Os EUA delinearam a nova Estratégia de Segurança Nacional, que traça a visão do presidente sobre a política externa e orienta as decisões da administração. Numa perspetiva "sombria" sobre o continente europeu, Trump reserva-se o dever de "ajudar a Europa a corrigir a sua trajetória atual" de "falta de autoconfiança" que, diz, pode vir a deixá-la "irreconhecível" em poucos anos
A Europa está em risco de sofrer um “apagão civilizacional” e “será irreconhecível dentro de 20 anos ou menos”. O alerta é da administração Trump, que se arroga o desígnio de “promover a grandeza europeia” e de “acabar com a perceção e prevenir a realidade da NATO como uma aliança em constante expansão”.
Na nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, divulgada pela Casa Branca na madrugada desta sexta-feira, Trump descreve uma visão “sombria” da Europa, perspetivando que, “caso as tendências atuais persistam, o continente será irreconhecível daqui a 20 anos ou menos”.
Em causa estão, segundo Trump, as “atividades da União Europeia e de outros organismos transnacionais que minam a liberdade política e a soberania” dos países europeus, bem como as “políticas migratórias que estão a transformar o continente e a criar conflitos”, a “censura da liberdade de expressão e supressão da oposição política” e a “perda de identidades nacionais”.
O presidente norte-americano duvida mesmo que “certos países europeus” sejam capazes de se “manterem como aliados fiáveis” dos EUA. “A longo prazo, é mais do que plausível que, no máximo em algumas décadas, certos membros da NATO se tornem maioritariamente não europeus. Assim, permanece em aberto se verão o seu lugar no mundo, ou a sua aliança com os EUA, da mesma forma que viam quando assinaram a Carta da NATO.”
“Queremos que a Europa se mantenha europeia, que recupere a sua autoconfiança civilizacional e que abandone o seu foco falhado na asfixia regulamentar”, pode ler-se no documento de 33 páginas.
Para isso - e porque “a Europa continua a ser vital para os EUA, tanto a nível estratégico como cultural”, sublinha-se no documento - a administração Trump propõe-se a “continuar a defender a democracia genuína, a liberdade de expressão, as celebrações sem reservas do carácter e da história individuais das nações europeias.”
Neste cenário de “falta de autoconfiança” europeia, a administração Trump sublinha que “a crescente influência dos partidos patrióticos europeus é, de facto, motivo de otimismo”.
Segundo Trump, “esta falta de autoconfiança é mais evidente na relação da Europa com a Rússia”, sobretudo desde a invasão russa da Ucrânia, que levou a que “muitos europeus considerem a Rússia uma ameaça existencial”. É aqui que a diplomacia americana deve atuar, assume o presidente norte-americano, que destaca que “é do interesse fundamental dos EUA negociar uma cessação rápida das hostilidades na Ucrânia” - sem “expectativas irrealistas”, sublinha-se.
“A administração Trump está em desacordo com autoridades europeias que nutrem expectativas irrealistas para a guerra, baseadas em governos minoritários instáveis, muitos dos quais atropelam princípios básicos da democracia para suprimir a oposição”, refere-se no documento.
Trump sugere mesmo que são esses governos europeus - que nunca chega a nomear - que impedem o caminho da paz na Ucrânia. “Uma grande maioria europeia deseja a paz, mas este desejo não se traduz em políticas, em grande parte devido à subversão dos processos democráticos por parte desses governos.”
Assim, - e porque os EUA não se podem “dar ao luxo de descartar a Europa”, vinca-se - a administração Trump assume como objetivo “ajudar a Europa a corrigir a sua trajetória atual”. “Vamos precisar de uma Europa forte para nos ajudar a competir com sucesso e a trabalhar em conjunto connosco para impedir que qualquer adversário domine a Europa.”
Nesse sentido, os EUA comprometem-se a “restabelecer as condições de estabilidade dentro da Europa e a estabilidade estratégica com a Rússia”, ao mesmo tempo que querem “acabar com a perceção e prevenir a realidade da NATO como uma aliança em constante expansão” - palavras que ecoam os discursos do presidente russo, Vladimir Putin, contra o alargamento da Aliança Atlântica.
Como escreve o New York Times, esta abordagem da administração Trump em relação à Europa “contrasta fortemente” com a estratégia delineada para outros países noutras partes do mundo, designadamente para o Médio Oriente, onde a presidência norte-americana se compromete a “continuar a encorajar” os países da região a combater o radicalismo, mas sem interferir nos seus assuntos internos.
“A chave para o sucesso nas relações com o Médio Oriente é aceitar a região, os seus líderes e as suas nações como elas são, ao mesmo tempo que trabalhamos em conjunto em áreas de interesses comuns”, concretiza o documento.