O dia agitado e caótico de Donald Trump ilustra bem por que razão a maioria dos norte-americanos desaprova o presidente e considera que este está a ignorar os temas que realmente os preocupam — e também porque é que os seus apoiantes mais fiéis nunca o abandonarão
Os ataques incessantes de Trump ao espírito nacional tornaram todos um pouco insensíveis ao seu estilo político chocante. Mas, mesmo para ele, quarta-feira foi um percurso imprudente, no qual mal abordou as preocupações dos eleitores que o reconduziram à Casa Branca.
Trump alimentou mais especulação sobre uma possível demissão do presidente da Reserva Federal, Jerome Powell, após uma reunião na terça-feira onde, segundo a CNN, questionou legisladores sobre o que deveria fazer.
Afastar Powell seria a tentativa mais descarada de um presidente moderno em interferir no papel do Fed na definição das taxas de juro e poderia empurrar a economia global para o abismo. Podia ainda representar a mais arriscada manobra de poder do amplo segundo mandato de Trump, ao destruir um dos pressupostos que sustentam os EUA como a economia mais poderosa do mundo: o de que os presidentes não imitam ditadores de países em desenvolvimento manipulando as regras para ganho político.
Trump viria depois garantir que seria “altamente improvável” demitir Powell, após os mercados terem reagido com apreensão. Mas, dada a sua natureza volátil e o desejo evidente de se vingar de um responsável que recusou ceder aos seus impulsos autocráticos, poucos acreditarão plenamente nestas garantias.
Entretanto, numa explosão extraordinária no Truth Social, Trump atacou algumas das mais proeminentes figuras do movimento MAGA, chamando-lhes “fracos”, por criticarem a recusa do seu governo em divulgar os ficheiros sobre o falecido agressor sexual condenado Jeffrey Epstein. Esta atitude defensiva de Trump reacendeu a polémica que já fervia há mais de uma semana — e deverá alimentar mais suspeitas de que tem algo a esconder, bem como os apelos democratas por maior transparência.
Ao tentar dissipar uma teoria da conspiração, Trump acabou por criar outra, acusando de forma ilógica os democratas de estarem por detrás da polémica — apesar de Epstein ter sido acusado de tráfico sexual pelo Departamento de Justiça do próprio Trump no seu primeiro mandato. “A nova FRAUDE deles é o que chamaremos para sempre Farsa Jeffrey Epstein, e os meus antigos apoiantes caíram neste ‘disparate’ de forma completa”, escreveu no Truth Social.
A volatilidade de Trump é demasiado arriscada
Estes dois episódios — que estão longe de ser o que mais inquieta a maioria dos eleitores — ilustram bem os traços excepcionais e muitas vezes perigosos da presidência única de Trump.
Trump procura um presidente do Fed que ignore a prudência e reduza agressivamente as taxas de juro em busca de um crescimento rápido. Tal como com a sua obsessão pelas tarifas alfandegárias, que afronta igualmente a ortodoxia económica, Trump anseia por implementar uma teoria arriscada que muitos especialistas antecipam que conduziria ao desastre.
Este comportamento aproxima-se mais dos caprichos de um rei do que da atuação de um presidente que respeita as normas democráticas. Afinal, Powell é elogiado por muitos economistas por ter conseguido o impossível: controlar a pior crise inflacionista em 40 anos sem provocar uma recessão ou uma subida acentuada do desemprego. Mas, ao contrário de Powell, que o próprio Trump nomeou no primeiro mandato, o Presidente age por intuições. Se errar e provocar contágio nos mercados financeiros, as poupanças e o sustento de milhões de pessoas estarão em risco.
O caso Epstein é extraordinário à sua maneira, já que Trump, o maior propagador de teorias da conspiração na política moderna, está agora preso numa tempestade de insinuações e falsidades que ajudou a criar. Está a pagar o preço de ter alimentado durante anos uma desconfiança extrema em relação ao governo no seio do seu movimento — uma estratégia que explorou para construir uma base de poder pessoal assente no ressentimento dos eleitores. O seu fracasso em travar a narrativa em torno de Epstein é um aviso sobre o que acontece a uma democracia quando os factos e a verdade são desprezados e a legitimidade do governo é destruída porque uma parte substancial da sociedade duvida de tudo o que lhe é dito.
As dramatizações do presidente ofuscam algumas vitórias políticas
Como é frequente, o ruído trumpiano obscureceu vitórias mais significativas para o presidente, incluindo a sua crescente ofensiva para desmantelar o governo federal — um dos objetivos centrais da sua campanha. A Casa Branca continuava esta quarta-feira a celebrar uma decisão do Supremo Tribunal que permitirá avançar com o desmantelamento do Departamento de Educação através de despedimentos em massa.
