É urgente Born in the USA.
É urgente O Touro Enraivecido.
Com estes versos, inspirados no arranque de Urgentemente, um dos mais famosos poemas de Eugénio de Andrade (publicado no poemário Até amanhã, de 1956), quero assinalar a necessidade, ou mesmo a urgência, de vermos filmes protagonizados por De Niro e ouvirmos a discografia de Bruce Springsteen.
Porquê? Porque são dois artistas na linha da frente contra o trumpismo, porventura as vozes mais corajosas e com menos papas na língua – pelo menos entre aquelas com exposição mundial – na denúncia dos perigos, loucuras e retrocessos encarnados pelo chefe da Casa Branca.
“Os Estados Unidos que amo, os Estados Unidos sobre os quais tenho escrito e que foram um farol de esperança e liberdade durante 250 anos”, alertou o cantor norte-americano na quarta-feira passada em Manchester, “estão atualmente em mãos de uma administração corrupta, incompetente e traidora”. No arranque da nova digressão europeia, adiada no ano passado por problemas de saúde, o autor de Born in the USA deixou clara a vontade de dar uma dimensão política ao concerto. “Esta noite, pedimos a todos os que acreditam na democracia, e no melhor da nossa experiência americana, que se levantem connosco, levantem as vozes contra o autoritarismo e deixem a liberdade soar”.
Estas palavras, cuja frase final podia ter sido escrita por Eugénio de Andrade, ou mais provavelmente por Ary dos Santos no pós-25 de Abril, não caíram bem na Sala Oval. “Estou a ver que o altamente sobrevalorizado Bruce Springsteen foi a um país estrangeiro falar mal do Presidente dos Estados Unidos”, começa por escrever Donald Trump num longo post na sua rede social, Truth Social. “Nunca gostei dele, nunca gostei da sua música nem da sua política de esquerda radical e, o que é mais importante, não é talentoso. É apenas um IMBECIL prepotente e desagradável que apoiou fervorosamente o corrupto Joe Biden, um idiota mentalmente incompetente e o nosso PIOR presidente de sempre, que esteve prestes a destruir o nosso país”, prosseguiu, antes de rematar: “Este roqueiro ressequido como uma ameixa seca (tem a pele toda atrofiada!) DEVERIA MANTER A BOCA FECHADA”.
O combate dialético subido de tom e as ameaças do mandatário não devem ter impressionado Robert De Niro, que na véspera do concerto de Springsteen em Manchester recebeu a Palma de Ouro honorária no festival de cinema de Cannes. “No meu país, estamos a lutar como feras pela democracia que em tempos considerámos garantida”, disse o ator, de 81 anos, depois de receber o prémio das mãos de Leonardo DiCaprio.
“Isto diz respeito a todos os que estamos aqui, porque as artes são democráticas, a arte é inclusiva e junta as pessoas, como esta noite. A arte procura a verdade. A arte abraça a diversidade, e é por isso que a arte é uma ameaça”, acrescentou De Niro. “É por isso que somos uma ameaça para autocratas e fascistas. O bronco Presidente dos Estados Unidos (...) curtou o financiamento e o apoio às artes, humanidades e educação”, continuou o premiado.
Meses antes, antes ainda da segunda vitória eleitoral de Trump, o intérprete de Taxi Driver, O Padrinho II e dezenas de outros filmes clássicos (e algumas comédias de gosto variável) foi anda mais crítico com a potencial reeleição, numa entrevista ao pivô da CNN Chris Wallace. O diálogo foi assim (pergunta primeiro Wallace, responde De Niro):
— Está mesmo preocupado com a ideia de que, caso [Trump] ganhe novamente, e não estou a dizer isto como se fosse uma ideia assim tão absurda, não vai abdicar do poder?
— Você sabe que não vai o largar! Ele até falou disso! Nunca vai abdicar do poder. E quem se iludir e pensar que sim, tenha vergonha!
— Vocês são ambos de Nova Iorque. Tiveram algum incidente nos anos 70 ou 80? Quer dizer, há aqui alguma questão pessoal? — Não. Nunca quis ter nada a ver com ele. É um totó, um idiota, quem haveria de querer conhecer um palhaço como ele?
