União Europeia prepara-se para retaliar contra as tarifas comerciais impostas por Donald Trump com uma lista de produtos que é tudo menos inocente. Bruxelas quer atingir em cheio os estados republicanos, que são o suporte do presidente Trump, e produtos como gelados, gravatas e lingeries podem ser peças bem mais estratégicas do que parecem à primeira vista
A União Europeia (UE) está a preparar uma ofensiva comercial contra os Estados Unidos da América e os alvos vão da carne à roupa interior. Tudo escolhido a dedo para castigar e atingir onde mais dói politicamente: os estados republicanos que apoiam e que colocaram Donald Trump na Casa Branca. No fim do dia, e numa altura em que se espera o aumento de preços em território norte-americano, o mesmo efeito pode ser sentido nos 27.
A retaliação europeia chega em resposta às novas tarifas impostas por Trump sobre os parceiros comerciais. Bruxelas responde com precisão cirúrgica e um toque de "sarcasmo económico": não se trata apenas de comércio, trata-se de política. E o campo de batalha parece os produtores norte-americanos e as fábricas do chamado “cinturão de ferro”, que alberga estados decisivos nas últimas eleições, como é o caso do Michigan.
Segundo um documento interno a que o jornal Politico teve acesso, a Comissão Europeia planeia aplicar tarifas até 25% sobre um vasto leque de exportações norte-americanas, avaliadas em cerca de 22,1 mil milhões de euros (com base nas importações da UE em 2024). A lista foi pensada ao detalhe para causar impacto direto na economia - e no orgulho dos estados mais leais a Trump.
Entre os principais alvos estão produtos como soja, carne, tabaco, ferro, aço e alumínio. A escolha não é inocente: a soja, por exemplo, é essencial para a alimentação animal e, indiretamente, para toda a cadeia de produção de carne, leite, queijo ou iogurte. Mais ainda: 80% da soja exportada para a Europa vem do Louisiana, o estado do atual presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson.
O tabaco é outro setor muito sensível, tanto pelo peso económico como pelo impacto social da sua escassez.
Tudo produtos que podem vir a encarecer na UE, o que também implica naturalmente a economia portuguesa. Veja-se o caso da soja, um dos produtos que Portugal mais importa dos Estados Unidos: 61% da soja triturada importada por Portugal vem do lado de lá do Atlântico, num valor que custa quase 137 milhões de euros, de acordo com o mais recente documento do Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral.
Trata-se de um produto utilizado para, entre outras coisas, alimentar o gado. Significa isso que o custo de produção associado a todos os produtos que tenham origem nas vacas, por exemplo, podem ficar mais caros. A lógica é simples: se custa mais 25% importar a soja, a ração de uma vaca vai ficar 25% mais cara. Esse aumento terá de se refletir, naturalmente, no produto final, o que encarece não apenas a carne, mas o leite, o quejo e os iogurtes.
As tarifas deverão entrar em vigor de forma faseada. A 15 de abril regressam as tarifas sobre o sumo de laranja e arandos, originalmente impostas em 2018, no primeiro mandato de Trump como presidente norte-americano, e suspensas em 2021. A 16 de maio segue-se o segundo pacote: aço, carne, chocolate branco e polietileno com taxas de 25%. E a 1 de dezembro, mais uma ronda, desta vez com tarifas sobre amêndoas e soja.
De acordo com o Politico, estas medidas poderão afetar 13,5 mil milhões de dólares em exportações provenientes de estados republicanos.
Mais do que tarifas: uma jogada política
Bruxelas parece ter dado asas à criatividade. A lista final de produtos, que será votada esta quarta-feira pelos Estados-membros (sem previsão de grande oposição), inclui verdadeiros símbolos da cultura e economia dos “estados vermelhos”, onde os republicanos como Trump jogam em casa: gelado do Arizona, lenços de bolso da Carolina do Sul, cobertores elétricos do Alabama, gravatas da Florida, máquinas de lavar do Wisconsin, ou até… massa da Carolina do Sul.
Como cereja no topo do bolo: lingeries do Ohio e Kentucky mantêm-se na versão final da proposta, mantendo um dos toques mais provocadores da lista.
Nos EUA, os produtores já reagem com alarme. A indústria da soja apelou à administração Trump para travar a escalada comercial, lembrando que “as tarifas não são algo a ser tomado de ânimo leve”.
Trump, no entanto, mantém a linha dura. Recusou a proposta da União Europeia para um acordo de “zero por zero” em tarifas sobre produtos industriais (automóveis, maquinaria, plásticos, medicamentos) e exigiu que a Europa comprasse 350 mil milhões de dólares em energia norte-americana: tudo para eliminar o défice comercial “em uma semana”.
O que se segue?
Caso estas medidas não surtam efeito, Bruxelas ainda tem um "trunfo” guardado: avançar com tarifas sobre serviços norte-americanos, algo que poderia abrir um novo e perigoso capítulo na já tensa guerra comercial.
Por agora, a mensagem é clara: a Europa está disposta a jogar no mesmo tabuleiro de Trump e conhece bem as regras do jogo