase dois meses a aprovar um pacote de sanções, mas como arquiteta de um ponto de viragem. A tarefa não é defensiva, é ofensiva: construir poder para evitar o colapso. O Conselho Europeu deve superar a reação para assumir a antecipação. A União deve agir com voz única e vontade firme: confiscar ativos russos, eliminar o veto na política externa, isolar os Estados-membros que falam em nome do Kremlin e fomentar uma defesa europeia, em parceria com o Reino Unido. Não para rivalizar com Washington, mas para que o elo transatlântico seja uma verdadeira parceria. E enquanto o dólar perde terreno e os Estados Unidos credibilidade, existe uma janela de oportunidade para que o euro se afirme como alternativa de reserva global. A emissão conjunta de dívida, orientada para as transições estratégicas – defesa, energia, digitalização, indústria – seria o instrumento económico que falta à ambição política, patente no Quadro Financeiro Plurianual apresentado.

Assim se podem criar ciclos virtuosos. A legitimidade gera eficácia, a eficácia consolida confiança, a confiança expande a capacidade de agir. Este é o tipping point que a Europa deve desencadear – um ponto de viragem que contrarie a lógica destrutiva de Trump. Onde ele semeou desagregação, a Europa deve plantar coesão; onde ele propagou cinismo, cultivar confiança; onde acelerou o colapso, restaurar o equilíbrio. Não se trata apenas de resistir ao contágio, mas de substituir o vírus: trocar o ciclo da corrosão pelo da regeneração. Como defende Gladwell, as ferramentas para travar uma epidemia estão sobre a mesa. Podemos deixá-las nas mãos dos autocratas – ou empunhá-las nós próprios.

Colunistas

Mais Colunistas