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"A direita portuguesa precisa de sair rapidamente do armário. Não tem de ter medo de ser de direita, sob pena de André Ventura se aproveitar disso"

30 abr, 08:00
Direita portuguesa ilustração CNN

PODCAST "FÚRIA ÉPICA" || “Trump é um retrocesso civilizacional, o ressurgimento da extrema-direita e de alguma extrema-esquerda na Europa também”, declara Nicolau do Vale Pais. Numa entrevista sobre populismos, Pais questiona: "Quem é que nos defende?" A pergunta é: "Com este sistema, com um défice de educação política e cívica nas escolas, que líderes é que temos esperanças que apareçam, se não demagogos?" É que "estamos num sistema que só pode ser demagógico, não pode ser outra coisa, porque para haver pedagogia tem que haver debate, para haver debate tem que haver tempo"

O Nicolau do Vale Pais é um observador sagaz da política nacional e, sobretudo, internacional. Ele é colunista e comentador ocasional, é empresário profissional, tem formação em teatro, o que lhe dá uma capacidade invulgar de analisar tragédias, comédias e as subtilezas entre as duas.

Nasceu em Londres, vive no Porto, foi ator, é músico e publicou este fim de semana, no site da CNN Portugal, um ensaio sobre populismo: “Se eu não votar nos Trumps, voto em quem?

Nota: a conversa foi editada na transcrição por razões de síntese e clareza.

Olá, Nicolau.

Olá.

Abres o teu ensaio com uma citação de Abraham Lincoln, um presidente republicano. Lincoln é um dos grandes presidentes da história dos Estados Unidos e um dos que não só mais discursos deixou, como mais discurso político criou, mobilizando então o presente e pondo em perspetiva o futuro de um país e o futuro de uma democracia então muito jovem. O excerto que escolheste para abrir o teu ensaio diz, resumidamente, que se o perigo alguma vez chegar, ele nascerá de dentro de nós. Porque escolheste esta citação?

Por várias razões. A primeira, pelo óbvio apreço que tenho pelo trabalho pedagógico, retórico, de homens como Abraham Lincoln, Barack Obama, ou Mário Soares, porque não dizê-lo também, sobretudo em Portugal depois do verão de 75. Mas também porque penso que atravessamos neste momento - nós ocidentais, europeus e americanos - um momento de alguma perigosa... eu não lhe queria chamar ignorância, mas desvalorização daquilo que é de facto o core da democracia e da sua manutenção enquanto sistema de progresso e cross-checking constante do abuso de poder.

As discussões têm sido demasiadamente "ideologizadas", isto é, estamos constantemente a ouvir uma parte e a sua contraparte, e com isto estamos a caminho de conflitos. No Irão já temos um bélico, na Europa, temos a Ucrânia bélica também, mas temos também um claro desfasamento que se convencionou chamar de afastamento entre os eleitores e o poder político.

E acho que no cerne disso está uma espécie de desvalorização das instituições - e o Lincoln fala disso nesse discurso que eu cito, das instituições como forma de regular o poder. De alguma forma, esse discurso sintetiza a velha máxima: são as instituições que fazem a democracia. 

A democracia existe para que não exista abuso de poder. Aliás, na tal Grécia que inventou, entre aspas, a democracia, essa é exatamente a mesma ideia da tragédia grega. A ideia é: se eu alertar as pessoas para o problema da falta de mediação, eu vou proteger a democracia. Eu não protejo a democracia enfatizando uma ideia contra a outra. Eu protejo a democracia fazendo política, a arte do impossível. E o Lincoln, que trazia consigo a experiência sinistra da guerra civil, da brutalidade civil, homicida e facínora da guerra civil americana, sabia do que falava, como os gregos também sabiam do que falavam quando falavam de guerra.

Parece-me quase impossível, neste momento, compatibilizar a noção de interesse comum com a noção de vontade individual.

Nós, aqui na Europa, é que parece que temos perdido a memória de que uma grande parte, se não o seu todo, pelo menos ao nível das motivações do nosso Estado Social, daquilo que constitui as sociais-democracias europeias, foi fundado precisamente na memória da Segunda Guerra Mundial ou sobre os escombros da Segunda Guerra Mundial.

Nicolau do Vale Pais

Disseste "a política à arte do impossível".
É o que ela é, tal e qual.

Mas a frase banal dos políticos - normalmente no sentido de que o ótimo é inimigo do bom - é exatamente a inversa, é de que a política é a arte do possível. 

