Não é a primeira vez que Trump faz este tipo de ameaça. O presidente americano está descontente com a a falta de apoio dos países europeus à sua campanha no Irão
A Itália e a Espanha juntaram-se a uma lista crescente de países aos quais o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaça retirar as tropas americanas, no âmbito de uma revisão mais ampla da presença militar dos EUA na Europa.
"Os Estados Unidos estão a estudar e a analisar a possível redução das tropas na Alemanha, devendo ser tomada uma decisão nos próximos dias", escreveu o presidente americano na plataforma Truth Social na quarta-feira à noite. Na quinta-feira, alargou a sua ameaça à Itália e à Espanha.
"Quero dizer, eles não têm estado propriamente a bordo", respondeu Trump, quando questionado por jornalistas sobre a possibilidade de cortes no número de tropas nos dois países. "Sim, provavelmente fá-lo-ei», acrescentou Trump, "Porque não haveria de fazê-lo? A Itália não tem ajudado em nada. A Espanha tem sido absolutamente horrível. Sem dúvida."
Não é a primeira vez que Trump faz este tipo de ameaça - já o tinha feito em março.
Itália: a relação com Meloni mudou por causa do Irão
Espanha e Itália têm criticado abertamente a guerra de Trump no Médio Oriente. A primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, antes uma aliada próxima, desentendeu-se com o presidente dos EUA devido à relutância de Roma em aderir ao conflito – "falta-lhe coragem", disse Trump – bem como às suas críticas aos comentários "inaceitáveis" de Trump sobre o Papa Leão XIV. Meloni também recusou a utilização de uma base aérea na Sicília por aviões militares dos EUA que transportavam armas para a guerra no Irão, depois de os EUA não terem seguido o procedimento de autorização exigido.
O ministro da Defesa italiano, Guido Crosetto, rejeitou as acusações de que Roma não teria ajudado os EUA, especialmente no que diz respeito à segurança marítima no estreito de Ormuz. "Não compreendo os motivos", afirmou à agência noticiosa ANSA na quinta-feira. Referindo-se às acusações de Trump de que os europeus teriam atravessado o estreito de Ormuz, afirmou que isso não é verdade e que "também nos colocámos à disposição para uma missão de proteção da navegação". "Isto foi muito apreciado pelas forças armadas americanas", acrescentou.
O jornal La Repubblica observou que existem sete bases americanas em Itália, com até 15.000 soldados, que, por exemplo, fornecem à Itália sistemas de defesa aérea cuja substituição levaria uma década. Segundo a CNN, em dezembro, havia mais de 12. 600 militares norte-americanos no ativo destacados na Itália.
Espanha: divergências antigas
Por outro lado, o espanhol Pedro Sánchez tem sido o governante europeu que tem criticado mais veemente Trump da guerra desde o início, enfrentando repetidamente todo o tipo de reações iradas e ameaças por parte de Trump em resposta, incluindo a imposição de um embargo comercial ou a suspensão da adesão à Nato (o que nem sequer é uma possibilidade real). Até ao momento, não houve qualquer reação pública por parte do governo espanhol a esta nova ameaça.
Já na semana passada, a Reuters publicou um memorando interno do Pentágono que sugeria que os EUA estavam a considerar suspender a Espanha da NATO. Não é totalmente claro como se esperava que isso acontecesse, uma vez que não existe um procedimento óbvio a seguir que permitisse aos EUA tomar essa decisão sem os outros aliados.
Existem 3.200 soldados norte-americanos em Espanha, principalmente na base naval de Rota e na base aérea de Morón.
E agora a Alemanha: Merz disse que os EUA estavam a ser “humilhados” pelo Irão
Quanto ao chanceler alemão Friedrich Merz, nas horas que se seguiram ao início da campanha no Médio Oriente insistiu que "este não é o momento para dar lições aos aliados". O seu tom alterou-se após uma visita aos EUA em março, quando afirmou que não conseguia "ver qualquer estratégia clara". Finalmente, atraiu a ira de Trump esta semana por ter dito que os EUA estavam a ser “humilhados” pelo Irão e criticado a administração por não ter uma estratégia eficaz para pôr fim à guerra.
“Todo o assunto é, no mínimo, mal planeado”, afirmou na seginda-feira, ao mesmo tempo que enfatizou o desejo de Berlim de que a guerra termine o mais rapidamente possível. “Neste momento, não consigo ver que saída estratégica os americanos estão agora a optar.”
Na terça-feira, Trump atacou Merz diretamente numa publicação no Truth Social, escrevendo: "O chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, acha que não há problema em o Irão ter uma arma nuclear. Ele não sabe do que está a falar!" E continuou: "Não admira que a Alemanha esteja a ir tão mal, tanto economicamente como noutros aspetos!"
Na quinta-feira, na sequência do anúncio de Trump de uma possível retirada de algumas tropas da Alemanha, Merz reiterou novamente a importância da aliança transatlântica para Berlim: "Como sabem, esta parceria transatlântica é particularmente importante para nós – e para mim, pessoalmente", disse ele aos jornalistas numa base militar em Münster.
Existem 36.436 militares norte-americanos no ativo permanentemente estacionados na Alemanha, de acordo com dados do Centro de Dados de Recursos Humanos da Defesa dos EUA (DMDC) divulgados em dezembro de 2025 – um número significativamente superior ao de outros países europeus. Trump já tinha ameaçado reduzir o número de tropas no país em 2020, durante o seu durante o seu primeiro mandato e enquanto Angela Merkel ocupava o cargo de chanceler alemã.
O Médio Oriente veio aprofundar o fosso entre Washington e a Europa
As tensões entre os líderes europeus e a administração Trump intensificaram-se devido à guerra entre os EUA e Israel, que os EUA lançaram sem notificar a maioria dos aliados da Nato. A Alemanha foi informada com antecedência dos ataques iniciais, afirmou um porta-voz do governo à Associated Press. Os países europeus recusaram-se a envolver-se diretamente no conflito, salientando, em vez disso, a importância de encontrar uma solução diplomática. Em resposta, Trump ameaçou reconsiderar a adesão dos EUA à Nato e referiu-se à aliança militar como um "tigre de papel".
Tal como alguns outros países europeus, a Alemanha ofereceu apoio militar limitado aos EUA, permitindo, nomeadamente, a utilização da sua infraestrutura militar, como bases aéreas, para operações relacionadas com o conflito — embora não tenha permitido que estas fossem utilizadas como bases de lançamento para ataques ofensivos diretos. Merz também prometeu mais assistência alemã, sob a condição de o conflito passar para uma fase pós-guerra. Isto poderá incluir a participação numa possível missão internacional de estabilização.
Para o efeito, Berlim anunciou recentemente que um navio de guerra para a remoção de minas será destacado para o Mar Mediterrâneo, em preparação para os esforços de reabertura do Estreito de Ormuz, assim que for alcançado um fim duradouro das hostilidades. Esta medida surgiu na sequência de apelos de Trump para que os aliados enviassem navios de guerra e navios de remoção de minas para ajudar a garantir a segurança do estreito. A Alemanha faz parte de uma coligação liderada pela Grã-Bretanha e pela França que procura garantir a passagem segura de embarcações através desta via marítima crucial. No entanto, estas medidas não conseguiram satisfazer Trump.
