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"Destino Manifesto": o que é esta doutrina imperialista que Trump promete recuperar - e atualizar, porque vai incluir Marte

20 jan 2025, 20:11

"Vamos perseguir o nosso Destino Manifesto até às estrelas, lançando astronautas americanos para plantar as estrelas e riscas [da bandeira da América] no planeta Marte"

Donald Trump está de regresso à Casa Branca e abriu a porta divina: "Tentaram matar-me há uns meses. Deus salvou-me para tornar a América grande de novo". Deus não discursou neste dia da tomada de posse do 47.º presidente norte-americano mas o próprio Trump sim: anunciou que vai fazer dos EUA “uma nação em crescimento” que “expande os territórios”, prometendo seguir o “Destino Manifesto”, uma antiga ideologia que defendia a anexação de territórios como o Canadá e o México. Mas também quer expandir-se além-Terra e quer pôr a bandeira dos EUA em Marte.

"Os EUA vão ser considerados uma nação em crescimento. Uma que aumenta a nossa riqueza, expande os nossos territórios, constrói as nossas cidades, aumenta as nossas expectativas e carrega a nossa bandeira para novos horizontes. Vamos perseguir o nosso Destino Manifesto até às estrelas, lançando astronautas americanos para plantar as estrelas e riscas [da bandeira da América] no planeta Marte", promete.

A doutrina do Destino Manifesto foi uma ideologia bastante popular nos Estados Unidos no século XIX, que se baseia na crença de que os cidadãos norte-americanos têm o direito moral e a missão divina de se expandir nos territórios da América do Norte, do Atlântico até ao Pacífico. Esta ideologia é considerada pelos historiadores como uma das primeiras expressões de imperialismo norte-americano.

Inicialmente utilizada por John L. O’Sullivan, um editor de uma revista ligada ao partido democrata, em 1845, o termo foi cunhado para expressar a inevitabilidade da expansão norte-americana e a necessidade de anexar o Texas, o que viria a resultar numa guerra entre os Estados Unidos e o México.

Os defensores da doutrina defendem que os norte-americanos têm a responsabilidade moral e espiritual de levar os valores a outros povos e regiões. Originalmente, a doutrina assentava na ideia de que a cultura americana, as suas práticas religiosas e o seu sistema político eram superiores aos das populações indígenas e dos mexicanos que habitavam nos territórios para os quais os americanos se queriam expandir.

Em 1845, o presidente democrata James K. Polk utilizou a doutrina do Destino Manifesto como justificação para anexação do Texas e voltou a utilizá-la um ano mais tarde para lançar uma guerra contra o México para expandir as possessões norte-americanas até ao Pacífico, conquistando Califórnia, Nevada e Utah. Outros estados, como o Oregon e o Alasca, foram comprados com o Destino Manifesto como justificação.

Mas muitos dos mais fervorosos defensores desta doutrina argumentavam que o destino norte-americano não se ficava apenas pela conquista dos territórios que ligavam o Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico. Conhecidos como “continentalistas”, os defensores desta variante acreditavam que o Destino Manifesto americano deve incluir territórios como o Canadá ou México.

No dia 7 de janeiro deste ano, Donald Trump abriu a porta para a anexação militar de territórios como o Canal do Panamá ou a Gronelândia e abriu a porta à utilização da “força económica” para tornar o Canadá o 51.º estado norte-americano. Apesar de não ter nomeado o Canadá ou a Gronelândia no seu discurso de tomada de posse, Trump não perdeu a oportunidade de sugerir que a América de Trump vai “expandir os seus territórios” e perseguir o “Destino Manifesto”.

Durante a altura em que a doutrina do Destino Manifesto foi popular na política americana, várias pessoas defendiam que a democracia e os valores americanos devia ser expandidos a outras regiões além do continente, como Cuba, o Pacífico e a América Latina. Apesar de tudo isto, Donald Trump insiste que quer ficar conhecido como alguém que faz a paz e que é um "unificador" - mas lançou sérias ameaças ao Panamá. 

"O Canal do Panamá foi dado ao país do Panamá, depois de os EUA terem gasto mais dinheiro do que em qualquer outro projeto e terem perdido 38 mil vidas para construir o canal. Este presente nunca devia ter sido feito. Os navios americanos estão a ser severamente maltratados", afirmou, garantindo que "vamos recuperá-lo".

Em 1861, com a explosão da guerra civil nos Estados Unidos, a política americana vira-se para dentro para as questões internas e passa a focar-se em resolver questões como a escravatura, os direitos dos estados e a preservação da união. A devastação criada por cinco anos de guerra acabaria por tirar espaço à retórica expansionista, que perdeu espaço para o debate em torno da reunificação e da reconstrução do país. Com a aquisição do estado do Alasca, em 1867, os americanos começaram a dar como “concluída” a missão de expansão territorial na América do Norte.

Ainda assim, esta ideologia era controversa, até mesmo no seu tempo. Hoje a doutrina é altamente criticada por justificar práticas imperialistas através de uma noção de superioridade moral e até mesmo divina.

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