Derrubar esta agência tem sido uma prioridade difícil de concretizar para os republicanos desde Ronald Reagan. Trump avançou também num outro objetivo de longa data que outros presidentes republicanos não conseguiram alcançar: a proposta de lei que retira o financiamento federal às emissoras públicas está mais próxima de ser votada.
Na Casa Branca, Trump assinou ainda o HALT Fentanyl Act, aprovado pelo Congresso com maiorias bipartidárias. A medida reforça as penas para os traficantes, embora críticos alertem que poderá conduzir, de forma contraproducente, ao encarceramento de toxicodependentes.
O presidente presidiu a uma cerimónia onde estiveram presentes familiares de norte-americanos que morreram tragicamente após consumirem a droga. A compaixão demonstrada por Trump explica porque é tão acarinhado pela sua base de apoio.
O flagelo do fentanil tem especial impacto nas zonas rurais dos estados republicanos, que pagaram um preço elevado na epidemia de opiáceos. Trump reconheceu o sofrimento que estas drogas causam a muitas famílias americanas, colocando o tema no centro das suas campanhas — provavelmente mais do que qualquer outro político.
O tráfico de fentanil pela fronteira sul cruza-se ainda com outra das bandeiras de Trump populares junto do seu eleitorado — uma política de imigração rígida. A sua atenção à opinião pública nesta área ajudou a unificar e expandir a coligação de classe trabalhadora que o elegeu duas vezes para a presidência.
Estes eleitores sentem que têm um presidente que os ouve.
Uma nova sondagem da CNN esclarece a presidência tempestuosa de Trump
O dia frenético de Trump ajuda a explicar algumas das conclusões de uma nova sondagem da CNN/SSRS, divulgada quarta-feira.
A sua disposição para correr grandes riscos com a economia, a obsessão com casos secundários como o de Epstein e o hábito de agir em nome de uma minoria do país limitam os seus números nas sondagens. Segundo o inquérito, a aprovação de Trump mantém-se inalterada em relação à primavera, nos 42%. Mas a menos de um ano de eleições, que em parte se decidirão pelo custo dos bens essenciais e da habitação, apenas 37% dos inquiridos consideram que Trump está concentrado nos temas certos — uma queda de seis pontos face a março.
Nem o frenesim MAGA à volta de Epstein, nem a dramatização sobre Powell, constam das prioridades dos eleitores em 2024.
Mais preocupante para Trump é o facto de estar em desvantagem na maioria das questões que mais inquietam o eleitorado. Normalmente, isto seria sinal de uma presidência em sérias dificuldades. Os presidentes em segundo mandato que atingem este nível baixo de aprovação costumam enfrentar anos difíceis até à saída da Casa Branca.
Trump é, contudo, um caso único. Os seus números de aprovação mantêm-se num intervalo habitual ao longo de todo o tempo que esteve na presidência. A sua disposição para levar os seus poderes ao limite — e por vezes além da lei e da Constituição — e as maiorias republicanas submissas no Congresso fazem com que dependa menos do apoio público do que os presidentes convencionais.
Ainda assim, parece continuar a fazer precisamente o contrário do que a maioria dos eleitores deseja. A sua maior vitória interna — o recém-aprovado “One Big Beautiful Bill Act”, que inclui grande parte da sua agenda interna para o segundo mandato — é rejeitada por 61% dos norte-americanos. Entre os independentes, a aprovação de Trump é um anémico 32%.
Estes números poderão causar apreensão entre os legisladores republicanos vulneráveis que concorrem em círculos eleitorais decisivos nas eleições intercalares do próximo ano. E contextualizam o novo esforço do governador do Texas, Greg Abbott, para exigir o redesenho do mapa eleitoral do estado numa tentativa de reforçar as hipóteses do Partido Republicano manter a frágil maioria na Câmara dos Representantes.
A sondagem acrescenta também nuances à turbulência actual no mundo MAGA sobre Epstein, iniciada quando a procuradora-geral, Pamela Bondi, sugeriu que novas informações reforçavam as alegações de que o acusado de tráfico sexual foi assassinado na prisão e que as autoridades tinham uma lista de clientes famosos. Na semana passada, porém, o seu Departamento de Justiça divulgou um memorando afirmando que não havia provas incriminatórias sobre qualquer lista de clientes e que Epstein se suicidou.
Apesar da fúria entre as estrelas mediáticas do movimento MAGA, a sondagem da CNN/SSRS revela que o apoio de Trump entre os republicanos continua sólido nos 88%.
Ainda assim, uma queda mesmo que limitada no entusiasmo dos membros mais radicais da base de Trump poderá prejudicar os republicanos em disputas renhidas nas intercalares do próximo ano. E os podcasters MAGA, interessados em rentabilizar a fúria dos ativistas, continuarão a alimentar as chamas da controvérsia sobre Epstein.
Mas continua evidente que Trump mantém um apoio maciço entre dezenas de milhões de republicanos de base por todo o país.