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Físico, Estratega & Ex Cripto-céptico

O Trumpolim em que o mundo se meteu

22 jan, 15:25

Este é um artigo europeu e tendencioso, mas que quer mostrar que é possível ser a favor de algo sem estar contra algo. É sobre dinheiro, mas é sobretudo sobre valor.

Alfred Nobel inventou a dinamite em 1866. Recebeu duras críticas pelo poder mortal da invenção que poderia rebentar o mundo, e chegou a ser apelidado de comerciante da morte, mas Alfred ficou rico, muito rico.

Irónicamente o tal comerciante da morte resolveu, em testamento, distribuir a sua fortuna por aqueles que a mais trouxessem, a cada ano, mais benefício para a humanidade em diversas áreas. O prémio Nobel foi um prémio que nasceu da vontade de dar e não da vontade de receber. O prémio Nobel não é uma taça, mas sim uma medalha que se atribui a feitos e não a competições, tal como o soldado de guerra ganha uma medalha por salvar o pelotão.

Lutar pelo primeiro lugar num prémio Nobel é tão ridículo quanto é contra todo o princípio da atribuição do prémio. O soldado não compete para ser o que salva o pelotão. O soldado simplesmente salva e ganha a sua medalha por devoção e não por competição. A medalha não vale dinheiro mas vale valor, e é por isso que um prémio Nobel não se pede, recebe-se.

Valor versus dinheiro

Há uma enorme diferença entre quem dá valor ao dinheiro e quem dá valor ao valor. Os EUA continuam a ser cheios de dinheiro e de inovação que impulsiona o mundo inteiro, mas talvez sem se darem conta, correm o risco de uma espiral descendente no que toca ao seu valor percebido globalmente. A Europa, com menos recursos para imprimir notas, tem apostado mais no legado intangível. O governo americano parece não saber que, enquanto houver boas impressoras, o dinheiro é infinito mas que o valor é escasso e, sobretudo, finito. O dinheiro é um papel bonito impresso que se pode replicar indefinidamente, o valor é o papel que cada um de nós representa para toda a humanidade.

Um país pode não ter o mesmo dinheiro de outro mas pode ter infinitamente mais valor, e é aqui que alguns americanos têm falhado de cada vez que dão saltos no Trumpolim para tentar que a cabeça apareça por detrás do muro.

A Europa vem de uma história de valores, com anos e anos de altos e baixos mas sempre na senda de uma evolução em que o dinheiro foi ganhando e perdendo valor, mas cuja sociedade se foi construindo com respeito pelo passado, consideração pelo próximo e atenção para com o seguinte. A Europa criou arte, criou moda, criou ciência, criou educação, e criou muito daquilo que o mundo precisa hoje para alimentar as máquinas de fazer dinheiro. Mas a Europa não fez tudo isso perdendo valor porque acabou, de uma forma ou de outra, por ir entregando à humanidade tudo aquilo que foi construindo. Fomos nabos na forma como lidámos com o dinheiro que fomos acumulando, mas fomos magnânimos no resultado da sociedade que construímos.

Entregámos colónias para não mais tentarmos absorver terras, culturas e riquezas de povos terceiros - embora muitas vezes tenhamos sido forçados a isso por guerras, custos insustentáveis e pressões internacionais que nos obrigaram a re-refletir , definimos fronteiras fixas pela justiça e não pelo medo da força ou pela força do medo. Construímos impérios que desmoronaram porque acabaram diluídos entre todos, e fizemos, com isso, a sociedade mais equilibrada e mais humana que seria possível criar com a diversidade de quem acomoda dezenas de países numa coexistência tensa, mas equilibrada, exigente mas respeitosa, prudente, mas amiga.

A Europa acomodou os princípios de Alfred Nobel. Na Europa damos mais do que recebemos. Damos nacionalidade, oportunidade, asilo, apoio, conforto, saúde, segurança, cidadania, ensino e tantas outras coisas que esta governação americana ou faz pagar bem caro, ou é simplesmente incapaz de dar porque parece não conseguir entender a diferença entre dinheiro e valor.

