O mundo entrou em alerta e o maior aviso é para a Europa (que num cenário radical fica como a Ucrânia em 2014)

7 jan, 07:00
Donald Trump

ANÁLISE || O novo ano começou logo com uma mudança - ou a confirmação de uma suspeita - na lógica internacional: a "Doutrina Donroe" irrompeu pela Venezuela adentro e ameaça não parar por aqui. No meio da confusão fica a Europa, que vai levantando a voz, mas, até ver, sem grande sucesso prático

Gronelândia

Grau de iminência: 4 de 5

Um dia depois de ter chocado o mundo com a ousada operação de detenção do ditador Nicolás Maduro, o presidente norte-americano já estava de olhos postos noutro alvo. Um que é "muito estratégico" para os Estados Unidos "do ponto de vista da segurança nacional", mas que pertence a um aliado.

"Precisamos da Gronelândia. [...] É muito estratégica neste momento. A Gronelândia está repleta de navios russos e chineses por toda a parte", declarou o presidente norte-americano aos jornalistas a bordo do Air Force One, insistindo que é essencial assegurar o território por motivos de segurança, até porque a Dinamarca "não será capaz de o fazer".

Apesar dos protestos americanos contra a incapacidade de defesa dinamarquesa contra chineses e russos, os interesses americanos nesta ilha são bem mais abrangentes - embora também façam parte da estratégia americana de contenção à China. Este território possui algumas das maiores reservas não exploradas de terras raras, elementos vitais para a produção tecnológica e que a China detém quase um monopólio. 

Cenário mais provável: "O protetorado"

O cenário mais provável adotado pelos Estados Unidos deverá ser uma coerção diplomática extrema, com Donald Trump a invocar poderes de emergência nacional para fazer frente à ameaça dos "navios russos e chineses". O objetivo americano não seria conquistar fisicamente o território dinamarquês, mas criar uma situação onde o custo de resistência é demasiado proibitivo. Em simultâneo, Trump deverá prometer um investimento direto maciço, com a promessa de tornar a região no "Estado mais rico do Ártico".

Neste cenário, os norte-americanos podem forçar a assinatura de um Tratado de Defesa e Exploração de Recursos de longa duração, permitindo à Dinamarca manter a soberania, mas sem qualquer controlo do espaço aéreo, marítimo e sobre a política de exploração de mineração.

Este tratado poderia permitir aos norte-americanos intensificar a atividade na base militar e espacial de Pituffik, a base militar mais a norte dos EUA, que serve como sistema de alerta precoce de mísseis balísticos. Isso permitiria um maior controlo da Nova Rota do Ártico, que está a surgir devido ao aquecimento global e que pode mudar a geografia do comércio mundial.

Cenário radical: "Fim da NATO"

O cenário mais complicado é aquele onde a diplomacia falha completamente e o presidente norte-americano recorre ao poderio militar norte-americano para anexar o território de um país aliado. A Marinha norte-americana poderá bloquear fisicamente o acesso de navios e aviões não autorizados à ilha, impedindo, na prática, qualquer acesso dinamarquês ou europeu ao território. 

Este cenário colocaria os europeus num papel semelhante à Ucrânia de 2014, quando o seu antigo e histórico aliado decidiu ocupar militarmente o território soberano da Crimeia. Só que a existência de uma aliança formal entre países levaria a Aliança Atlântica a entrar num colapso funcional, provando que o Artigo 5.º, que garante a segurança dos seus membros, é irrelevante perante os interesses nacionais americanos.

