Como os Estados Unidos querem uma Europa "fraca o suficiente" para poder ser dominada

10 dez 2025, 08:00
António Costa com Donald Trump (Evan Vucci/AP)

As declarações de Donald Trump, na entrevista ao Politico, sobre a suposta "decadência" da Europa não são um acaso, nem um momento de irritação diplomática. Na opinião dos especialistas ouvidos pela CNN Portugal, são, isso sim, a face pública de uma estratégia mais profunda, coerente e construída para enfraquecer o projeto europeu, abrindo espaço à influência direta de Washington sobre cada governo nacional

A ofensiva verbal de Donald Trump contra a Europa - que o presidente norte-americano classificou como "decadente" e "liderada por pessoas fracas" - não é, segundo os especialistas ouvidos pela CNN Portugal, um mero desabafo político. É antes a formulação pública de um plano pensado, estruturado e que se encaixa numa nova geopolítica a três vértices: Washington, DC, Moscovo e Pequim. Os líderes destas nações têm objetivos diferentes, mas convergem num mesmo ponto: a ideia de que uma Europa forte é um obstáculo, mas uma Europa fraca é uma oportunidade. 

Miguel Baumgartner descreve Trump como "um vértice de uma nova troika, de um triângulo amoroso entre Putin, Xi Jinping e os Estados Unidos". Para o especialista, cada um destes líderes percebeu que a União Europeia é "um bloco económico poderoso, mas politicamente frágil", e é precisamente essa fragilidade que querem explorar. "A Europa tornou-se uma pedra no sapato. Tem valores, tem direitos, tem poder económico, e, por isso, os três perceberam que era fácil começar a minar", afirma. 

Para a China, interessa, na opinião do especialista, um continente permeável, com menos barreiras regulatórias e mais espaço para escoar a sua produção. Para a Rússia, uma Europa dividida significa menos resistência política, militar e económica às suas ambições territoriais. Para Trump, a União Europeia retirou poder aos Estados Unidos ao unir os países num bloco económico capaz de dizer 'não' e isso é algo que a sua visão estratégia quer desfazer. 

Miguel Baumgartner sublinha que o problema não está apenas na crítica de Trump à imigração ou ao papel europeu na guerra da Ucrânia, mas no facto de o presidente norte-americano já ter assumido que pretende apoiar abertamente forças políticas alinhadas com a sua visão, algo que não é um fenómeno novo. "Apoiou Fico, apoiou Orbán, apoiou Babiš, que foi esta terça-feira indigitado como primeiro-ministro da Chéquia, vai apoiar Bardella, possivelmente o Vox e até o Chega. Isto porque ele não quer uma Europa em bloco, mas dividida em nações que estejam debaixo da sua mão protetora."

A "internacional populista" que ameaça a arquitetura europeia

José Filipe Pinto, especialista em relações internacionais, lembra que Trump nunca escondeu que governa com uma lógica transnacional - "tudo é negócio - e procura aliados que partilhem o mesmo ADN nacionalista. "Donald Trump é um líder populista cultural e identitário e acredita que os verdadeiros guardiões da cultura europeia são os partidos populistas, nacionalistas e nativistas", considera. 

O projeto não é novo, lembra. Já no primeiro mandato, Steve Bannon percorreu a Europa para tentar organizar uma "internacional populista". "O Chega, o Vox, o Reagrupamento Nacional, a AfD, os suecos democratas, a Liga, os Fratelli d'Italia, o partido de Nigel Farage... todos fizeram parte desta tentativa", explica José Filipe Pinto. Para Trump, estes partidos são aliados estratégicos porque rejeitam "a soberania de serviço" que a integração europeia exige, e porque defendem uma ideia de identidade europeia ameaçada pela imaginação conspirativa da "grande substituição". 

"Ele não pretende uma União Europeia forte. Pretende uma União Europeia útil. Útil para legitimar aliados, útil para aceder a fundos, mas fraca o suficiente para não ser uma força política autónoma", sintetiza o professor.

O problema, para ambos os especialistas, é que a Europa facilitou o trabalho dos que a querem enfraquecer. Na opinião de Miguel Baumgartner, a Europa "juntou dinheiro, mas nunca juntou política". Entre divergências internas - do Médio Oriente ao apoio militar à Ucrânia - e líderes que "não empolgam os seus próprios cidadãos", a União Europeia tornou-se num projeto incompleto. 

"O 'azar dos Távoras' dos europeus é terem tido nos últimos anos os piores políticos possíveis a comandar a Europa. Quando pensamos em Jacques Delors, Mitterrand, Felipe González, Margaret Thatcher, Helmut Kohl e depois olhamos para os líderes atuais, percebemos porque é que a Europa não tem força na mesa. Hoje estamos com os Montenegros desta vida, que são líderes fracos que não têm sequer força dentro de portas, quanto mais para trazer um espírito de união ou de um novo projeto europeu", considera.

A ausência de uma visão comum explica também porque a interferência externa encontra terreno fértil. "Os europeus também interferiram nas eleições americanas, apoiaram Hillary Clinton, Biden, andaram a bater no peito pela Kamala Harris. Era sabido que Donald Trump não ia esquecer esta situação, por isso agora é a vez dele de responder e fazer essa interferência", observa, sugerindo que as declarações de António Costa - quando defendeu que "não podemos aceitar esta ameaça de interferência na vida política da Europa" - têm pouco impacto.

"Não vale muito. É diplomacia obrigatória, ele como presidente do Conselho Europeu tem de ter essa postura, mas não altera nada", entende Miguel Baumgartner.

Como pode reagir a Europa?

Para José Filipe Pinto, a Europa está numa posição tão dependente dos Estados Unidos que não pode confrontar Trump de forma direta. A prioridade, na sua opinião, deve ser o pragmatismo. "A União Europeia tem de aprender a conviver com Donald Trump, não pode esticar a corda em demasia. Durante muitos anos abrigou-se debaixo do chapéu protetor dos Estados Unidos e da NATO, então tem de preservar a relação transatlântica e, ao mesmo tempo, fazer aquilo que não fez antes: reduzir a dependência estratégica."

A Europa tem de usar o tempo, algo que Trump não tem. "Faltam dois anos para as eleições nos EUA. Ele não se pode recandidatar. A Europa só precisa de sobreviver politicamente a este ciclo, sem abdicar dos seus princípios. A União Europeia tem de perceber que não pode confundir os Estados Unidos com a administração de Donald Trump, essa é uma administração transitória", sublinha o professor. 

No entanto, sobreviver não chega. Miguel Baumgartner defende que a União Europeia precisa de uma transformação profunda para voltar a ser relevante. "A Europa tem de se desregular, desburocratizar, aprofundar o caráter político. Vai ter de eleger um Presidente da Europa por voto direto. O Parlamento Europeu precisa de poder real."

Europa

Mais Europa