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Como a administração Trump pode estar a prejudicar a imagem já fragilizada de Israel

CNN , Análise de Aaron Blake
20 mar, 22:00
Benjamin Netanyahu Donald Trump Isaac Herzog Israel EUA (Evan Vucci/AP)

 

 

 

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A entrada dos EUA na guerra com o Irão surge num momento delicado para a perceção pública de Israel entre os americanos. Declarações da administração Trump, incluindo de Marco Rubio, e a demissão de Joe Kent, que responsabiliza Israel pelo conflito, estão a alimentar críticas, divisões na direita e até teorias da conspiração, agravando o problema de imagem de Israel

O presidente Donald Trump juntou-se a Israel para lançar a guerra contra o Irão num momento pouco auspicioso para a relação EUA-Israel.

Apenas um dia antes dos primeiros ataques, uma sondagem da Gallup mostrava que a opinião dos americanos sobre Israel tinha atingido o nível mais baixo do século XXI; mais marcante ainda, pela primeira vez, os americanos não demonstravam maior simpatia pelos israelitas do que pelos palestinianos.

Tornando a situação ainda mais delicada, a direita tem-se dividido nos últimos meses sobre como lidar com o que muitos consideram ser um aumento preocupante do antissemitismo na sua base e entre a classe de influenciadores. Alguns dos nomes mais influentes do pensamento conservador têm, cada vez mais — e muitas vezes de forma conspirativa — associado Israel a todo o tipo de problemas americanos.

Dado que os americanos pareciam bastante céticos em relação a esta guerra desde o início, não foi preciso grande imaginação para supor que algumas pessoas iriam culpar Israel e até construir teorias da conspiração sobre isso.

E isso foi precisamente o que aconteceu. Mas, numa reviravolta, isso deve-se em grande parte a alguma da retórica da administração Trump sobre a guerra.

O presidente e os que o rodeiam não prestaram qualquer favor a Israel com algumas das suas afirmações.

Em duas ocasiões importantes até agora, a administração insinuou que Israel era em grande parte responsável por momentos decisivos na guerra — apesar de as provas em ambos os casos não serem totalmente claras.

A alegação de Rubio sobre uma ameaça iraniana ‘iminente’

Primeiro, foi o secretário de Estado Marco Rubio a apresentar uma espécie de argumento indireto para justificar que o Irão representava uma ameaça iminente para os Estados Unidos. Rubio disse que Israel iria atacar o Irão independentemente das circunstâncias, e que o Irão retaliaria atacando alvos americanos; logo, concluía o argumento, o Irão constituía uma ameaça iminente para os Estados Unidos.

O secretário de Estado Marco Rubio participa numa reunião entre o Presidente Donald Trump e a primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi. Evelyn Hockstein/Reuters

O problema político desta formulação, contudo, era que soava muito como se o governo dos Estados Unidos estivesse a ser forçado por Israel.

Assim, a administração Trump abandonou rapidamente esse argumento e avançou para outro na sua longa lista de justificações para a guerra.

A demissão de Joe Kent

Mas esta semana mostrou que o problema de relações públicas de Israel está longe de desaparecer.

Na terça-feira, soubemos que o primeiro alto responsável da administração Trump a demitir-se o fez citando a guerra com o Irão. Mas o diretor cessante do Centro Nacional de Contraterrorismo, Joe Kent, não se limitou a criticar a guerra; atribuiu fortemente a culpa à “pressão de Israel e do seu poderoso lobby” por ter coagido os Estados Unidos a entrar nela.

Na sua carta de demissão, Kent continuou a citar repetidamente Israel e a responsabilizá-lo também por outras guerras. E, numa entrevista a Tucker Carlson na quarta-feira, deu força a teorias da conspiração sobre Israel e o assassinato do falecido ativista conservador Charlie Kirk.

A reação de grande parte do establishment da direita tem sido, em larga medida, descartar Kent como um extremista antissemita. Mas trata-se de alguém que Trump colocou numa posição de poder — e fê-lo apesar das suas conhecidas ligações passadas a extremistas, incluindo nacionalistas brancos e um simpatizante nazi. E Kent está agora a usar a credibilidade que a administração lhe conferiu para atacar Israel.

A mais recente alegação de Trump

E, por fim, surgiu a estranha declaração de Trump na noite de quarta-feira.

Numa publicação nas redes sociais por volta das 22:00 (hora da costa leste dos EUA), negou qualquer papel dos Estados Unidos nos grandes ataques israelitas a instalações ligadas ao campo de gás South Pars, no Irão.

“Os Estados Unidos não sabiam nada sobre este ataque em particular”, afirmou Trump.

O ataque foi significativo porque o Irão respondeu atingindo a parte do campo de gás pertencente ao Qatar, aumentando as tensões entre países vizinhos na região. (Trump também ameaçou “explodir massivamente” a parte iraniana do campo de gás se este continuar a atacar o Qatar.) E este campo de gás é o maior do mundo, o que significa que a sua destruição poderá ter um impacto desproporcionado nos já frágeis mercados e abastecimentos globais de energia.