A eventual retaliação de Trump deve ter sido (não sei se houve, mas pouco importa) pelo menos tão mordaz e carregada de testosterona. Tudo isto seria entretido, ou até divertido, se não estivesse mesmo a acontecer, se Trump não tivesse tomado posse como o 47º POTUS (President of the United States) em Janeiro. Mas o discurso de Springsteen em Manchester na semana passada põe as coisas no lugar e faz um novo ponto da situação.
Durante a interpretação de My City in Ruins, o cantor de 75 anos fez uma pausa. Sentado no palco e com acordes de piano de fundo, explicou que, no seu país, estão a acontecer “merdas estranhas e perigosas”. A seguir deu alguns exemplos: “Estão a perseguir pessoas por usarem o seu direito à liberdade de expressão e expressarem a sua dissidência. Isto está a acontecer agora. Na América, os homens mais ricos ficam satisfeitos condenando as crianças mais pobres do mundo à doença e à morte”.
“Isto está a acontecer agora”, voltou a dizer, apontando desta vez para o chão. Já de pé e num tom ainda mais fúnebre, prosseguiu: “No meu país, sentem um prazer sádico na dor que infligem a trabalhadores americanos leais. Estão a revogar leis históricas dos direitos civis que levaram a uma sociedade mais justa e moral. Estão a abandonar os nossos grandes aliados e a aliar-se a ditadores”, concluiu.
Se isto não é um bom resumo da Administração Trump, uma boa descrição dos perigos que representa (e que supõem uma ameaça para milhões de pessoas em todo o mundo), e um discurso político relevante, não sei o que será. O que sei é que, se Donald Trump acha que Springsteen é “sobrevalorizado”, eu tendo a pensar o oposto. Se escreve que “não é talentoso” e que “deveria manter a boca fechada”, o meu impulso é ir imediatamente ouvir os discos do artista nascido em Nova Jérsia em 1949, três anos depois da sua némesis e, portanto, menos ressequido à partida.
O mesmo acontece com a filmografia de De Niro, o mais velho dos três (três anos mais velho do que Trump). De forma a recompensar estes dois artistas por serem tão afoitos na defesa de valores democráticos e direitos essenciais, a minha vontade é dar likes, partilhar e reproduzir as suas canções e filmes até ao infinito para disparar o algoritmo e, no mínimo, compensá-los pela inevitável perda de prestígio e reproduções entre os acólitos do líder republicano.
A questão da idade também é importante, porque pessoas mais novas e menos célebres, pessoas com a vida pela frente ou com carreiras em risco de sofrer ataques ou perder clientes pelo simples facto de criticarem Trump, sentem-se logicamente tentadas a medir mais as palavras.
Outros aspetos a ter em conta são a distância e o desconhecimento. Por exemplo: desconhecimento, ignorância, ou indiferença face ao texto, publicado no mês passado pela escritora Siri Hustvedt (também ela nova-iorquina), sobre a chegada do fascismo aos Estados Unidos e o consequente aumento do medo, constatada por académicos de renome e silenciada em parte por meios “colaboracionistas” ou acusados de praticarem sanewashing – isto é, aplicar um verniz de sensatez aos disparates racistas, xenófobos e misóginos de Trump, ou às suas frases incoerentes.
A distância também pode explicar a desvalorização dos danos causados pelo trumpismo em países como Portugal, onde não por acaso cresce cada vez mais o Chega (o mais trumpiano dos partidos à beira-mar plantados). Em Portugal, nos lugares mais insuspeitos, em casas e freguesias onde até há bem pouco, e durante quarenta anos, qualquer comentário à direita do PS era “fascismo”, agora há pessoas que defendem que Joe Biden “era pior que Trump”.
Pior que o fascismo? Pior que a deportação de milhares de inocentes, muitos deles empregados e integrados, em condições desumanas? Que as humilhações sofridas por milhões de “hispânicos” nos EUA de 2025 pelo simples facto de o serem? Pior que a ideia de fazer de Gaza um resort? Pior que apoiar os planos bélicos e os massacres de Putin e Netanyahu?
O pai de família que prefere Trump a Biden (ou Kamala Harris) é um homem pacato, com ar inofensivo e a pele mais escura do que a minha – escura o suficiente, receio, para ser suspeito em qualquer sala de aeroporto ou alfândega onde homens e mulheres maioritariamente brancos exercem hoje, impiedosamente, o poder que lhes foi entregue em bandeja pelo Grande Líder do Make America Great Again.
