MUNDIAL 2026

Saiba tudo aqui
Mais sobre o Mundial 2026

"Despistes", hesitações e um evento no clube de golfe. Como Trump tomou discretamente a decisão de lançar ataques ao Irão

CNN , Kevin Liptak, Jeremy Herb e Kristen Holmes
22 jun 2025, 17:08
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

Na noite de sexta-feira, enquanto o presidente norte-americano Donald Trump circulava pelo seu clube de golfe em Nova Jérsia, os aviões estavam prestes a levantar voo.

Aos olhos de quem o observava no clube, Trump mostrava pouca ansiedade relativamente à sua decisão de autorizar ataques aéreos contra três instalações nucleares iranianas — uma decisão com possíveis repercussões profundas tanto para a segurança nacional dos EUA como para o seu próprio legado presidencial. Os bombardeiros furtivos B-2, equipados com bombas antibunker de 13.600 quilos, preparavam-se para descolar à meia-noite da sua base no Missouri, com destino a Fordow, Natanz e Isfahan.

Outro conjunto de aviões seguia em direção ao oeste, numa tentativa deliberada de despistar, já que Trump exigira sigilo absoluto em torno desta decisão de enorme peso.

Enquanto conduzia Sam Altman, diretor executivo da OpenAI, a um evento para novos membros que decorria numa das salas de jantar do clube, Trump aparentava estar descontraído e — pelo menos em público — de bom humor, disseram algumas das pessoas presentes.

“Espero que ele tenha razão quanto à inteligência artificial”, brincou Trump a certa altura, acenando na direção do seu convidado.

Vinte e quatro horas depois, Trump encontrava-se na sala de crise (Situation Room), no piso inferior da Casa Branca, envergando um boné vermelho com o slogan “Make America Great Again”, enquanto assistia, em tempo real e através de um mural de ecrãs, aos ataques que havia autorizado dias antes, sob o nome de código “Operação Martelo da Meia-Noite”.

“Esta noite, posso anunciar ao mundo que os ataques foram um sucesso militar espetacular”, declarou Trump algumas horas depois, num discurso noturno no corredor principal da Casa Branca (Cross Hall). “O Irão, o bully do Médio Oriente, tem agora de fazer a paz. Se não o fizer, os próximos ataques serão muito maiores — e muito mais fáceis.”

A decisão de avançar com os ataques colocou os Estados Unidos diretamente no centro do conflito no Médio Oriente, levantando preocupações sobre represálias por parte do Irão e questões sobre qual é, afinal, o objetivo final de Trump. A decisão surgiu após dias de deliberação pública, durante os quais Trump alternou entre ameaças militaristas ao Irão nas redes sociais e receios privados de que uma ofensiva militar pudesse arrastar os EUA para uma guerra prolongada.

No entanto, na quinta-feira — o mesmo dia em que instruiu a sua porta-voz a anunciar que dava ao Irão duas semanas para regressar à mesa das negociações antes de decidir avançar com um ataque —, aliados que falaram com ele disseram que já era evidente que a decisão estava tomada.

Numa entrevista este domingo à NBC, o vice-presidente JD Vance afirmou que Trump manteve a possibilidade de cancelar os ataques “até ao último minuto”. Mas decidiu avançar.

Os responsáveis da administração tomaram grandes precauções para manter o planeamento em segredo. Adiar publicamente a decisão por duas semanas fez parte da estratégia de despiste — uma tática concebida para ocultar os planos de ataque, embora, segundo fontes oficiais norte-americanas, Trump só tenha dado a aprovação final no sábado.

No final da semana, os responsáveis norte-americanos já acreditavam que o Irão não estava disposto a regressar às negociações nem a aceitar um acordo nuclear satisfatório, depois de líderes europeus se terem reunido com os seus homólogos iranianos na sexta-feira, disseram duas fontes à CNN.

O ultimato público de Trump, anunciado como sendo de duas semanas, durou apenas 48 horas até que tomou uma das decisões mais significativas da sua presidência. A operação começou à meia-noite de sexta-feira, hora da Costa Leste dos EUA, com os bombardeiros B-2 a descolarem do Missouri para uma missão de 18 horas — a mais longa destes aviões em mais de duas décadas, afirmou o secretário da Defesa, Pete Hegseth, numa conferência de imprensa no Pentágono na manhã de domingo.

“Foi um plano que exigiu meses e semanas de posicionamento e preparação para estarmos prontos quando o presidente dos Estados Unidos desse a ordem”, disse Hegseth, ao lado do general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto. “Exigiu um elevado grau de precisão. Envolveu despiste e o mais alto nível de segurança operacional.”