Fumo e chamas elevam-se perto do campo de gás South Pars após um ataque na província de Bushehr, no Irão, na quarta-feira, nesta imagem retirada de um vídeo nas redes sociais. Reuters

A primeira coisa a notar é que a versão de Trump foi contrariada. Uma fonte norte-americana disse à CNN que os EUA estavam “cientes” do ataque, e uma fonte israelita afirmou que os dois lados coordenaram a operação. (Outros especialistas, incluindo o ex-embaixador dos EUA em Israel Dan Shapiro, observaram que seria chocante que Israel não tivesse informado os Estados Unidos de um ataque desta escala e importância.)

Mas, deixando isso de lado, os comentários de Trump — tal como os de Rubio — implicam que Israel é singularmente responsável por esta escalada, colocando os Estados Unidos num papel de resposta a uma escalada imposta por Israel.

Negar o envolvimento pode servir os objetivos políticos internos de Trump, mas não ajuda a reputação de Israel nos Estados Unidos. Se alguma coisa, a posição de Trump de que os EUA não sabiam de nada alimenta aqueles que defendem teorias como as de Kent.

O primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu disse na quinta-feira que Israel tinha “atuado sozinho” num ataque a uma instalação de processamento ligada ao campo de gás South Pars, sem abordar diretamente se os Estados Unidos tinham conhecimento prévio da operação.

Netanyahu também rejeitou a ideia de que Israel tenha coagido os Estados Unidos a entrar na guerra, colocando em dúvida que alguém pudesse fazê-lo com Trump.

“Esta ideia de que arrastámos os Estados Unidos para isto — não é apenas falsa; é ridícula. É simplesmente ridícula”, afirmou Netanyahu na sua conferência de imprensa.

Questões incómodas

Trump pareceu reforçar a sua alegação na quinta-feira, dizendo aos jornalistas que os EUA e Israel eram “independentes”, mas “dão-se muito bem”.

Sobre Netanyahu, disse: “É coordenado. Mas, ocasionalmente, ele faz algo, e se eu não gostar, então deixamos de o fazer.”

Mas a situação está novamente a levantar questões incómodas para a administração.

Na conferência de imprensa do Pentágono de quinta-feira, um jornalista do site de direita Gateway Pundit perguntou ao secretário da Defesa, Pete Hegseth, sobre a publicação de Trump na Truth Social na quarta-feira.

“Porque estamos a ajudar Israel a conduzir esta guerra, se eles vão perseguir os seus próprios objetivos?”, perguntou o jornalista.

Hegseth não abordou o conteúdo da publicação de Trump, oferecendo antes garantias vagas de que os objetivos dos EUA estavam a ser cumpridos.

“Temos o controlo. Temos objetivos. Esses objetivos são claros”, respondeu. “Temos aliados que também perseguem os seus próprios objetivos, e a verdade fala por si.”

Mais tarde nessa manhã, a diretora dos Serviços de Informação Nacional, Tulsi Gabbard, foi questionada numa audição do comité de informação da Câmara dos Representantes sobre porque razão Israel atacaria infraestruturas energéticas iranianas (supostamente) contra a vontade de Trump.

“Não tenho uma resposta para isso”, respondeu.

A diretora dos Serviços de Informação Nacional, Tulsi Gabbard, depõe perante uma audição do Comité de Informação da Câmara dos Representantes dos EUA na quinta-feira. Kylie Cooper/Reuters

Gabbard foi então questionada sobre se os objetivos de Israel estavam alinhados com os dos Estados Unidos, e voltou a parecer sem resposta. Após uma longa pausa, disse que estava a “pensar cuidadosamente” sobre o que poderia dizer publicamente.

(Acabou por reconhecer que Israel estava mais focado em eliminar a liderança iraniana, enquanto os Estados Unidos estavam mais concentrados em desarmar o Irão — tanto no plano nuclear como no das armas convencionais.)

Também na audição, o diretor da CIA, John Ratcliffe, confirmou que o que Rubio disse tinha uma base real nos serviços de informações dos EUA.

Ratcliffe afirmou que existia um “conjunto de provas” que indicava que, “no provável cenário de um conflito entre o Irão e Israel, os EUA seriam imediatamente atacados — independentemente de os Estados Unidos se manterem fora desse conflito.”

Esta guerra já seria sempre difícil de justificar junto do público americano e um verdadeiro teste à relação entre os EUA e Israel.

Mas, devido à incapacidade de construir uma mensagem consistente e à tendência de Trump para dizer o que for mais conveniente no momento, a administração tornou a segunda parte dessa equação ainda mais complicada do que precisava de ser.

A sociedade americana — e a reputação de Israel — poderão sentir os efeitos disso durante muito tempo.

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