"I'm the fucking president": descontrolado, malcriado, violento, déspota - Trump volta a espantar a América

29 jun, 21:52
Apoiantes de Trump ignoram o distanciamento e protestam junto ao Congresso

Novas revelações sobre a invasão do Capitólio podem valer uma acusação grave ao ex-Presidente dos EUA. O chefe dos Serviços Secretos teve mesmo de travar Trump fisicamente naquele dia em que a democracia americana foi atacada

Não era um nome a que muitos associassem a Trump mas Cassidy Hutchinson, de 26 anos, deu um dos mais brutais testemunhos à comissão parlamentar que está a investigar o envolvimento do ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump no assalto ao Capitólio no dia 6 de janeiro de 2021. Em resposta a perguntas da copresidente da comissão - a republicana Liz Cheney -, a jovem de 26 anos que desempenhou o papel de assessora principal do chefe de gabinete da Casa Branca, Mark Meadows, descreveu calmamente um presidente com comportamentos errantes e determinado a juntar-se aos seus apoiantes - que sabia estarem armados - para invadir o centro legislativo do Estado norte-americano.

Além de frases como "eu sou a merda do presidente" ou “levem-me já para o Capitólio"!, o testemunho de Hutchinson contou com revelações inéditas que podem reforçar o processo penal contra Trump e o seu círculo interno, nomeadamente Rudy Giuliani e Mark Meadows. Uma das revelações foi que, alguns dias antes de 6 de janeiro, Pat Cipollone, o advogado da Casa Branca, tinha avisado explicitamente que se Trump fosse ao Capitólio no dia 6 de janeiro poderia estar potencialmente implicado nos crimes de obstrução da justiça e de obstrução da contagem eleitoral. 

Através do testemunho de Hutchinson, o Congresso dos Estados Unidos ouviu algumas das mais graves acusações até agora sobre a influência de Trump no ataque ao Capitólio, mas também sobre a sua indiferença para com o resultado final. Eis sete momentos de uma declaração de duas horas sobre o envolvimento de um presidente num dos maiores ataques à democracia norte-americana.

Cassidy Hutchinson discursa no Congresso sobre o que viu durante o ataque ao Capitólio no dia 6 de janeiro de 2021/ AP

 

1. “Não estão aqui para me magoar. Tirem a merda dos detetores de metais. Deixem a minha gente entrar. Podem marchar para o Capitólio a partir daqui”

Cassidy Hutchinson testemunhou que a 6 de janeiro Trump insistiu que fossem tomadas medidas de segurança na sua manifestação “Parem com o Roubo”, após a derrota nas eleições de 2020, com o objetivo de aumentar o tamanho da multidão, argumentando que as pessoas que transportavam armas "não estavam aqui para me magoar". Hutchinson disse que ouviu Trump dizer algo no sentido de "'não me interessa que eles tenham armas, eles não estão aqui para me magoar, tirem a merda dos detetores de metais, deixem o meu povo entrar, eles podem marchar até ao Capitólio a partir daqui".  Na manifestação, Trump encorajou os seus apoiantes a marchar até ao Capitólio.

O raciocínio de Trump, disse a ex-alta funcionária, era fazer com que os seus apoiantes armados “não se sentissem excluídos", disse Hutchinson. Trump terá ficado "furioso" quando os serviços de segurança começaram a expulsar pessoas do protesto. 
 

2. "Eu sou a merda do presidente. Leva-me agora para o Capitólio!"

A antiga assessora principal do chefe de gabinete da Casa Branca disse à comissão parlamentar que ouviu de um alto funcionário da segurança presidencial, chamado Tony Ornato, informações acerca de uma discussão no dia da invasão. Enquanto Trump continuava a pressionar para ir ao Capitólio na sequência do seu discurso aos apoiantes na manifestação "Parem o Roubo", o ex-presidente foi informado, enquanto era conduzido no veículo presidencial conhecido como "a Besta",  de que teria de voltar à Casa Branca em vez de ir ao Capitólio. Hutchinson contou ter ouvido Tony Ornato dizer que Trump “atirou-se ao volante do carro e foi fisicamente retido pelo chefe dos Serviços Secretos, Robert Engel”. Ornato, testemunhou, "descreveu [Trump] como estando zangado”. O presidente disse algo no sentido de "eu sou a merda do presidente, leva-me agora para o Capitólio".

3. “Ketchup a escorrer pela parede”

Sinais da fúria de Trump tinham vindo a surgir há semanas, segundo revelou Hutchinson, recordando que o ex-presidente “atirou um prato de comida à parede depois de o seu Departamento de Justiça ter desmentido as suas alegações de fraude eleitoral” - uma bandeira do republicano após ter perdido as eleições e que levou a mais de 50 processos (todos rejeitados) em diversas instâncias federais e estatais.

Após o então procurador-geral William Barr ter dado uma entrevista à Associated Press em dezembro de 2020 assegurando que as denúncias de fraude eleitoral não correspondiam à realidade. “Trump ficou tão furioso que atirou o seu prato de comida à parede, manchando-o com ketchup”, disse Hutchinson.

"Havia ketchup a pingar pela parede e um prato de porcelana partido no chão", testemunhou Hutchinson, garantindo que os assistentes próximos de Trump disseram que ele ficou “extremamente zangado” pela entrevista. À comissão parlamentar, a ex-assessora explicou que depois pegou numa toalha e começou a limpar o ketchup da parede.
 