Eu sei, fiz o trocadilho de propósito. Eu chamo-lhe "do impossível" porque me parece - e no artigo tentei de alguma forma, não digo resolver a discussão, mas pelo menos começá-la... - parece-me impossível numa sociedade construída de egos e de individualidades - incluo aqui o meu, não me estou a pôr de parte, eu estou a pensar como contribuinte, como pai, como cidadão, como pessoa que, em termos políticos, tenha liberdade acima de tudo o resto - me parece quase impossível, neste momento, compatibilizar a noção de interesse comum com a noção de vontade individual.

Há aqui um claríssimo choque, que curiosamente também está - e é aliás o paradigma que vai à discussão - na "Antígona", por exemplo. De que é que estamos a falar? O Estado não permite o enterro a fratricidas. Os dois irmãos da Antígona mataram-se um ao outro, ela quer enterrá-los ou seja, ela tem um desejo humano natural que não é compatível com as responsabilidades do próprio Estado. Eu acho que é nisto que estamos neste momento: estamos plenos de desejos, alguns deles bons, bonitos, etc. E eu não quero parecer de maneira nenhuma repressivo em relação àquilo que é o direito das pessoas de sonharem todos os dias com uma vida melhor. Mas estamos com um desequilíbrio - mais uma vez sem querer para ser paternalista - entre aquilo que é os direitos que temos e as responsabilidades que não exercemos.Temos um défice cívico em relação à política e é por isso que acho que ela está hoje à arte do impossível.

Entendemos hoje que a indignação se basta a si própria.

Escreves no ensaio, aliás, que a democracia exige a prática da cidadania. É nesse sentido que te referes, do défice?

Se me perguntasses qual é a minha maior preocupação enquanto cidadão, é clarissimamente o défice de cidadania. Aliás, esta é uma questão que até acho que deve ser discutida também a partir de Portugal. Portugal é hoje um país aberto, com todo o mérito, um país europeu. Somos um país que, de facto, não tinha tido, antes do 25 de Abril, a possibilidade sequer de movimentos cívicos. Mas nós temos hoje todos, ocidentais, para não reduzir isto a Portugal, um claríssimo défice de participação.

Ouça aqui o podcast Fúria Épica

Olha para as abstenções. Na cidade onde eu moro [Porto], houve uma transformação política geracional muito interessante com a vitória do Pedro Duarte recentemente. Ainda assim estamos a falar de quê? Estamos a falar de 40 a 45% de abstenção, o que, num conselho que tem à volta de 300 mil habitantes, que está numa área metropolitana de um milhão e tal, nos deixa com 60 mil, 50 mil pessoas a elegerem um Presidente de Câmara.

A abstenção, aliás, é o símbolo máximo, na minha opinião, da ausência, do défice cívico. Mas há mais.O que nos está a acontecer, nestes anos todos, é que estamos confundidos, nós entendemos hoje que a indignação se basta a si própria.

E cada um à sua maneira, seja numa rede social ou na escolha de jornais que lê ou não lê, ou no colégio que escolhe ou não escolhe para os filhos - se o puder fazer, se não estiver sujeito à degradação do sistema público de educação, lá está um dos pilares, se não o pilar central de qualquer democracia saudável - qualquer um de nós está sujeito a pensar mais como consumidor do que como cidadão.

E eu imaginaria que tu por esta altura me perguntarias: qual é a diferença entre um cidadão e um consumidor. É o produto final. O cidadão não procura adquirir nada. O cidadão procura manter as condições que tem para poder fazer as escolhas que faz.

Uma pessoa que tenha nascido em 1945, no final da Segunda Guerra, tem hoje ou fará este ano 81 anos.

Nós estamos sem memória da guerra, já. Nós vivemos intensa e apaixonadamente os fenómenos horríveis que se nos põem pela frente, da Palestina, da Ucrânia e agora do Irão, mas nós não sabemos o que é ter uma cidade arrasada por um bombardeamento, ou sofrer um blitzkrieg durante [57] dias consecutivos, como sofrer Londres, ou ver Paris arder. Isto é uma coisa que já não está nas nossas mentes.

Aqui regresso um pouco à noção que os gregos tinham introduzido. Era preciso que as pessoas não se esquecessem, antes de começarem a malhar na democracia, porque ela não lhes traz aquilo que elas acham que têm direito, o que é que acontece realmente a uma sociedade quando ela sai de democracia. E aí, meus amigos, ela é o pior de todos os sistemas, com exceção de todos os outros, como dizia Churchill.

É muito fácil dizer que a culpa é dos extremistas. Sim, está bem, será, OK, mas isso não me resolve o meu problema. 

Ora, em termos de melhorar a democracia, há dois caminhos: o primeiro abomino, que é o didatismo político, em particular o didatismo político de causas avulsas que a esquerda, que tanta falta nos tem feito, tem vindo a praticar nos últimos anos; a outra, também há abomino, é o autoritarismo de direita, o moralismo fátuo e o paternalismo, que também conhecemos, ou que conhecerá melhor ainda que eu quem viveu o Estado Novo.