Primeiras discussões sobre possíveis ataques dos EUA


As discussões sobre opções para eventuais ataques norte-americanos ao Irão intensificaram-se entre Trump e os membros da sua equipa de segurança nacional durante um retiro de fim de semana em Camp David, no início de junho, altura em que o diretor da CIA, John Ratcliffe, informou Trump de que, segundo as avaliações dos EUA, Israel estava prestes a iniciar ataques de forma iminente.

As opções para que Trump se juntasse à campanha israelita tinham sido delineadas nos meses anteriores, com os seus conselheiros já a terem resolvido entre si as divergências quanto ao leque de opções a apresentar ao presidente.

Na semana anterior à decisão final — que envolveu o uso de bombardeiros furtivos e submarinos da Marinha para atacar três locais nucleares iranianos — Trump realizou sessões de trabalho diárias na sala de crise (Situation Room), no piso inferior da Casa Branca, com a sua equipa de segurança nacional, para discutir os planos e ponderar as potenciais consequências.

Trump entrou nessas conversas secretas com duas preocupações principais: que um ataque dos EUA fosse decisivo na destruição de locais altamente fortificados, incluindo a instalação subterrânea de enriquecimento de Fordow; e que qualquer ação não arrastasse os EUA para o tipo de guerra longa e sangrenta que ele prometera evitar enquanto candidato.

Quanto ao primeiro ponto, os responsáveis norte-americanos mostraram-se confiantes na capacidade das bombas antibunker de penetrarem nas instalações, mesmo não havendo precedentes desse tipo de operação. No domingo, o general Dan Caine afirmou que as primeiras avaliações indicam “danos e destruição extremamente severos” nos três locais nucleares iranianos, embora tenha advertido que levará tempo até se conhecer o impacto real nas capacidades nucleares do país. (As autoridades iranianas, por sua vez, minimizaram os efeitos dos ataques.)

Quanto ao risco de uma guerra prolongada, os responsáveis admitiram não poder garantir ao presidente que as represálias do Irão — que poderiam incluir ataques a ativos ou pessoal norte-americano na região — não acabassem por arrastar os EUA para um novo atoleiro.

“Tal como o presidente ordenou e deixou claro, isto não é, de forma alguma, uma operação aberta ou indefinida”, afirmou no domingo o secretário da Defesa, Pete Hegseth. “Mas isso não limita a nossa capacidade de responder. E responderemos, se for necessário.”

A incerteza pareceu fazer Trump hesitar, e ao longo da semana afirmou publicamente que ainda não tinha tomado uma decisão, embora, nos bastidores, os seus conselheiros dessem como certo que a decisão já estava tomada.

Trump deixou o seu clube de golfe em Bedminster no sábado à tarde e regressou à Casa Branca para uma “reunião de segurança nacional” previamente agendada — uma deslocação invulgar para um fim de semana, mas já prevista na sua agenda oficial divulgada no dia anterior.

Os Estados Unidos transmitiram ao Irão, através de canais discretos, que os ataques ordenados por Trump no sábado seriam pontuais e que não estavam previstas novas ações, segundo duas fontes familiarizadas com essas conversações.

No entanto, a mensagem pública de Trump, no sábado à noite — avisando que futuros ataques dos EUA seriam “muito mais devastadores” caso o Irão respondesse — evidenciou o período imprevisível que agora se abre no Médio Oriente.

Um ultimato em abril


Em abril, Donald Trump lançou um ultimato ao Irão sobre um possível acordo nuclear, avisando Teerão de que teria 60 dias — até meados de junho — para chegar a um entendimento. Ao mesmo tempo, pediu ao primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, que adiasse qualquer ataque ao Irão para dar espaço e tempo às negociações.

Uma primeira ronda de conversações teve lugar em meados de abril, em Omã, entre os EUA e o Irão, liderada pelo enviado especial de Trump, Steve Witkoff, e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi. Apesar do tom relativamente otimista após as conversações, registou-se pouco progresso rumo a um acordo nuclear efetivo.

A 8 de junho — a menos de uma semana do fim do prazo dos 60 dias — Trump reuniu-se com os seus conselheiros em Camp David, onde lhe foram apresentadas várias opções em relação ao Irão. No dia seguinte, Trump falou por telefone com Netanyahu.

Algumas semanas antes, Netanyahu já teria dito a um grupo de congressistas norte-americanos que Israel estava prestes a atacar o Irão — e que não procurava autorização dos EUA para o fazer. Passados 61 dias do ultimato de Trump, Israel lançou ataques sem precedentes contra o Irão, visando o seu programa nuclear e líderes militares.

“O Irão devia ter-me ouvido quando disse — sabem, dei-lhes, não sei se sabem, mas dei-lhes um aviso de 60 dias e hoje é o dia 61”, afirmou Trump à jornalista Dana Bash da CNN, após o início dos ataques israelitas.

Contudo, altos responsáveis da administração Trump procuraram inicialmente distanciar-se da ofensiva, emitindo declarações a afirmar que se tratava de uma ação unilateral de Israel, sem envolvimento dos EUA.

