ANÁLISE || As explicações da administração Trump para a guerra com o Irão têm-se sucedido e contradito em poucos dias. Depois de Marco Rubio apontar para uma reação iminente de Teerão a ações israelitas, Donald Trump apresentou uma versão diferente, alegando que o Irão se preparava para atacar primeiro os Estados Unidos - aprofundando a confusão sobre a base da decisão de ir para a guerra
As justificações apresentadas pela administração Trump para entrar em guerra com o Irão já eram um emaranhado confuso e autocontraditório.
Mas, na terça-feira, Trump piorou ainda mais a situação - arrasando a explicação confusa da administração apresentada na segunda-feira.
Apenas um dia depois de o secretário de Estado Marco Rubio ter afirmado que o Irão representava uma ameaça iminente — porque responderia a ataques iminentes de Israel atacando forças norte-americanas - Trump avançou com uma explicação totalmente diferente: a de que o Irão iria lançar ataques preventivos contra os EUA por iniciativa própria.
“Foi a minha opinião que eles iam atacar primeiro”, disse o presidente.
E, com isso, o lançamento desastrado da argumentação da administração Trump a favor da guerra entra em mais um capítulo.
Rubio já tinha causado surpresa com as suas declarações na segunda-feira.
“Sabíamos que ia haver uma ação israelita”, disse Rubio. “Sabíamos que isso iria precipitar um ataque contra forças norte-americanas e sabíamos que, se não avançássemos preventivamente contra eles antes de lançarem esses ataques, sofreríamos mais baixas.”
Isto era problemático por várias razões.
Desde logo, era diferente das explicações apresentadas nos dias anteriores ao início da guerra sobre a razão pela qual o Irão representava uma ameaça iminente. O enviado especial de Trump, Steve Witkoff, que liderava as negociações com Teerão, afirmou inicialmente que o Irão estava “provavelmente a uma semana” de ter material para fabricar uma bomba nuclear. Depois, Trump, no seu discurso sobre o Estado da União, na semana passada, afirmou que o Irão “em breve” teria capacidade para atacar os Estados Unidos com um míssil balístico intercontinental (ICBM).
Mas essas alegações não estavam alinhadas com as informações dos serviços de inteligência dos EUA nem com declarações anteriores da própria administração de que teria “obliterado” o programa nuclear iraniano apenas oito meses antes.
Além disso, a explicação de Rubio fazia soar a situação como se Israel fosse a cauda a abanar o cauda - como se os EUA estivessem a deixar que um aliado ditasse a decisão de ir para a guerra. Na terça-feira, a administração Trump tentou dissipar essa ideia, afirmando que a explicação de Rubio não dizia respeito ao motivo pelo qual os EUA foram para a guerra, mas sim ao motivo pelo qual foram naquele momento específico.
Mas Trump veio agora contrariar essa narrativa, voltando a baralhar a mensagem da sua administração. Questionado na terça-feira sobre se Israel o tinha forçado a agir, afirmou que era o Irão que estava prestes a atacar.
“Foi a minha opinião que eles iam atacar primeiro”, afirmou Trump sobre o Irão. “Iam atacar se nós não o fizéssemos. Iam atacar primeiro. Eu senti isso com muita convicção.”
E acrescentou: “E, com base na forma como as negociações estavam a decorrer, acho que iam atacar primeiro, e eu não queria que isso acontecesse. Portanto, se alguma coisa, posso ter sido eu a forçar a mão de Israel.”
Trump pareceu depois apontar para possíveis divergências dentro da sua própria administração sobre o assunto.
“Nós pensámos, e eu pensei talvez mais do que a maioria - posso perguntar ao Marco - mas eu achei que íamos ter uma situação em que seríamos atacados”, disse Trump. “Eles estavam a preparar-se para atacar Israel. Estavam a preparar-se para atacar outros. Estão a ver isso agora mesmo. … Portanto, acho que eu tinha razão.”
O secretário da Defesa, Pete Hegseth, interveio pouco depois nas redes sociais, afirmando que a explicação de Trump estava “100% correta”.
E, após as declarações de Trump, Rubio negou na terça-feira à tarde ter atribuído qualquer parte da justificação à necessidade de seguir Israel. Em vez disso, alinhou-se com a explicação mais recente do presidente.
“O essencial é o seguinte: o presidente determinou que não iríamos ser atingidos primeiro. É tão simples quanto isso. Não vamos colocar tropas norte-americanas em perigo”, disse Rubio aos jornalistas no Capitólio.
É difícil exagerar o quanto isto contradiz a versão anterior de Rubio e abre um novo conjunto de problemas.
A ideia de que o Irão estava prestes a atacar os EUA seria a justificação mais simples e direta, caso fosse sustentada por provas. Mas, notavelmente, não foi essa a justificação apresentada por Rubio - nem por mais ninguém - pelo menos até terça-feira.
Rubio apresentou antes uma teoria muito mais complexa, em que uma ação iminente de Israel tornava, por extensão, iminentes ataques iranianos contra os EUA. É discutível se isso constituía justificação suficiente, mas, pelo menos, era logicamente plausível.
No entanto, também arriscava consolidar uma narrativa pouco favorável a Trump - a de que ele não era a figura dominante, mas estava a ser conduzido ou até pressionado para a guerra por Israel.
Essa já era uma narrativa que suscitava preocupações em certos círculos. E já vimos Trump tentar reivindicar o mérito pela morte do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, mesmo quando a sua administração procurou sublinhar que essa parte da missão foi levada a cabo por Israel.
Assim, embora não seja exatamente surpreendente que Trump tenha tentado corrigir em excesso, acabou por criar um novo conjunto de problemas.
A questão agora será saber que informações de inteligência sustentam a afirmação de Trump. Se essas informações não existirem, levanta-se a perspetiva de que os EUA tenham entrado em guerra basicamente com base numa premonição de Trump.
E a administração já vai pelo menos na quarta explicação diferente para justificar por que razão o Irão representava uma ameaça iminente em menos de 10 dias, incluindo as duas versões mais recentes que se contradizem diretamente.
Trump não é estranho a atirar ideias à parede para ver o que pega. Mas é outra coisa completamente diferente fazê-lo com um tema tão sério como a justificação para a guerra — especialmente quando militares norte-americanos já morreram.