E depois há uma terceira via, e essa terceira via passa por nos mantermos bem informados, generosos, exigentes no melhor sentido do termo, enquanto cidadãos.

Se me perguntares qual é hoje o maior pilar contra o abuso de poder, eu digo: um, historicamente, a justiça; dois, os cidadãos. A nossa capacidade de cidadania é a maior defesa contra o abuso de poder.

12 de outubro de 2025, noite eleitoral. Pedro Duarte recebe Luís Montenegro na sede da sua candidatura, já sabendo que acabara de vencer as eleições autárquicas no Porto. Fernando Veludo/Lusa

No Porto, nestas últimas eleições autárquicas, a abstenção foi de 43%, votaram 115 mil pessoas. E dessas, 43 mil votaram no vencedor, Pedro Duarte. Ou seja, numa cidade com a importância do Porto, o Presidente da Câmara foi eleito com 43 mil votos.

Não dá para encher o Estádio do Dragão, Pedro. 

 

Sim, estavam mais pessoas a ver o último jogo no Estado de Dragão do que aquelas que votaram em quem foi eleito. Vamos olhar para o título do teu ensaio: "Se eu não quiser votar nos Trumps, voto em quem?" Estás a referir-te à falta de que alternativas?

De centro. Têm sido vários os alertas, de várias cabeças mais completas que a minha, sobre o desaparecimento do centro político. Desapareceu o centro político. O tempo das maiorias parlamentares de um só partido, vejo-o terminado, vejo-o extinto E, por um lado, saúdo a maior paleta de representação, isto é, quanto maior for o dégradé num Parlamento, o dégradé de cores da esquerda à direita, melhor. Por outro, não posso deixar de ver isto como uma consequência direta do desinteresse geral do centro político para com os cidadãos.

 

Nós há 30 anos achávamos que a democracia tinha que ser protegida de uns tipos pequeninos que estavam nas franjas, à esquerda e à direita, e que tínhamos medo que funcionassem como cavalos de Tróia, dentro dos partidos de centro. Depois de vencido o fascismo e o autoritarismo, este era o desafio dos anos 90 para cá. Perdemos a batalha. Perdemo-la bem.

Nós não temos feito outra coisa se não assistir a uma espécie de complexo do bombeiro pirómano.

Tivemos, no caso português, como todos sabemos, a Geringonça, com partidos extremistas, praticamente os dois, o partido comunista com maior ênfase, anti-Europa. E neste momento temos um primeiro-ministro altamente fragilizado pela presença de um grupo de extrema-direita à sua direita, que é o Chega.

Ou seja, já não se governa sem dar muita, porventura demasiada, atenção a esta gente. E isto é muito fácil. Para quem, como nós, tem o privilégio de ter liberdade de expressão e palco para falar, é muito fácil dizer que a culpa é dos extremistas. Sim, está bem, será, OK, mas isso não me resolve o meu problema. Porque, e daí o título, se eu não votar nos Trumps, voto em quem?

O que é que o centro me propõe? (O centro aqui é centro-esquerda, centro-direita, os partidos sociais-democratas, genericamente falando, em Portugal e na Europa.) O que é que me propõe exatamente, além do conjunto de causas avulsas, umas à direita, outras à esquerda? Qual é o programa político que restaurará a minha consciência de que preciso de um Estado na áreas fulcrais - para um país periférico como Portugal, então nem falamos -, como a educação, a ciência, a cultura, a saúde? E quando é que nós restauramos esta relação e, depois de restaurada esta relação, começamos a tomar opções, se quisermos de cariz mais ideológico, sobre uma maneira ou outra de executar esse programa?

Estamos constantemente a tentar trabalhar sobre a nossa relação individual com o problema, em vez de o coletivizarmos e tentarmos resolver de forma coletiva.

Nós não temos feito outra coisa se não assistir a uma espécie de complexo do bombeiro pirómano em que os agentes políticos, a sociedade, os jornalistas e, à falta de melhor palavra, as elites, as elites cívicas, os empresários, as pessoas que de facto têm, chamemos-lhe assim, liberdade e responsabilidade pelas escolhas que fazem; quando é que esta malta toda se junta e, 1) faz um diagnóstico do problema, 2) propõe soluções?

Nós só estamos a assistir constantemente à justaposição de posições, é uma espécie de jogo de futebol sul-topo-norte. O que estamos a ouvir é uma gritaria constante entre esquerda e direita, sem que nenhum dos agentes, cívicos também, se concentre sobre o real problema que temos aqui. Eu não estou no fascismo, eu não tenho uma guerra colonial, eu não estou no PREC, o problema agora é saber que consciência do problema conseguimos criar para que ele seja resolvido. Se quiseres, estamos a ficar neuróticos. Ou seja, estamos constantemente a tentar trabalhar sobre a nossa relação individual com o problema, em vez de o coletivizarmos e tentarmos resolver de forma coletiva.

