Apesar de momentos verdadeiramente marcantes, foi difícil acreditar que Trump tenha conseguido inverter as perceções negativas da sua liderança, que já fazem alguns republicanos temer um descalabro em novembro
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi esta terça-feira à noite a uma festa de celebração de uma vitória no hóquei no gelo — e, pelo meio, realizou-se um Discurso do Estado da União.
Trump teceu uma narrativa de unidade nacional, prosperidade desenfreada e grandeza americana nas primeiras partes do seu relatório anual sobre “o país mais bem-sucedido do mundo”, num momento em que a sua popularidade está próxima de mínimos históricos. A sua habitual procura de lados positivos não foi apenas encenação. Precisava de aproveitar a maior audiência televisiva do ano para reconquistar americanos desiludidos com aquilo que antes eram os seus trunfos: imigração e política económica.
O presidente inspirou-se na equipa masculina de hóquei no gelo dos Estados Unidos, medalha de ouro olímpica, presentes na galeria da Câmara dos Representantes — que, no domingo, conseguiram algo raro numa era política conturbada: dar motivos de celebração tanto à América “vermelha” como à “azul”.
Homenagens hábeis e emotivas a heróis americanos pontuaram o discurso — que por vezes se assemelhou a uma cerimónia de entrega de prémios e a um ensaio patriótico para as celebrações dos 250 anos da independência dos Estados Unidos, previstas para este ano. Trump suavizou a sua imagem abrasiva ao distribuir distinções, incluindo a um veterano da Guerra da Coreia com 100 anos, e ao reunir uma mulher com o tio, libertado de uma prisão na Venezuela.
“O nosso país está a ganhar novamente. Aliás, estamos a ganhar tanto que já nem sabemos o que fazer com isso”, afirmou Trump. “As pessoas dizem-me: ‘Por favor, senhor presidente, estamos a ganhar demais. Já não aguentamos mais.’”
O verdadeiro Trump não fica escondido por muito tempo
No entanto, à medida que o mais longo Discurso do Estado da União de sempre se arrastava para lá da segunda hora, o velho Trump regressou. O presidente atacou os democratas por não se levantarem para o aplaudir, classificando-os de “doentes” e recordando a alguns eleitores as razões pelas quais não gostam dele — com tiradas contra migrantes indocumentados e falsas alegações de fraude eleitoral.
Ainda assim, a imagem conta — sobretudo para presidentes de segundo mandato e idade avançada. Trump projetou energia e vigor, dominando a sala e sublinhando que, apesar da sua natureza divisiva, continua a ser a figura política dominante do país. Tirando alguns apartes amargos, conseguiu controlar o temperamento e o tom. Republicanos receosos das suas habituais divagações furiosas terão ficado aliviados por ele ter apresentado, pelo menos, a melhor versão possível da sua mensagem para os eleitores mais fiéis.
Era particularmente importante para o presidente, de 79 anos, contrariar a narrativa de que está a tornar-se um “peso morto”, sobretudo depois de o Supremo Tribunal dos Estados Unidos ter travado as suas tarifas na sexta-feira, naquela que foi a sua pior derrota desde o regresso à Casa Branca. Trump elevou tanto a voz — por exemplo, ao proclamar ter conduzido “uma reviravolta histórica” — que chegou a distorcer o som do microfone.
Mas a questão que o acompanhava na subida ao Capitólio, na sua limusina presidencial, era se conseguiria alterar a trajetória política de um ano que se desenha desfavorável para os republicanos, a nove meses das eleições intercalares.
Uma nova sondagem da CNN/SSRS divulgada esta semana mostra que apenas 32% dos americanos consideram que Trump tem as prioridades certas. A sua taxa de aprovação entre adultos caiu para 36%.
Assim, era imperativo demonstrar aos eleitores — que lhe concederam um raro segundo mandato não consecutivo — que tem respostas, sobretudo para a crise do custo de vida que os aflige há anos.
Um retrato seletivo de um país em dificuldades
Apesar de momentos verdadeiramente marcantes, foi difícil acreditar que Trump tenha conseguido inverter as perceções negativas da sua liderança, que já fazem alguns republicanos temer um descalabro em novembro.