4. “Há muita coisa a acontecer, Cass, as coisas vão ficar mesmo muito más no dia 6 de janeiro”

A assessora do chefe de gabinete de Trump, Mark Meadows, revelou que estava “assustada e nervosa” nos dias que antecederam a invasão do Capitólio após ter conversado sobre o assunto com a sua chefia, mas também com o advogado de Trump, Rudy Giuliani. De acordo com o testemunho, Meadows disse a Hutchinson que “as coisas vão ficar mesmo muito más". Já Giuliani disse-lhe que ia ser “um grande dia” e que “íamos para o Capitólio”. Ela descreveu Mark Meadows como “não preocupado”, depois de os oficiais de segurança da Casa Branca lhe terem dito que as pessoas na manifestação de Trump tinham armas automáticas e “armaduras”.

Hutchinson revelou que redigiu uma declaração para Trump assinar a pedir aos manifestantes que tinham entrado no Capitólio "ilegalmente" para sair. Mas segundo o seu testemunho, Mark Meadows levou o rascunho a Trump, que riscou a palavra "ilegalmente" e se recusou a emiti-la. Hutchinson foi depois informada de que não haveria "mais nenhuma ação sobre essa declaração".

Stephanie Grisham, antiga chefe de gabinete e secretária de imprensa da primeira dama, Melania Trump, revelou mais tarde no Twitter um screenshot de uma troca de mensagens entre ela e a primeira dama no dia 6 de janeiro e na qual Melania se recusou a emitir uma declaração a condenar a "ilegalidade e violência" no Capitólio. Grisham demitiu-se do seu cargo nesse dia.

5. “Ele (Trump) acha que Mike (Pence) merece” ser enforcado

Como relatado no testemunho no Congresso, minutos após a multidão ter invadido o Capitólio, o chefe de Gabinete da Casa Branca, Mark Meadows, parecia imperturbável e relutante em agir. Nessa altura, o presidente Donald Trump, em vez de pedir aos seus apoiantes para desistirem e irem para casa, defendeu os cânticos que pediam que o vice-presidente Mike Pence fosse enforcado por validar os resultados eleitorais. Hutchinson ficou “frustrada”. Foi como um "prever um acidente de carro grave e não conseguir fazer nada para impedi-lo", disse. 

Momentos mais tarde, Hutchinson testemunhou que o advogado da Casa Branca, Pat Cipollone, entrou de rompante no escritório de Mark Meadows. "Os amotinados chegaram ao Capitólio, Mark. Precisamos de descer e ver o presidente agora." Meadows, segundo o relato, olhou para cima e respondeu:  "Ele não quer fazer nada, Pat". "Mark, algo tem de ser feito ou pessoas vão morrer e o sangue vai estar nas suas mãos", respondeu Cipollone. "Isto está a ficar fora de controlo. Eu vou lá abaixo." 

Meadows e Cipollone levantaram-se e os dois desceram para ver Trump na sala de jantar. Quando voltaram, disse Hutchinson, ficou claro que Trump não iria fazer nada. "Eles estão literalmente a pedir que o vice-presidente seja enforcado", disse Cipollone a Meadows. "Ouviram-no, Pat", respondeu Meadows. "Ele acha que Mike o merece. Ele acha que eles não estão a fazer nada de errado. Isto é uma loucura, foda-se", disse Cipollone.

6. Trump “queria perdoar” apoiantes que invadiram o Capitólio

No dia 7 de janeiro de 2021, 65 dias depois das eleições presidenciais nos Estados Unidos, Donald Trump finalmente reconheceu a vitória de Joe Biden. Uma decisão tomada em parte, disse Cassidy Hutchinson, porque havia uma "grande preocupação" por parte da Casa Branca de que Pence poderia invocar a 25ª emenda para retirar Trump do poder.

Se a 25ª emenda tivesse sido invocada, Trump poderia ter colocado a sua presidência à votação no Congresso, onde dois terços teriam sido necessários para o expulsar. Hutchinson testemunhou: "Havia uma grande preocupação quanto à possibilidade de a 25ª emenda ser invocada e havia preocupações quanto ao que aconteceria no Senado se assim fosse".

Hutchinson também testemunhou que Trump fez questão de não incluir no seu discurso qualquer alusão a processar criminalmente os participantes no assalto ao Capitólio e que, em vez disso, os queria perdoar. "Ele não queria isso aí dentro", disse Hutchinson. "Ele queria colocar aquilo que queria, que era potencialmente perdoá-los. Ele não pensou que eles tivessem feito algo de errado. As pessoas que fizeram algo de errado naquele dia - ou a pessoa que fez algo de errado naquele dia - foi Mike Pence por não estar com ele."

Na altura, o pensamento era de que Trump precisava do discurso "como cobertura" para se proteger da ameaça de ser expulso. No entanto, disse a antiga funcionária da Casa Branca, essa era uma "razão secundária". “A primária era de que Trump precisava de condenar o ataque violento para tentar impedir que se tornasse no seu legado.”

7. “Estou a proteger quem preciso de proteger, sabes, vou continuar a ficar nas boas graças do mundo de Trump”

Além daquilo que Cassidy Hutchinson revelou, a comissão de inquérito obteve o testemunho de alguns dos membros do círculo interno de Trump, incluindo membros da sua família. Mas sugeriu durante a audiência no congresso que podia haver uma espécie de bloqueio imposto por Trump e que o painel tem novas provas de intimidação de testemunhas. A republicana Liz Cheney apontou para um testemunho não identificado: "O que me disseram foi ‘enquanto eu continuar a ser um jogador de equipa, eles sabem que estou na equipa, estou a fazer a coisa certa, estou a proteger quem preciso de proteger, sabes, vou continuar a ficar nas boas graças do mundo do Trump".

E.U.A.

Mais E.U.A.

Patrocinados