A sensação que dá quando estamos a consumir um político num vídeo vertical, num TikTok ou num Instagram, de 15 segundos, é que a única coisa que tu vais conseguir perceber é se o tipo é carismático ou não. Ou seja, já não estamos a falar de espírito crítico ou de análise. Estamos a falar de pura, direta, empatia intelectual - com o ídolo. 

Sempre se disse que a deceção é a grande ameaça à democracia e que a erosão da classe média é o fator económico-social mais perigoso e mais ameaçador para a manutenção de uma democracia. Eu diria que há aqui um casamento direto entre uma coisa e a outra, entre a falta de consciência do problema - mais do que o problema em si -, a sensação de impotência que se vai agravando um pouco por toda a sociedade e o risco dela se tornar manietável por ideias apaixonadas a roçar a ingenuidade.

No ensaio, falas da explosiva mistura de ambição e desilusão. E acrescentas que esse é o território onde os Trumps se movem com o carisma a ser tomado fácil e perigosamente por competência. Há essa orfandade de líderes que se ouve há anos na Europa, que propicia o aparecimento, lá está, dos carismáticos, que não são necessariamente competentes.

Sim. Agora, a montante disso seria útil a tentativa de perceber: onde é que estes líderes são feitos? Ainda de outra forma: nós temos um funil natural em democracia... A noção de que o carisma é fundamental para a chegada ao poder faz parte do jogo, mas temos hoje um sistema mediático muito complexo. Tu poderás falar disso, ou tu com algum dos teus colegas jornalistas poderão falar disso, mas a sensação que dá quando estamos a consumir um político num vídeo vertical, num TikTok ou num Instagram, de 15 segundos, é que a única coisa que tu vais conseguir perceber é se o tipo é carismático ou não. Ou seja, já não estamos a falar de espírito crítico ou de análise. Estamos a falar de pura, direta, empatia intelectual - com o ídolo. 

 

Ora, se a discussão política é feita de empatia, o outro lado vai ser feito de antipatia. E em antipatia sem empatia, não há nada possível de comum.

E, portanto, a pergunta à montante é: com este sistema, com um défice de educação política e cívica nas escolas, que líderes é que temos esperanças que apareçam, se não demagogos? Isto é que é a questão. Repara que, para os gregos, a demagogia era o inverso da pedagogia. Nós, neste momento, estamos num sistema que só pode ser demagógico, não pode ser outra coisa, porque para haver pedagogia tem que haver debate, para haver debate tem que haver tempo.

Eu sei que também consumi lixo, eu sei que também consumi bonecos animados a mais e sei que também consumi televisão a mais e não quero colocar-me em posição de superioridade absolutamente nenhuma, muito menos geracional, esse estilo reacionário não é o meu. Mas com os miúdos hoje, o problema já não é o que é que eles consomem ou não... isso também é um problema, mas para mim a questão mais grave é saber que nível de consciência é que um cidadão, um indivíduo, consegue criar de si próprio e das relações com os restantes num sistema destes.

E qual é a cura? A cura é a mesma, sempre foi, é a mesma desde 1945. Está na educação, está no acesso à saúde, está no acesso aos cuidados básicos, à água, está na cultura, está na ciência, está na liberdade, está na cidadania.

Agora, do ponto de vista do sistema político-partidário, o centro deixou-se esvaziar para as franjas. As franjas para que é que servem? Para o mesmo que o centro: chegar ao poder. Qual é a vantagem que tem? É que o seu aspecto contestatário dá uma ideia de desprendimento do poder que depois nem sequer lá está. É evidente que os partidos existem para chegar ao poder e que não há que ter medo disso. O problema aqui é que o centro esvaziado representa, em princípio, de si já uma incompatibilidade com aquilo a que costumámos chamar o senso comum. Nós vivemos tempos, Pedro, de completa insensatez.

Onde é que para, nos Estados Unidos, onde é que para o Partido Democrata? 
É uma excelente pergunta. No artigo, eu sugiro que o que está a acontecer ao Partido Democrata nos Estados Unidos seja de alguma forma análogo ou até paradigmático do que aconteceu ao centro europeu.

O Partido Democrata, na minha opinião, comete um erro monumental ao empurrar Hillary Clinton contra Trump, na primeira eleição em 2016. E comete o verdadeiro, genuinamente, tiro no pé.