Onde fica a Gronelândia e porque é que é importante para Trump?
A Gronelândia é uma grande ilha localizada no Ártico, com mais de 56 mil habitantes. Antiga colónia dinamarquesa, é atualmente um território autónomo da Dinamarca.
Mapa da localização da Gronelândia
Porque poderá o presidente dos EUA, Donald Trump, querer a Gronelândia?
Segurança - Situada estrategicamente entre os EUA, a Europa e a Rússia, é vista há muito como essencial para a segurança norte-americana.
Recursos naturais - A Gronelândia é rica em recursos naturais, incluindo petróleo, gás e metais de terras raras.
Rotas marítimas - À medida que a crise climática derrete o gelo do Ártico, novas rotas do norte poderão tornar-se navegáveis durante mais tempo ao longo do ano.
Fontes: Ministério dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca, Instituto Europeu de Relações Internacionais
Gráfico: Soph Warnes, CNN

Colômbia

Grau de iminência: 4,5 de 5

Foi um dos primeiros alvos da fúria do presidente americano na conferência de imprensa que anunciou a captura de Nicolás Maduro. Ainda o líder venezuelano não estava em solo americano e já Donald Trump preparava o terreno retórico para uma nova intervenção "no seu hemisfério". O mesmo motivo para afastar Maduro, o tráfico de droga, foi usado contra o presidente colombiano, Gustavo Petro, que Trump descreveu como "um homem doente que gosta de produzir cocaína e de a vender aos Estados Unidos". Questionado sobre se previa uma "operação" contra a Colômbia, Trump respondeu de forma simples: "Parece-me bem". 

Os números dão razão a Donald Trump. A Colômbia atingiu níveis recorde de produção de cocaína, de acordo com o Gabinete das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC). Gustavo Petro, antigo membro da guerrilha M-19 e o primeiro presidente colombiano de esquerda desde a independência do país, defendeu-se, argumentando que ordenou bombardeamentos seletivos contra grupos armados ligados ao narcotráfico. Mas a Casa Branca continua a ter o mesmo pretexto que levou ao afastamento de Maduro: a segurança sanitária e nacional dos Estados Unidos.

Cenário mais provável: "Cerco legal"

Seguindo o "guião" do afastamento de Nicolás Maduro e Manuel Noriega, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos avançaria com a indiciação formal de Gustavo Petro por narcotráfico em tribunais americanos. Ao mesmo tempo, a Marinha norte-americana pode apertar o cerco ao país e até mesmo bombardear instalações ligadas a traficantes e a Casa Branca poderia aumentar ainda mais a contestação contra o governo impondo sanções que impeçam o sistema bancário colombiano de transacionar dólares.

Ao contrário da Gronelândia, onde o objetivo é a vassalagem estratégica, na Colômbia o objetivo é a mudança de regime. A estratégia não passaria, numa fase inicial, por uma invasão de fuzileiros, mas por uma operação de guerra híbrida desenhada para fraturar a lealdade das Forças Armadas. A mensagem para os generais colombianos seria clara: ou removem o presidente "narcoterrorista", ou afundam com ele.

Cenário radical: "Operação Just Cause 2.0"

Este é o cenário onde a diplomacia coerciva falha e a retórica inflama o terreno. Se as sanções não derrubarem o governo, Trump, empenhado em cumprir a ameaça, poderia incitar fações militares dissidentes ou paramilitares para desestabilizar o país, tentando replicar a Invasão do Panamá de 1989.

A Marinha dos EUA estabeleceria um bloqueio naval total nas costas do Caribe e do Pacífico para "interceção de narcóticos", apoiada por ataques de drones contra infraestruturas críticas. A grande diferença para o passado reside na resistência, uma vez que Gustavo Petro já admitiu publicamente que poderia "voltar a pegar em armas" para defender a pátria.

Isto obrigaria os EUA a uma intervenção direta, tal como fizeram para remover Noriega. Na altura, 27 mil soldados americanos invadiram o Panamá não para ocupar, mas para decapitar o regime. O desfecho histórico, a tomada de posse de Guillermo Endara dentro de uma base militar americana, serve de aviso sombrio para o futuro de Bogotá sob a doutrina Trump.

Cuba

Grau de iminência: 3,5 de 5

Enquanto a retórica contra a Colômbia e a Gronelândia sugere uma ação ativa, a abordagem de Donald Trump em relação a Cuba é, paradoxalmente, mais ameaçadora pela sua passividade calculada. Ao contrário dos outros países do hemisfério que os Estados Unidos dizem ser "o seu", o presidente americano descartou, para já, uma intervenção direta, defendendo que o regime está podre e prestes a ruir. "Não creio que precisemos de qualquer ação. Parece que vai cair", declarou Trump.

