“O que hoje se desenha na América do Sul e Central é a consolidação de um ecossistema político que, com diferenças nacionais evidentes, partilha uma mesma gramática de poder, uma mesma leitura do mundo e uma mesma relação ambígua, mas estrutural, com Donald Trump e com a nova direita americana.”
A vitória de José Antonio Kast no Chile não é um episódio isolado, nem um simples pêndulo eleitoral depois de anos de governação à esquerda. É um sinal. E, como todos os sinais relevantes em política internacional, só ganha verdadeiro significado quando observado como parte de um sistema mais amplo. O que hoje se desenha na América do Sul e Central é a consolidação de um ecossistema político que, com diferenças nacionais evidentes, partilha uma mesma gramática de poder, uma mesma leitura do mundo e uma mesma relação ambígua, mas estrutural, com Donald Trump e com a nova direita americana.
Chile, Argentina, El Salvador, Honduras, Bolívia e o Brasil bolsonarista não formam uma aliança formal. Não assinam tratados conjuntos nem partilham instituições comuns. O que os liga é mais profundo e, por isso, mais duradouro: uma visão convergente sobre soberania, autoridade, ordem social e relação com os Estados Unidos. Não é um bloco ideológico clássico. É um campo gravitacional.
A vitória de Kast deve ser lida à luz desse campo. O Chile foi durante décadas a exceção institucional da América Latina. Um país previsível, com regras claras, crescimento económico e uma classe média orgulhosa da sua estabilidade. O ciclo iniciado com os protestos de 2019 rompeu esse equilíbrio. A promessa de refundação constitucional, longe de pacificar o país, introduziu incerteza prolongada, fragmentação política e uma perceção difusa de perda de controlo. Kast venceu menos pelo que promete construir e mais pelo que promete travar.
Este é um padrão recorrente nas vitórias recentes da direita radical latino-americana. Milei na Argentina, Bukele em El Salvador, o bolsonarismo no Brasil e agora Kast no Chile emergem em sociedades onde a sensação dominante não é apenas pobreza ou desigualdade, mas desordem. Desordem económica, institucional, cultural e simbólica. Quando o Estado parece fraco, a autoridade torna-se uma mercadoria política valiosa.
Donald Trump percebeu isto antes de muitos analistas. A sua leitura da América Latina não passa por afinidades diplomáticas clássicas, mas por identificação narrativa. Trump não fala a linguagem das chancelarias; fala a linguagem do ressentimento contra elites, contra instituições multilaterais e contra aquilo que descreve como um sistema internacional viciado. Para líderes como Kast ou Milei, Trump não é apenas um aliado potencial. É um precedente legitimador.
Este alinhamento ajuda também a compreender a centralidade crescente da Venezuela na estratégia americana. O súbito interesse de Trump pela Venezuela não é humanitário nem democrático. É geopolítico e simbólico. A Venezuela funciona como o espantalho perfeito: um regime autoritário de esquerda, economicamente falhado, associado a Cuba, ao Irão, à Rússia e à China. Para Trump, Caracas é útil como inimigo externo e como argumento interno. Para os seus aliados latino-americanos, é o exemplo que justifica políticas duras, estados securitários e a rejeição de qualquer agenda reformista associada à esquerda.
A pressão sobre a Venezuela serve assim dois propósitos. Externamente, permite aos Estados Unidos reafirmar influência numa região onde a China avançou silenciosamente através de investimentos e infraestruturas. Internamente, ajuda a consolidar uma narrativa regional de “ordem contra caos”, onde qualquer crítica a políticas autoritárias pode ser descartada como caminho para o colapso venezuelano.
É aqui que entra o conceito de ecossistema. Estes líderes não precisam de coordenar posições diariamente. Alimentam-se mutuamente através de exemplos, retórica e validação cruzada. Bukele normaliza a suspensão de garantias em nome da segurança. Milei legitima o choque económico brutal como virtude moral. Kast oferece a versão institucionalizada e eleitoralmente aceitável desse mesmo impulso. Trump fornece o enquadramento global: soberania sem constrangimentos, alianças transacionais e desprezo pelas normas multilaterais.
A Europa tende a ler estes fenómenos como simples “ondas populistas”. É um erro. O que está em curso é uma reconfiguração do espaço político latino-americano num contexto de retração estratégica dos Estados Unidos tradicionais e de avanço de uma América trumpista, menos interessada em valores e mais focada em lealdades.
O paradoxo é que este movimento, embora se apresente como nacionalista, depende profundamente da validação americana. Trump funciona como selo de autenticidade internacional. Quando elogia Bukele, quando se aproxima de Milei ou quando observa com simpatia a vitória de Kast, envia um sinal claro às elites económicas e militares da região: estes são interlocutores aceitáveis num mundo pós-liberal.
A grande incógnita é a sustentabilidade deste ecossistema. Estados fortes construídos sobre lógica de exceção tendem a funcionar bem enquanto o inimigo é claro e o medo é mobilizável. O problema surge quando a economia abranda, quando a repressão se normaliza e quando a promessa de ordem começa a corroer as próprias instituições que a sustentam.
Para já, o movimento avança. A vitória de Kast é mais um nó numa rede que liga Santiago a Buenos Aires, San Salvador, Brasília, Tegucigalpa e La Paz, com Washington como centro simbólico. Não é ainda um bloco de poder. Mas é já uma constelação ideológica coerente.
Ignorá-la seria ingenuidade. Tratá-la como um acidente seria erro estratégico. Estamos perante uma América Latina que se reorganiza em torno de novas hierarquias, novos medos e novas lealdades. E Donald Trump, goste-se ou não, é hoje uma das forças estruturantes desse redesenho.
Para a política internacional, a pergunta já não é se este ecossistema existe. É até onde está disposto a ir.