2016. Obama juntou-se a Hillary Clinton na campanha para a Casa Branca, mas nem isso salvou a então candidata democrata da derrota frente a Trump (Reuters/Jim Young)

Porque se há coisa que Barack Obama tinha conseguido fazer era compatibilizar a respeitabilidade de um candidato com a inovação do seu discurso. Se formos ver, do ponto de vista da história política, o "Yes We Can", o famoso "Yes We Can", é um discurso todo centrado na ideia da participação dos cidadãos na construção democrática. Sendo feito nos Estados Unidos, por um homem que só podia ser americano - Barack Obama só podia ser americano, não podia ser outra coisa -, não deixa de alguma forma de haver aqui uma ponte...

Na altura, penso que Barack Obama terá sido se calhar, picado com Kennedy, o mais popular presidente americano junto dos europeus. E eu não acho que isso seja um acaso. E da mesma maneira que não acho que seja um acaso a sua popularidade junto dos europeus, também não acho que seja um acaso que o que está a acontecer ao Partido Democrata seja o mesmo que está a acontecer aos partidos de centro [europeu]: uma dificuldade imensa em combater o radicalismo. Por detrás disso estará também alguma consciência pesada, porque os partidos de poder - o Democrata nos Estados Unidos, os de centro aqui na Europa - sabem que têm responsabilidades pelo estado de coisas, sabem disso muito bem, são homens de poder, estiveram lá, governaram, tomaram decisões.

E agora, o problema específico do Partido Democrata é, em primeira instância, ter arrasado com o que Barack Obama tinha conseguido fazer, que era a tal compatibilização entre um discurso impante, carismático, altamente sedutor, e responsabilidade pública.

Claro que dirão os adeptos do Sr. Trump que ele também é carismático. É, e de que maneira! Este é um aspecto que a gente não pode esquecer.

Eu acho a candidatura de Hillary Clinton um completo erro. O próprio partido, tinha-a rejeitado durante as primárias de 2008 e ainda assim alguém dentro do partido, ou muitos alguns, acharam que ela era a candidata ideal para combater Trump. E o mesmo aconteceu depois com a tentativa de fazer de Kamala Harris uma sucessora natural de Joe Biden, que não é nem pode ser, até porque Joe Biden tem um currículo político completamente diverso do da mais jovem Kamala.

O próprio partido insiste depois num mecanismo de consagração de figuras tutelares como os Clinton, que o próprio eleitorado do Partido Democrático tinha rejeitado antes. Isto é, Clinton tinha sido rejeitada por uma franja significativa do eleitorado americano em sede de primárias do Partido Democrata. E eu não sei quem é que pensou que esta senhora teria capacidade para vencer um comboio demagógico, um verdadeiro alarve do soundbite, como é Donald Trump. Se repararmos, por exemplo, do ponto de vista dos debates, olhando para os debates entre Clinton e Trump, ou mais adiante, Kamala e Trump, é notória a constante estupefacção de uma e da outra à medida que o senhor vai debitando as mentiras do costume.

 

Outubro de 2024, campanha eleitoral dos EUA, debate televisivo entre Donald Trump e Kamala Harris. Fotos AP

Na minha opinião, aquilo que tinha sido a grande conquista com Barack Obama, que era a ideia de que se poderia ter uma compatibilização entre carisma e discurso e responsabilidade política, perdeu-se ali.

Acho que o que está por trás disto é uma falta imensa, uma desconexão imensa entre o centro político e o eleitorado, uma falta de noção de que as coisas mudaram brutalmente, não só em termos daquilo que é a história e o dia-a-dia, mas também e sobretudo as expectativas, mudaram ao nível das expectativas que o eleitor põe no candidato.

Hoje há uma conexão direta entre a pessoa, a minha pessoa e a minha personalidade e o meu entendimento pessoal, empático ou não, a favor ou contra de um candidato. Estamos numa espécie de maniqueísmo medieval em que já só há o certo e o errado, o branco e o preto. Não há debate propriamente, há justaposição, digamos, inflamada de posições de parte a parte.

E quem é que ganha neste território? Obviamente, aqueles que estão muito pouco comprometidos com o que estão a dizer, porque estão a dizê-lo só para inglês ver e para chegarem ao poder, como é o caso dos populistas europeus ou o caso de Donald Trump.

Nós estamos com um problema sério de, eu resumiria, quem é que nos defende? Não é nós de esquerda ou nós de direita, é quem é que nos representa a nós tipos normais, pessoas normais? Muito pouco, há muito pouca representatividade. E muito pouco transformado à escala do maior exército do mundo é uma guerra a começar no Irão. Quem é que nos defende disto? E em nome de quê? Que consciência é que eu, se eu quisesse ser alternativa a Donald Trump, que consciência é que eu tenho de criar nas pessoas?

