Pressões, mentiras e vídeos. Como Trump tentou reverter os resultados das eleições

24 jun, 20:50

Telefonemas para Governadores estaduais, pedidos de falsificação de resultados, assédio a altos funcionários. O que se sabe até agora sobre os testemunhos da Comissão de Inquérito do Congresso dos Estados Unidos sobre os motins no edifício do Capitólio de 6 de janeiro

A Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga os motins no Capitólio de 6 de janeiro ouviu depoimentos dos funcionários dos comités eleitorais e altos funcionários Federais, como o antigo Procurador-Geral, Bill Barr. A grande maioria falou de um Presidente Trump pronto a anular resultados que lhe deram uma derrota nas presidenciais de novembro de 2020.

Mas o processo está longe de acabar. Quinta-feira, o painel de nove membros ouve alguns dos funcionários do Departamento de Justiça que rejeitaram as insistências de Trump para que o processo eleitoral fosse declarado inválido.

Enquanto isso, Trump procurava estratégias para mudar os resultados. Esperam-se os testemunhos de altos representantes do Departamento de Justiça dessa época, que vão explicar como conseguiram resistir às pressões do Presidente.

As audições das últimas duas semanas de junho são parte de um processo que procura demonstrar de que forma a pressão exercida pelo então Presidente Donald J. Trump sobre representantes no Congresso - o órgão legislativo bicameral do governo federal dos Estados Unidos e funcionários dos estados.   

“Um dilúvio de provas” contra Trump

Isto porque Trump é acusado de ter incitado à violência que teve lugar durante os motins de dia 6 de janeiro. Nesse dia, televisões de todo o mundo transmitiram imagens com centenas de apoiantes do Partido Republicano, mas, acima de tudo, de Trump, que invadiam o edifício do Capitólio e interrompiam a oficialização da vitória do candidato do Partido Democrata, Joe Biden. Momentos de uma violência que não tinham lugar no Capitólio desde 1814 – quando os britânicos ocuparam Washington D.C.  

Havia duas audições previstas para julho, com o objetivo de escrutinar o papel de organizações de extrema-direita nos motins, mas também para saber o que fazia Trump na Casa Branca à medida os ataques ocorriam. No entanto, Jamie Raskin, congressista Democrata e membro da Comissão de Inquérito, diz que há todo um “dilúvio de novas provas” que deverão ser incluídas nas audiências. Isso significa que as sessões terão de ser remarcadas. E que o processo poderá demorar mais tempo.

Entre as provas, estão imagens de um documentário britânico com entrevistas a Donald Trump e aos seus familiares. O documentário ainda não foi publicado, mas o realizador, Alex Holder, foi intimado para entregar as imagens em bruto à Comissão.

Mike Pence: De um tweet a ameaças de morte

Foram também ouvidos antigos assistentes do então vice-presidente, Mike Pence. Ambos referiram que Trump tentou convencer Pence a abandonar o seu papel de presidir à cerimónia de voto dos eleitores do Colégio Eleitoral, que votam de acordo com os resultados de cada estado. Mas Mike Pence recusou o pedido do Presidente, que escreveu num tweet que Pence “não tinha a coragem” para fazer o necessário.

O vice-presidente chegou a estar cerca de 12 metros de uma multidão armada que gritava palavras de ordem como “vamos enforcar Mike Pence,” como ficou demonstrado em vídeos exibidos na Comissão. O líder do painel concluiu que "Donald Trump tinha virado a turba contra o vice-presidente”.

Trump contra representantes da Georgia e do Arizona

Houve também representantes de vários estados a testemunhar “uma pressão inaceitável” da parte do então Presidente Trump. Foi o caso dos estados do Arizona e da Geórgia.

Rusty Bowers (Republicano) é Presidente da Câmara de Representantes do estado do Arizona. Disse à Comissão de Inquérito que Trump e os seus aliados lhe telefonaram várias vezes para anular as inscrições de eleitores e substituí-las por outras.

O Secretário de Estado da Georgia, Brad Raffensperger, (também Republicano) contou como correu uma chamada telefónica, que ficou famosa nos EUA, durante a qual o Presidente lhe disse que teria de “encontrar 11,780 votos.”

Tanto Bowers como Raffensperger, ambos Republicanos, rejeitaram as pressões de Trump. O Presidente da Câmara de Representantes do Arizona pediu provas, que nunca chegaram. O Secretário de estado da Geórgia disse algo semelhante: “procurámos em toda a parte e não encontrámos prova nenhuma. Mas Trump não queria aceitar o resultado.”

Rusty Bowers terá dito a Trump que o Presidente lhe exigia que “fosse contra o juramento que tinha prestado.” E que não tinha intenção de quebrar esse juramento.

Ivanka, uma história mal contada

A filha de Donald Trump, Ivanka, disse que tinha “aceitado” a posição do antigo Procurador-Geral, Bill Barr. No entanto, nas imagens captadas pelo realizador britânico, pode alegadamente ouvir-se a filha de Trump a sugerir que, aconteça o que acontecer, é importante “esgotar todas as vias legais possíveis.”

Nos Estados Unidos, o Procurador-Geral ocupa um cargo com funções de um Ministro da Justiça e de Procurador-Geral no sistema político dos Estados Unidos. Na altura, esse cargo era ocupado por Bill Barr, que saiu depois de dizer ao Presidente que não havia provas de fraude eleitoral.

Bill Barr disse que se esforçou tanto quanto lhe foi possível para convencer Trump, mas que este estava “desligado da realidade” e que “não tinha qualquer interesse em conhecer os factos”.

Giuliani, “claramente embriagado”  

Liz Cheney, representante Republicana pelo estado do Wyoming - e um dos dois membros do partido que aceitou integrar a Comissão de Inquérito, para além do representante do Illinóis, Adam Kinzinger - referiu, nas declerações iniciais, que o Presidente Trump tinha sido aconselhado por um Rudy Giuliani “aparentemente embriagado” a declarar vitória.

As declarações de Liz Cheney baseiam-se no depoimento prestado por Jason Miller, porta-voz da campanha de Trump, à Comissão de Inquérito. Quando questionado sobre se, na sua opinião, alguém se encontrava alcoolizado no quartel-geral de Donald Trump na noite eleitoral de 3 de novembro de 2020, Miller respondeu que Rudy Giulliani estava “claramente embriagado.”

E agora?

As próximas sessões da Comissão de Inquérito deverão ter lugar ao longo do mês de julho. Recorde-se que esta é uma investigação do poder legislativo dos Estados Unidos e que as conclusões deste processo poderão ou não resultar numa investigação criminal a nível federal.

E.U.A.

Mais E.U.A.

Patrocinados