Trump e Musk eram "melhores amigos", agora são outra coisa qualquer. E isso tem consequências no valor da Tesla - e quem investe na empresa está a pedir para que Musk se concentre nela em vez de na política
Musk não consegue largar o megafone político, mesmo que isso prejudique a Tesla
por Allison Morrow, CNN
O plano de Elon Musk para salvar a Tesla está a desmoronar-se mais depressa do que um foguetão da SpaceX. O plano era este: Musk, que se tornou um seguidor fervoroso do MAGA (acrónimo para o slogan Make America Great Again, da candidatura de Donald Trump à presidência dos EUA), largaria os jogos políticos em Washington e voltaria ao trabalho.
O seu império estava à deriva sem si e, em particular, a Tesla encontrava-se em queda livre. Os investidores ansiavam pelo antigo “toque de Midas” de Musk para reanimar as vendas e transformar a empresa de veículos eléctricos num colosso de inteligência artificial à altura do seu (ainda elevado) valor de mercado.
Mas afinal pode tirar-se o CEO de Washington mas não se pode tirar Washington do CEO.
A Tesla deverá anunciar esta quarta-feira mais um trimestre de queda nas vendas globais - uma queda já esperada após meses de receitas em declínio, fruto do aumento da concorrência no mercado de veículos eléctricos e de uma considerável erosão da reputação da marca, muito por culpa do papel de Musk como “melhor amigo” de Trump.
Agora, seria natural imaginar que, se se é o CEO de uma empresa cujas vendas estão em queda acentuada, iria querer evitar polémicas públicas que pudessem enfraquecer ainda mais a confiança dos investidores na liderança. Ou então pode seguir-se o estilo Musk.
Esta semana, apenas um mês depois de ter deixado o cargo de conselheiro especial do governo para se concentrar na recuperação da Tesla, Musk voltou a mergulhar no lamaçal político de Washington, ao lançar mais uma crítica a Trump - desta vez por causa da sua lei orçamental, acusada de fazer explodir o défice.
Musk chamou à legislação emblemática de Trump “insana” e ameaçou fazer campanha contra os republicanos no Congresso que votassem a favor dela. Trump respondeu sugerindo que a sua administração poderia investigar os contratos governamentais das empresas de Musk. (Sim, uma conversa digna de adultos…)
“O que era uma relação de melhores amigos tornou-se uma novela que continua a ensombrar as ações da Tesla”, afirmou o analista Dan Ives, da Wedbush - defensor de longa data da Tesla - numa nota enviada a clientes esta terça-feira. “Os investidores da Tesla querem que Musk se concentre em liderar a empresa e deixe de lado estas questões políticas… estar na lista negra de Trump não acabará bem e Musk sabe disso”.
Apesar de continuar otimista em relação à Tesla, Ives tem alertado nos últimos meses para os danos que as investidas políticas de Musk têm causado na imagem da empresa - o que só agrava o problema das vendas.
Antes do relatório de quarta-feira, os analistas previam que as vendas da Tesla teriam caído 13% no período de abril a junho, em comparação com o ano anterior. A estimativa da FactSet apontava para 387 mil entregas no trimestre, contra 444 mil no mesmo período de 2024. Isso poderá revelar-se ainda pior do que o primeiro trimestre, quando a Tesla registou a sua maior queda homóloga de vendas de sempre.
Mas as vendas estão longe de ser o único problema da Tesla.
A empresa viu os lucros líquidos caírem 71% no primeiro trimestre. As suas lojas têm sido alvo de protestos. O Cybertruck foi um fracasso. E, segundo um novo relatório divulgado esta terça-feira (Electric Vehicle Intelligence Report), tanto republicanos como democratas dizem estar menos dispostos a comprar um Tesla hoje do que antes da passagem de Musk pela Casa Branca.
E, como relatou o meu colega Chris Isidore no mês passado, a situação é ainda pior do que parece.
Se olharmos com atenção para os lucros do primeiro trimestre da Tesla, vemos que a empresa está a perder dinheiro naquilo que deveria ser o seu negócio principal: vender carros. Resumindo, a Tesla só conseguiu um lucro de 409 milhões de dólares no último trimestre graças à venda de 595 milhões em créditos regulatórios a outros fabricantes.
Mas, se Trump conseguir fazer aprovar a sua nova lei de despesas, esses créditos podem desaparecer. E este é apenas um dos muitos motivos pelos quais investidores como Ives esperam que Musk e Trump enterrem o machado de guerra (ou, pelo menos, que Musk consiga manter a boca fechada durante cinco minutos).
A Tesla depende desses créditos para se manter lucrativa, mas também precisa de regulamentações favoráveis para conseguir competir com rivais como a Waymo - a empresa de táxis autónomos da Alphabet, que já está muito à frente da Tesla neste campo.
As ações da Tesla, que são a base da fortuna pessoal de Musk, caíram 37% desde o pico após as eleições, quando Musk se tornou presença regular em Mar-a-Lago. Na altura, Wall Street acreditava que os problemas da Tesla eram geríveis e que qualquer reação negativa da sua base liberal seria compensada pelas vantagens de Musk ter influência na Casa Branca.
E talvez tenha sido assim - por pouco tempo. Mas o desentendimento entre os dois agora preocupa os investidores, que receiam que Trump decida vingar-se diretamente da Tesla.
À medida que a disputa Musk-Trump reacendia na segunda-feira, as ações da Tesla caíram 2%. Na terça-feira, caíram mais 5%, ficando de fora da recuperação geral do mercado.
A mensagem pode estar finalmente a chegar a Musk. Depois de Trump ter dito que o DOGE - o comité criado por Musk para reduzir a burocracia federal - poderia ser um “monstro” que “voltaria para devorar o Elon”, Musk pareceu conter-se. Mais ou menos.
“É tão tentador escalar isto. Tão, tão tentador”, escreveu no X. “Mas vou abster-me… por agora”.