Vejamos as coisas de um ponto de vista frio e, digamos, pragmático: quantos soldados americanos morreram na Segunda Guerra Mundial? Quantos soldados americanos morreram no Vietname? Como é que é possível que não haja um candidato do Partido Democrata a honrar inclusivamente a memória coletiva dos americanos na luta pelo restabelecimento da paz e das democracias liberais no pós-segunda guerra?

Isto não é normal, peço imensa desculpa. Aliás, recordemo-nos... É difícil escolher, porque são muitas as alarvidades do Sr. Trump, mas o tratamento dado a um colega de partido republicano, a John McCain, a forma como ele esnobou e desprezou John McCain, que foi ele próprio soldado e prisioneiro de guerra, a maneira como este património histórico, este sacrifício brutal das pessoas, esta coisa sinistra a que chamamos guerra, como é que não há ninguém no Partido Democrata a chamar a atenção para isto?

Morreram cerca de 60 mil americanos no Vietname e mais de 400 mil na Segunda Guerra Mundial. E uma voz democrata do passado que tu usas no teu artigo é a de John Kerry. que combateu a guerra do Vietname e que, em 1971, dirigindo-se a uma comissão do Senado, precisamente sobre a guerra do Vietname, faz a pergunta: como é que se pede a um homem que seja o último a morrer em nome um erro?

1971. John Kerry, então diretor da organização "Veteranos do Vietname Contra a Guerra", no Senado dos Estados Unidos. Créditos Bettmann via Getty

É uma excelente pergunta. Essa pergunta encerra justamente os limites entre a decência, ou melhor, entre a consciência decente de que o mundo não é um sítio simples e o abuso que se possa fazer dessa ideia para, com propaganda, convencer as pessoas de que o conflito interessa.

A pergunta é aguda, porque com essa pergunta, o que está implícito é como é que o poder político pede a um cidadão que morra. Em nome de quê? Em nome de um erro. E é essa memória que está desaparecida.

Perguntas-me, mas achas que essa memória tem que ser vivida e revivida todos os dias? Não, não é essa a questão. Aliás, nem é o problema, nem é tanto, digamos, a memória da guerra. É a memória de o que antecedeu. Nós, por exemplo aqui na Europa, e bem, temos tendência para olhar em choque para o que aconteceu a partir de 1939, Mas, na realidade, se calhar mais importante do que isso é o que aconteceu nos anos 20 e 30. O divórcio brutal, na sequência da Primeira Guerra, entre a força política e a cidadania e uma cidadania que, desanimada, exaurida, entrega ao poder político a sua causa de existir. Que é no que se baseiam, obviamente, os nacionalistas. Um nacionalista tem por base a ideia de que eu, político nacionalista, sou a representação de toda a tua cultura. Eu sou o totem que representa o teu país e maneira de estar.

Até porque, estamos aqui a esquecer de uma coisa importante: as consequências económicas e sociais do que já está neste momento a acontecer no Irão são concretas e constituem-se em si, no meu entender, num risco muito sério para as democracias já fragilizadas da nossa Europa.

Quando tiveres que ter um aumento de taxa de juros e um aumento de custo do dinheiro para travar a inflação, sobre níveis de endividamento impensáveis há 30 ou 40 anos, seja o o da França ou dos próprios Estados Unidos, tu tens um risco muito sério de desestabilização social por causa da economia.

E foi exatamente assim, nos anos 20, que os tiranos da Europa chegaram ao poder, no momento em que, por desânimo, as pessoas se convenceram, erradamente, de que o autoritarismo era a solução para travar o problema. Isso e encontrar dentro dessa demagogia os culpados, no caso do Terceiro Reich, seriam os judeus ou os não-arianos em geral, que é uma coisa que até me custa a dizer, para ser sincero.

Trump é um retrocesso civilizacional, como é o ressurgimento da extrema-direita e de alguma extrema-esquerda na Europa também.

Acho que está tudo a temer, e bem, o espalhar de um conflito bélico com origem no Irão, um pouco como o da Segunda Guerra teve origem na invasão da Polónia. O que eu vejo com uma coisa mais, muito entre aspas, normal, é que aquela guerra espolete uma necessidade de aumento das taxas de juros tal, via inflação, que desestabilize completamente a já anquilosada Europa. E que, por causa dessa desestabilização e degradação da capacidade, digamos, política da Europa, se iniciem conflitos tipo "proxy war" na Europa, advindos do problema criado pelos Estados Unidos no Médio Oriente.

Ora, como o Sr. Trump se está borrifando para a Europa, isto preocupa-me de sobremaneira.

Aliás, acho que o que estamos aqui a assistir, de alguma forma, com este regresso escabroso do "hard power" aos Estados Unidos, é no fundo a remontagem do Muro de Berlim. Eu olho para aquilo que conseguimos perceber das relações entre Rússia, China e o próprio Irão, mais todos os grupos terroristas como o Hezbollah, por eles financiados, e a sensação que tenho é que a "União Soviética" está viva e recomenda-se.

