De Clinton no Paquistão a Obama no Iraque: afinal Trump não foi o único presidente dos EUA a mudar de avião em segredo

12 ago, 11:47
Donald Trump Air Force One Flórida EUA (Alex Wong/Getty Images)
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Apesar das críticas que se foram multiplicando desde que a operação foi tornada pública, esta não foi um episódio isolado. No passado, outros presidentes precisaram de usar manobras de distração por segurança

A retirada secreta de Donald Trump da Turquia, através de um avião militar, depois de uma ameaça considerada credível de assassínio relacionada com o Irão, surpreendeu tudo e todos pela complexidade da operação. A estratégia, contudo, não foi inédita. Ao longo das últimas décadas, diferentes administrações norte-americanas recorreram a mudanças de aeronave e a manobras de despiste para proteger o presidente durante deslocações consideradas especialmente perigosas.

No caso de Trump, a operação foi particularmente sofisticada e envolveu contornos mais complexos. O presidente norte-aemricano foi retirado discretamente do avião através de um camião de catering e transferido para outra aeronave militar. Enquanto isso, o Air Force One continuou a viagem com altos responsáveis do governo, funcionários, militares e jornalistas a bordo.

A maior parte dos passageiros desconheciam tanto a dimensão da ameaça como o facto de Trump já não estar naquele avião. O presidente dos EUA acabaria por regressar ao Air Force One, numa escala realizada no Reino Unido, antes de desembarcar perante as câmaras, dando a impressão de que tinha permanecido a bordo durante toda a viagem.

Camiões de catering  estacionados junto ao Air Force One na pista, enquanto a comitiva que transporta o presidente dos EUA, Donald Trump, chega para partir após a cimeira da NATO no Aeroporto Internacional de Ancara, em Ancara, Turquia, na quarta-feira, 8 de julho de 2026. (Foto AP/Alex Brandon)

Mas, apesar das críticas que se foram multiplicando desde que a operação foi tornada pública, este não foi um episódio isolado, segundo uma investigação do The New York Times. No passado, outros presidentes norte-americanos já tinham enfrentado situações em que a segurança exigiu mudanças de planos.

George W. Bush e Barack Obama viajaram para o Iraque e o Afeganistão durante períodos de guerra, em deslocações nas quais foram adotadas medidas extraordinárias para evitar que a localização dos presidentes fosse facilmente identificada. Bill Clinton também teve de recorrer a uma troca de avião durante uma visita ao Paquistão, em 2000, numa altura em que o país apresentava riscos relacionados com a presença de grupos terroristas.

A operação de Clinton apresenta, no entanto, uma diferença importante. O plano inicial previa que os jornalistas que acompanhavam o presidente pudessem funcionar como despiste, mas a estratégia foi alterada depois de protestos da própria equipa.

Clinton acabou por ser conduzido discretamente para o outro lado de um avião militar C-17, onde aguardavam três aeronaves mais pequenas e sem identificação. Os jornalistas não conseguiram perceber em qual delas o presidente embarcou. Ainda assim, pelo menos uma jornalista foi informada previamente da operação e os detalhes foram divulgados depois de Clinton estar em segurança.

A primeira-dama dos EUA, Melania Trump, sai de um C-17 após ter recebido informações sobre a preparação e resposta a catástrofes, na quarta-feira, 30 de outubro de 2019, na Base Conjunta de Charleston, na Carolina do Sul. (Foto AP/Meg Kinnard)

É precisamente neste ponto que surgem as críticas à operação de Trump. Antigos responsáveis pela segurança presidencial defendem que proteger o presidente é uma prioridade absoluta e que revelar detalhes de uma operação deste tipo pode comprometer futuras missões. Outros consideram, porém, que existe também uma obrigação de proteger quem viaja com o Presidente e de, quando possível, dar pelo menos uma indicação geral sobre a existência de um risco significativo.

“Parecia que não tinham sequer pensado duas vezes em ninguém além do Presidente e das poucas pessoas que estavam com ele”, afirmou Joe Lockhart, antigo secretário de imprensa da Casa Branca durante a viagem de Clinton a Islamabad, capital do Paquistão, em 2000.

“Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para garantir que o maior número possível de pessoas, sobretudo civis, estivesse protegido e não fosse usado como escudo humano. Eles nem sequer pensaram nisso. E, para mim, essa é a grande diferença”, lembrou ainda.

No caso de Trump, a principal diferença em relação a operações anteriores está no facto de dezenas de pessoas terem permanecido no Air Force One sem saberem que o presidente já tinha abandonado a aeronave e que existia uma ameaça considerada suficientemente grave para justificar a troca.

A decisão, contudo, não foi consensual. Alguns antigos responsáveis por operações de segurança da Casa Branca consideram que, em situações de elevado risco, medidas extremas podem ser necessárias para garantir a proteção do presidente.

Joseph W. Hagin, que ajudou a organizar as viagens de George W. Bush a zonas de guerra e foi mais tarde chefe de gabinete adjunto de Donald Trump durante o seu primeiro mandato, fez saber ao The New York Times que não colocaria em causa a decisão tomada em Ancara.

“Compreendo a preocupação em relação às pessoas que viajavam naquele que se julgava ser o avião principal”, começou por salientar. “Mas, quando se trabalha na Casa Branca ou se viaja com o presidente, está-se a aceitar um grau de risco que não é insignificante. Contar a todos o que estava a acontecer numa operação deste género teria, obviamente, colocado em causa a segurança do presidente”.

Entretanto, e em resposta a jornalistas, Trump reagiu à operação e afirmou que apenas seguiu as recomendações do Serviço Secreto e rejeitou a ideia de que a troca tivesse colocado os restantes passageiros em maior perigo. “Na verdade, penso que o avião em que viajei corria maior risco, porque seria aquele que, penso eu, eles teriam maior probabilidade de atacar”, contou.

"[Essas decisões] dependem apenas dos Serviços de Secretos. Limito-me a seguir o que eles gostariam de fazer", começou por explicar aos jornalistas em Maryland, nos EUA. "Queriam que eu apanhasse um voo diferente, num avião diferente com o mesmo nível de segurança. Por isso fi-lo. Eu faço o que eles dizem", acrescentou.

As viagens presidenciais incluem, de resto, mecanismos de despiste que fazem parte das rotinas de segurança. Nas deslocações de carro em comboio, é habitual existirem duas viaturas blindadas idênticas, dificultando a identificação daquela onde segue o presidente. Já quando o presidente dos EUA viaja no Marine One, o helicóptero oficial do chefe de Estado, podem também ser utilizados vários helicópteros iguais. A lógica é simples: dificultar a identificação do veículo ou aeronave que transporta efetivamente o chefe de Estado.

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