Na Europa até podemos pecar porque damos a mais. Talvez nos tivéssemos dado conta disso tarde demais e teremos ainda bastantes problemas por resolver - como na dependência energética da Rússia até há poucos anos, ou no subinvestimento crónico em defesa que nos deixou vulneráveis hoje, ou na imigração descontrolada, mas será melhor pecar por ter dado a mais do que ter dado a menos, porque vamos sempre a tempo de remediar tudo o que não é "irremediável.

Só que não permitimos que qualquer governante por mais rico que seja, entre Europa adentro a dizer o quanto fazemos mal em dar demais. É a nós que nos cabe perceber os nossos limites, defender os nossos valores e agir com base neles. É que na Europa, por princípio, acreditamos que o bem ganhará. Podemos até estar errados, mas estamos alinhados. Nascemos assim, vivemos assim, e passaremos a outros aquilo que somos, muitas vezes valorizando as próximas gerações e a s anteriores mais do que nós próprios. Os Europeus herdaram a Europa e deixarão a Europa a outros. Disso poderão estar todos certos.

Os soldados americanos gabam-se - e bem- de não deixar ninguém para trás, na Europa não precisamos de ser soldados para o fazer. Só precisamos de ser Europeus. às vezes falhamos, mas quase sempre tentamos.

Na atual pressão sobre a Gronelândia - com ameaças de tarifas que foram suspensas em Davos após supostas negociações com o secretário-geral da NATO e o anúncio de um "framework" de acordo futuro sobre segurança árctica e recursos -, era mais fácil (e talvez menos danoso a curto prazo) imaginar uma venda pura por dinheiro. Mas a Dinamarca e os groenlandeses recusam, não por teimosia, mas por soberania, autodeterminação e segurança coletiva valem mais que qualquer cheque. Os EUA perceberam com o tema das tarifas que deste lado não se encontrou racional por detrás da coação. Desta vez tocaram nos valores europeus, e desses a Europa não abdica ainda que tenha que comer pedras ao almoço e ao jantar.

É isso que nós somos e não é porque nos obrigaram, mas porque escolhemos ser. E é por isso que por vezes não sabemos muito bem lidar quando invadem um país nosso vizinho, quando nos aumentam as tarifas sem razão, ou quando nos tentam sacar todo o dinheiro da defesa para alimentar alguém que um dia pode ser nosso atacante. Somos de boa fé, acreditamos nos parceiros e nas relações que construímos em séculos de história e de histórias. Quem acredita nos valores acredita na boa fé, nas boas intenções, nos amigos.

Acabaremos por aprender com os nossos erros, quando confiamos mais do que devíamos e quando damos mais do que devíamos, mas estaremos sempre acima de qualquer sociedade, porque não daremos o primeiro tiro.

Quando os EUA - e todos nós - perceberem que o valor partilhado (defesa coletiva, inovação conjunta, normas comuns) vale mais que qualquer salto individual no Trumpolim ou que qualquer cheque isolado, estaremos mais fortes juntos. Não se trata de quem tem mais valor, mas de como o multiplicamos em aliança. Temos connosco todos aqueles que por vezes nos ameaçam como irmãos numa rixa, mas que estarão do nosso lado porque somos parceiros de sangue e nunca o quisemos derramado.

Américas, Ásia, África, de norte a sul, são nossos competidores mas não são nossos inimigos. Fazem-nos a vida negra mas são nossos amigos sobretudo porque não há razão para não o serem.

Os EUA estão, com esta política de amedrontação, a juntar todos aqueles que há muito temo não se viam nem se falavam e isso está a construir um mundo novo que decidiu manter a harmonia enquanto outros saltavam descontroladamente no tal Trumpolim.

O que nos define, mais do que quaisquer outros, é que, no fim do dia, e porque o mundo dá muitas voltas por dia e os governos uma volta a cada 4 anos, cá estaremos para aceitar e entender os americanos e esta sua fase menos boa. Cá estaremos para nos mantermos próximos e disponíveis prontos a deixar momentos para trás das costas e valorizar o antes e o depois, em vez do agora.

Ao fim e ao cabo, o tema é no fundo muito mais complexo do que o aqui descrito, mas, em súmula, a verdade é que o mundo vai girando em torno daqueles que inspiram e não em torno dos que aspiram e também gira em torno do valor das coisas que o dinheiro não consegue comprar.

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