Enquanto Israel prosseguia a campanha militar, Trump deslocou-se a Alberta, no Canadá, para uma cimeira do G7, mas regressou mais cedo a Washington “devido ao que está a acontecer no Médio Oriente”, segundo a Casa Branca. Ao longo da semana seguinte, Trump passou grande parte do tempo reunido na Situation Room com a sua equipa de segurança nacional para rever os planos de ataque e avaliar as suas potenciais consequências.

Na quinta-feira, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, leu uma declaração ditada por Trump: “Tendo em conta que há uma probabilidade significativa de negociações que podem ou não acontecer com o Irão num futuro próximo, tomarei a minha decisão sobre avançar ou não dentro das próximas duas semanas.”

Mas havia sinais claros de que a via diplomática estava estagnada. Witkoff tentou encontrar-se com o seu homólogo iraniano, Araghchi, sem sucesso.

Depois de uma reunião entre líderes europeus e o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, na sexta-feira em Genebra, os responsáveis norte-americanos concluíram que os iranianos não aceitariam sentar-se à mesa com os EUA sem que Trump pedisse a Netanyahu para parar os ataques israelitas — algo que, segundo fontes próximas, Trump não estava disposto a fazer.

Nessa mesma tarde, a caminho do seu clube em Nova Jérsia, Trump disse aos jornalistas que o prazo de duas semanas era o “máximo” e que poderia tomar a decisão mais cedo.

Ataques dos EUA envolveram mais de 125 aeronaves


Antes dos ataques desta madrugada, os Estados Unidos avisaram Israel de que iriam atacar. O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, manteve uma reunião de cinco horas com os principais responsáveis de segurança do país, que decorreu durante a realização dos ataques norte-americanos, segundo uma fonte familiarizada com o encontro.

Trump e Netanyahu voltaram a falar ao telefone depois da operação, e o primeiro-ministro israelita elogiou o ataque dos EUA numa mensagem em vídeo, afirmando que foi executado “com total coordenação operacional entre as Forças de Defesa de Israel (IDF) e os militares dos Estados Unidos.”

Os EUA também notificaram alguns parceiros do Golfo de que estavam prontos para atacar o Irão nos dias seguintes, mas não especificaram alvos nem o calendário, segundo uma fonte com conhecimento do assunto. A mensagem foi transmitida verbalmente, e houve uma reunião na Casa Branca onde alguns desses parceiros do Golfo foram informados.

Trump e a sua equipa mantiveram contacto com altos responsáveis republicanos do Congresso antes dos ataques de sábado, mas os principais democratas só foram informados depois de as bombas terem sido lançadas, segundo várias fontes. O secretário da Defesa, Pete Hegseth, afirmou no domingo que os líderes do Congresso foram notificados “imediatamente” após os aviões terem saído do espaço aéreo iraniano.

A operação começou à meia-noite de sexta-feira para sábado (hora da Costa Leste dos EUA). O general Dan Caine afirmou que os bombardeiros furtivos B-2 descolaram dos EUA, sendo que alguns seguiram para oeste como distração, enquanto os restantes “seguiram silenciosamente para leste, com comunicações mínimas durante as 18 horas de voo.”

A operação inédita envolveu sete bombardeiros furtivos B-2. No total, participaram mais de 125 aeronaves, incluindo aviões de reabastecimento, de reconhecimento e caças.

Por volta das 22h (hora de Lisboa), segundo Caine, um submarino norte-americano “lançou mais de duas dezenas de mísseis de cruzeiro Tomahawk contra infraestruturas de superfície críticas” no complexo nuclear de Isfahan.

Pouco depois, por volta das 23h40 (hora de Lisboa), ou 2h10 (hora local no Irão), o bombardeiro B-2 líder lançou duas bombas anti-bunker sobre o centro nuclear de Fordow, disse Caine, acrescentando que “os restantes bombardeiros atingiram os seus alvos” logo de seguida. Esses alvos adicionais foram atingidos, segundo Caine, “entre as 23h40 e as 00h05 (hora de Lisboa).”

Após a operação, as forças dos EUA “iniciaram o regresso a casa”, afirmou Caine, salientando que o Irão não disparou contra os aviões norte-americanos nem à entrada nem à saída do seu espaço aéreo.

Depois de os aviões dos EUA terem deixado o espaço aéreo iraniano, Trump revelou o ataque ao mundo através da sua plataforma de redes sociais, Truth Social:

“Concluímos com grande sucesso o nosso ataque aos três locais nucleares no Irão, incluindo Fordow, Natanz e Esfahan,” escreveu Trump, acrescentando que “foi lançada uma carga completa de BOMBAS sobre o principal alvo, Fordow.”

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Médio Oriente

Mais Médio Oriente