Portanto, quando falo de um défice do Partido Democrata, estou a partir do princípio que já todos percebemos que neste momento só há dois caminhos, ou Trump implode - e eu até tenho alguma esperança que o próprio Partido Republicano lhe possa eventualmente fazer frente - ou temos uma alternativa concreta, pedagógica, que o contraria, ou vamos a caminho de qualquer coisa, eventualmente, bastante mais bélica ainda do que temos visto nos últimos anos.

Portanto, quando digo "onde pára o Partido Democrata?" e junto a isso o "onde para o Centro Europeu?", não é porque eu acho que eles têm uma carta qualquer que poderiam jogar agora. É porque não há outra forma de sair de um problema como aquele em que nos encontramos que não seja a alternativa.

A democracia é isso mesmo. Não é a perfeição, não é a conquista de tudo e mais alguma coisa. A democracia é, 1) a assunção do problema, 2) o apresentar soluções para o resolver, 3) o progresso. E nós não estamos em progresso nenhum, estamos aliás em retrocesso muito, muito franco. Trump, na minha opinião, é um retrocesso civilizacional, como é o ressurgimento da extrema-direita e de alguma extrema-esquerda na Europa também.

Donald Trump é tão carismático e magnético que também faz surgir líderes ou propostas por oposição a ele: pessoas que não se afirmam necessariamente por si próprias, mas por se oporem a Trump. Um caso recente na Europa é o de Pedro Sánchez, que de repente muita gente da esquerda, mesmo em Portugal, identifica como um grande político. Aliás, ele foi já comparado com o novo Churchill da Europa.

Só nunca tendo olhado para Winston Churchill... Para dizer isso, é preciso não perceber nada... Lá está. Foi o quê? Algum tweet, talvez? Porque isso só cabe num tweet. Queres que eu "destuite" essa afirmação? Eu destuito.

 

A pergunta também é: onde é que para a esquerda europeia?

O que é que Pedro Sanchez está a fazer? O Pedro Santos está a fazer o mesmo que António Costa fez em Portugal. Está a capitalizar a indignação e a reclamar para a esquerda o direito à indignação de todos, o que é simpático e expectável do ponto de vista de um líder de um partido socialista, mas não me resolve o meu problema central, que é: quem é que acredita nisso? Quem é que acredita nisso? Alguém acredita manifestamente?

 

2022. António Costa e Pedro Sánchez AP Photo/Geert Vanden Wijngaert

O Pedro Sanchez é o que se poderia chamar um homem muito hábil. Eu não estou a usar o adjetivo por acaso, estou a usar exatamente o mesmo adjetivo que se utilizou para descrever António Costa. Nada contra, o poder é para se tomar e as decisões são para se tomarem e o progresso é para avançar. Agora, eu tenho muitas dúvidas sobre a credibilidade de tudo isso, porque não vejo de maneira nenhuma como é que uma classe média completamente erodida como esta está, vai acreditar naquilo que são as palavras-chave de um bom discurso de centro-esquerda, que seriam a coesão, a mutualização, o progresso, a paz.

É muito complexo, neste momento, romper. Repito, prefiro que Pedro Sanchez o faça do que não o faça. Mas, perdoa-me a eventual arrogância, não vejo como é que isso colhe quando as notícias que tens sobre a esposa do senhor são o que são; quando houve as invasões em Valência, quem foi apanhar com lama na cara foi o rei espanhol, Pedro Sanchez não foi tido nem a chave, meteu os pés pelas mãos.

Enfim, é complexo, eu não quero ser punitivo. Obviamente, como já perceberam sobre Pedro Sanchez, não tenho simpatia política nenhuma por ele, mas é o primeiro-ministro eleito de Espanha. Mas é muito mais complicado do que a arregimentar. Arregimentar, neste momento, não basta. É preciso bastante mais do que isso. Se não tiveres um conjunto de medidas de fundo estruturais na política monetária, no planeamento do território, na ferrovia e, claro, nos impostos - porque as pessoas sentem neste momento que é imposto a mais para tão pouco serviço -, não vamos conseguir fazer passar ideia nenhuma a ninguém, porque estamos a falar para um grupo de revoltados. Ora, os revoltados têm duas características. Uma, são altamente difíceis de influenciar. Duas, são por natureza irracionais. E eu não me parece que vá haver grande eficácia nas démarches de Pedro Sanchez.

Quero acabar com uma pergunta sobre Portugal. E a pergunta é se o título do teu texto é aplicável em Portugal, substituindo "Trump" por "Ventura". Isto é, se a pergunta "se eu não quiser votar em Ventura, voto em quem?" é aplicável a Portugal.