O presidente tem, de facto, algumas notícias económicas positivas. A inflação está mais baixa do que nos picos históricos registados durante a administração de Joe Biden. O preço dos ovos — uma das suas métricas económicas favoritas — desceu, à medida que os agricultores repõem as aves após uma epidemia de gripe aviária.
No entanto, muitas das suas afirmações sobre uma recuperação económica foram seletivas. Os preços nos supermercados continuam elevados para a maioria dos eleitores. Prometeu reformar o sistema de saúde — como tem feito em cada um dos seus cinco anos na Casa Branca — mas nunca conseguiu fazer aprovar no Congresso uma proposta consistente.
As suas alegações de que reduziu drasticamente o preço dos medicamentos sujeitos a receita médica exageram o impacto das medidas e ignoram o facto de ter permitido o fim de subsídios associados ao Affordable Care Act, tornando os cuidados de saúde incomportáveis para milhões de pessoas.
Os eleitores avaliarão as promessas do presidente — conhecido pelo seu talento comercial — à luz da sua experiência quotidiana. Para muitos, a promessa de uma nova “era dourada” económica não resistirá à próxima ida ao supermercado.
Trump compromete a sua própria mensagem de unidade
Trump prospera politicamente quando identifica um inimigo.
“Foram vocês que causaram este problema”, disse aos democratas na Câmara dos Representantes, ao discursar sobre o custo de vida. Mas os eleitores já tinham emitido o seu veredicto sobre a administração Biden em novembro de 2024.
O presidente poderia inverter a tendência — passando todos os dias até às eleições intercalares focado em reduzir o custo de vida, talvez com comícios à porta de supermercados ou pressionando legisladores na Casa Branca para aprovarem medidas concretas.
Em vez disso, dedica mais tempo a usar o poder do Estado para procurar vingança contra adversários, ameaçar aliados dos Estados Unidos e publicar ataques nas redes sociais do que a demonstrar empatia face às dificuldades económicas.
E a familiaridade pode estar a gerar cansaço. Trump domina a vida política americana há mais de uma década. Nesta fase, poucos americanos terão dúvidas sobre a sua opinião. E houve pouco no discurso de terça-feira que tranquilizasse eleitores negros, hispânicos e independentes que abandonaram os democratas em 2024 e ampliaram a sua coligação eleitoral.
À medida que o discurso se prolongava, Trump minou a própria mensagem de unidade. Os seus ataques duros a migrantes somalis evocaram o recente confronto entre agentes do ICE e manifestantes no Minnesota, que afastou muitos eleitores independentes. O presidente não mencionou Renee Good e Alex Pretti, mortos por agentes federais.
Passou largos minutos a defender políticas rejeitadas pela maioria dos eleitores, como as tarifas — que estão a contribuir para o aumento dos preços. E voltou a envenenar a democracia americana ao ressuscitar falsas alegações de que venceu as eleições de 2020, parecendo preparar o terreno para nova contestação eleitoral em novembro. “Eles fizeram batota, e a política deles é tão má que a única forma de ganharem eleições é fazer batota”, argumentou, referindo-se aos democratas.
O discurso decorreu no momento do maior reforço militar dos Estados Unidos no Médio Oriente desde a invasão do Iraque, em 2003, num contexto de nova tensão com o Irão.
“Jamais permitirei que o maior patrocinador do terrorismo no mundo — e é, de longe — tenha uma arma nuclear. Não podemos deixar que isso aconteça”, declarou, sem explicar como tal é possível, tendo já afirmado ter “obliterado” essas ambições num ataque americano no ano passado. Trump diz querer um acordo. Mas o presidente que chegou ao poder prometendo o fim das guerras no estrangeiro parece cada vez mais próximo de iniciar um novo conflito.
Trump precisava de contar uma história nova.
Mas acabou por demonstrar que, se o país pode unir-se para celebrar um novo “Milagre no Gelo”, a união política continua a ser um sonho impossível.