Na fotografia principal deste artigo, o presidente dos EUA, fotografado em Davos, na Suíça, na quarta-feira, que tem vindo a deixar os aliados em estado de alerta desde o início do ano
Um astuto ex-primeiro-ministro britânico, Harold Wilson, dizia outrora que “uma semana é muito tempo em política".
Verdade seja dito, estava a ser modesto.
Só na última semana, as declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre a tomada da Gronelândia e a fraqueza europeia, bem como o seu desprezo pelas contribuições dos membros da NATO em relação ao Afeganistão, deixaram exposta a dura realidade de que a velha ordem está morta – e sem margem para ser ressuscitada.
Junte-se a isto um Conselho de Paz para Gaza que inclui o presidente da Bielorrússia e um convite enviado ao presidente russo Vladimir Putin para fechar o quadro de uma semana estranha.
Ninguém captou melhor o clima do que o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, cujo discurso no Fórum Económico Mundial, em Davos, na quarta-feira, enfureceu Trump.
“Estamos no meio de uma rutura, não de uma transição”, afirmou Carney, fazendo um apelo àquilo a que designou de “potências médias”.
“Se não estiverem à mesa, estão no menu”, rematou.
Há sinais de que o Ocidente começa a perceber que, enquanto abordagem, uma resistência franca é melhor do que uma acomodação silenciosa. Além da indignação com as declarações de Trump sobre o Afeganistão, os europeus também se mostraram consternados - e manifestaram-no - com a ameaça do presidente dos EUA a oito países europeus com tarifas punitivas por apoiarem a Gronelândia enquanto parte da Dinamarca.
A Europa já ameaçou impor tarifas como forma de retaliação. O Parlamento Europeu respondeu com um congelamento do acordo comercial entre a União Europeia e os EUA.
Reino Unido, França, Alemanha e Itália rejeitaram os convites para se juntarem ao Conselho de Paz de Trump, por não quererem ficar subordinados a ele enquanto presidente desta entidade.
“É claro que estou preocupado com a presença de Putin no Conselho de Paz”, referiu o primeiro-ministro do Reino Unido Keir Starmer, depois de Trump ter afirmado que o líder russo tinha concordado em participar. Moscovo não confirmou esta informação.
“Ultrapassadas tantas linhas vermelhas”
Na quarta-feira, Trump retirou a ameaça das tarifas e moderou a sua retórica sobre uma tomada militar da Gronelândia.
“Fomos bem-sucedidos por resistir, por não escalarmos o conflito, mas também por mantermo-nos firmes”, afirmou Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia.
Depois disso, veio a parte mais difícil.
“Sabemos que temos de trabalhar cada vez mais por uma Europa independente”, juntou.
O primeiro-ministro belga, Bart De Wever, foi mais explícito.
“Estávamos dependentes dos EUA, por isso optámos pela suavidade. Mas, agora, estão a ser ultrapassadas tantas linhas vermelhas, que se torna preciso fazer uma escolha de amor-próprio”, referiu.
“Se recuarmos agora, vamos perder a nossa dignidade. E essa é, provavelmente, a coisa mais preciosa que se pode ter numa democracia: a nossa dignidade”.
Se a Europa aprendeu alguma coisa, foi isto: está, provavelmente, a semanas (ou a menos do que isso) do próximo episódio de drama transatlântico, seja ele a Gronelândia, a Ucrânia, as tarifas - ou qualquer outra área que se torne um foco para Trump.
“A ameaça imediata foi retirada. A opção militar está agora fora de questão. Até voltar a ser considerada”, diz Grégoire Roos, diretor dos programas para a Europa e Rússia na Chatham House.
Roos defende que a verdadeira ameaça à Europa está no domínio económico dos EUA, exemplificado pela dependência europeia das importações de gás natural americano.
“A UE continua estruturalmente exposta à pressão do seu aliado mais próximo. Esta pressão dos EUA pode ser exercida de várias formas, sem ultrapassar o limiar do uso da força”, nota
Perante esta montanha-russa, há outra questão que se levanta: na resposta, irão os europeus demonstrar unidade e urgência?
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, também presente na Suíça na semana passada, argumentou que tal ainda não aconteceu.
Numa referência ao filme "Groundhog Day”, Zelensky afirmou o seguinte: "No ano passado, aqui em Davos, terminei o meu discurso com estas palavras: 'A Europa precisa de saber defender-se’. Passou um ano e não mudou nada”.
Não é totalmente verdade. Como escreveu o analista militar Mick Ryan, também investigador associado do Center for Strategic and International Studies [Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais], no seu blogue Futura Doctrina: “A Europa mudou significativamente ao longo da guerra e aumentou o seu apoio militar, económico e de inteligência à Ucrânia”.
A União Europeia criou um formidável fundo para a Ucrânia comprar armamento, concedeu milhares de milhões em créditos e alargou a sua própria produção militar, embora partindo de uma base muito baixa.
Contudo, o processo de decisão da UE é complexo: em matéria de defesa e segurança, conseguir o apoio de 27 governos é como tentar chegar a um esquilo num jardim.
A Europa “ainda se preocupa com os valores a que a velha ordem aspirava, pelo menos nominalmente”, escreveu este fim de semana o comentador Martin Sandbu no Financial Times.
“Incorpora a ordem na forma como os seus membros partilham a sua soberania. Todavia, nunca servirá de âncora global enquanto não levar a sério o esforço que isso implica”, argumentava Sandbu.
Existe já um plano de 400 páginas. Há dois anos, Mario Draghi, antigo primeiro-ministro italiano e, tal como Carney, antigo presidente do banco central, escreveu um relatório que traçava o desafio da Europa: investimento maciço em capacidades militares conjuntas, tomada de decisões mais ágil e melhor aproveitamento da inovação.
Salientando que a força de trabalho da Europa deverá diminuir dois milhões por ano até 2040, Draghi alertou que “a estabilidade geopolítica está a diminuir” e que “as nossas dependências acabaram por se revelar vulnerabilidades”.
Carney deu à avaliação de Draghi um passo em frente, alertando que a antiga ordem baseada em regras estava a ruir perante a “intensificação da rivalidade entre as grandes potências, onde as mais poderosas perseguem os seus interesses, usando a integração económica como coerção”.
“A nostalgia não é uma estratégia, mas acreditamos que, a partir da rutura, podemos construir algo maior, melhor, mais forte e mais justo”, defendeu o primeiro-ministro canadiano no final do seu discurso em Davos, onde recebeu uma ovação.
De Wever, o primeiro-ministro belga, veio o aviso que a transição poderá ser perigosa, recordando as palavras do filósofo italiano Antonio Gramsci: “Se o velho está a morrer e o novo ainda não nasceu, então vivemos numa época de monstros”.
“Cabe a (Trump) decidir se quer ser um monstro”, rematou De Wever.