Chapéu para ti, Pedro. Quando escrevi o título, "se eu não votar nos Trumps, voto em quem?", pus no plural justamente por causa da situação portuguesa.

 

Deixa-me dizer o que penso sobre o fenómeno André Ventura. Ponto 1, o fenómeno de eleitorado não é novo. O que sucedeu é que apareceu alguém que convidou a votar nele e é André Ventura. Ponto 2, como digo também no artigo, a uma certa altura, eu não considero nem Trump nem Ventura causas. O regime em que eu vivo não foi feito por eles. Pode piorar, e está a piorar imenso com a demagogia deles, mas não foi feito por eles. Eles são, de facto, sintomas. Sintomas daquilo que já falámos, o desfasamento hoje, que é a degradação de representatividade ao centro. Terceiro, eu acho que em Portugal, aliás há muita gente mais conhecedora que eu que há muitos anos fala do problema da direita democrática em Portugal.

21 de abril de 2026. André Ventura lidera protesto contra visita de Lula da Silva a Portugal (LUSA)

A direita em Portugal tem sido, na minha opinião, durante demasiados anos, uma espécie de coisa abrangente de todos aqueles que não são de esquerda. Só é direita porque não é de esquerda. Ou seja, falta à direita, e talvez por isso alguém possa um dia ver Pedro Passos Coelho a tomar conta do PSD e abarcar o Chega, ideia que me parece completamente abjeta e provavelmente representativa do fim do PSD, como conhecemos...

Eu não quero desprezar de maneira nenhuma o eleitorado do Chega. Eu acho que ele não deve ser desprezado, pelo contrário. Tal e qual como quando tens um problema de saúde, tu não desprezas o sintoma. Tu olhas para ele e tiras ilações, ou para os sintomas, vários. E eu não sou dos que desprezam o eleitorado André Ventura. Tenho a certeza absoluta que há uma conexão direta entre isto e a dificuldade que a direita portuguesa tem em assumir-se como direita.

E eu peço desculpa pelo uso da expressão, mas a direita portuguesa precisa de sair rapidamente do armário. Mas rapidamente! Quer dizer, não tem que ter medo. sob pena de alguém se aproveitar disso, e esse alguém é André Ventura, não tem de ter medo de ser direita, de entender que se pode progredir de outras formas que não sejam, por exemplo, o uso constante do Estado para a resolução constante de todos os problemas. Tem que saber abrir ao setor privado.

Há um exemplo muito interessante, já que estamos a falar de Pedro Passos Coelho: a saída da Troika que a Irlanda faz, a reforma fiscal que a Irlanda fez para a atração de investimento estrangeiro, baixando o IRC, se não me engano, para 12,5%. Em Portugal seria imediatamente visto como uma manobra de fascista para baixo!

Ora, há duas alternativas para a direita aqui. Ou ela entende que tem que combater essa demagogia, ou, do outro lado, e aqui estou a falar de André Ventura, essa demagogia acabará com ela.

Repetindo, não estou a desprezar, eu entendo o desencanto, eu também me desencanto, eu não estou a desprezar quem vota em André Ventura. O que eu estou a dizer é uma coisa ligeiramente diferente. Nós devemos olhar para o fenómeno do Chega como um sintoma daquilo que está por fazer, daquilo que se degradou da relação entre nós, vários setores da sociedade, os políticos, os empresários, o comum cidadão, o motorista do Uber... temos de olhar para ali e dizer, "bom, isto é sintoma de qualquer coisa, de uma disfunção. que foi criada entretanto". E eu acho que ela sempre lá esteve. Acho que há coisas que ficaram por fazer. O país teve uma transição para a democracia muito popular, única mesmo no mundo, talvez, e há coisas que ficaram por fazer do ponto de vista da educação cívica, da participação cívica, e claro está, não podemos acabar sem dizer: a justiça. É impossível passar o que quer que seja de ideia construtiva quando nós temos os problemas na justiça que temos. Alguém tem que fazer qualquer coisa, espero que o novo Presidente da República possa fazê-lo, alguém tem que fazer qualquer coisa, chamar à liça todos os envolvidos na construção democrática portuguesa e resolver este problema, porque senão vamos estar sujeitos a todo o tipo de vendaval, já estamos, a todo o tipo de vendaval demagógico.

Eu não quero desprezar o Chega. Eu não tenho interesse nenhum em desprezar os eleitores do Chega. Eu preciso de alternativas que o reduzam àquilo que ele é. Um mero movimento de protesto, não muito diferente dos de extrema-esquerda.

 

Imagem do topo: foto-ilustração feita pela CNN Portugal sobre o cartaz da AD nas últimas eleições legislativas.

 

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