Mas a posição de Trump contrasta com a visão do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, um "falcão" republicano de ascendência cubana. O chefe da diplomacia americana recusou-se a comentar quais os próximos passos dos Estados Unidos contra Cuba, mas deixou no ar uma ameaça. "Se eu vivesse em Havana e trabalhasse para o governo, estaria preocupado", afirmou. Mas a resposta de Havana foi imediata. O presidente Miguel Díaz-Canel entrou num comício em frente à embaixada dos EUA, prometendo que a aliança com a Venezuela não cairá sem luta: "Estamos dispostos a dar a própria vida, mas a um custo elevado".

Cenário mais provável: "O Cerco da Fome"

Cuba não é um local de boa memória para campanhas militares com "botas no terreno" por parte dos Estados Unidos e o facto de, aparentemente, não ser uma prioridade estratégica para o presidente americano torna menos provável uma ação militar contra a ilha. O cenário mais provável é o aperto do cerco, uma campanha de pressão sem precedentes, apoiada pelo fim do fornecimento dos 50 mil barris de petróleo diários que recebia do regime de Maduro.

Os norte-americanos podem aplicar a proibição total do envio de dinheiro de familiares de cubanos nos EUA para a ilha, cortando uma importante fonte de apoio de um número grande de famílias cubanas. Ao mesmo tempo, a Casa Branca pode expandir as sanções contra empresas ocidentais que operam no país, aumentando o descontentamento da população, que pode ser ampliado de forma digital. O objetivo não é invadir, mas criar um cenário de colapso energético e alimentar tão grave que as próprias Forças Armadas Revolucionárias se vejam obrigadas a depor a liderança política.

Cenário radical: "Intervenção humanitária forçada"

Este cenário pode acontecer caso a hipótese anterior mergulhe o país numa guerra civil e leve a um novo êxodo em massa de refugiados, algo que já aconteceu no passado. Se o governo de Díaz-Canel começar a reprimir violentamente protestos maciços, Marco Rubio poderá invocar a responsabilidade de proteger a população ou a segurança das fronteiras americanas para justificar uma intervenção.

Neste cenário, os Estados Unidos poderiam tentar criar "Corredores Humanitários Forçados", com a Marinha dos EUA a ocupar portos estratégicos com o pretexto de querer entregar ajuda alimentar e médica à população cubana. Este cenário colocaria a elite militar num dilema: permitir que os americanos entregassem comida e medicamentos ao povo ou permitir a violação da soberania, o que poderia significar, na prática, o fim da autoridade do Estado cubano.

Trump Venezuela
Trump ameaça repetir noutros países da América Latina o que se viu nos céus de Caracas

México

Grau de iminência: 4,5 de 5

O México é, neste momento, o epicentro da crise de drogas americana e o presidente Donald Trump não tem problemas em fazer o governo mexicano saber disso. A Casa Branca recordou, no domingo, que é através da fronteira mexicana que grande parte das drogas entram no país e, eventualmente, os Estados Unidos vão "ter de fazer alguma coisa em relação a isso". 

A resposta mexicana foi firme, mas corre o risco de subestimar a nova realidade política, onde a administração americana demonstra estar disposta a tudo para impor as suas regras no hemisfério que assumiu como "seu". A presidente Claudia Sheinbaum afirmou que não deseja "que o fentanil chegue a nenhum jovem", mas desvalorizou a hipótese de uma invasão, dizendo não acreditar que seja algo que os EUA estejam a considerar seriamente. Esta descrença pode ser um erro fatal num mundo regido pela nova "Doutrina Donroe".

Cenário provável: "Pressão económica máxima"

O primeiro passo americano deve passar pelo aumento da pressão económica sob o México. Os dois países têm uma economia altamente integrada, com os americanos a exercerem uma enorme influência no destino económico do país. Trump pode ameaçar impor taxas alfandegárias de 25% a 100% sobre todas as exportações mexicanas até que o governo mexicano aceite a presença de Forças Armadas americanas no seu território para lidar com os poderosos cartéis mexicanos.

As bases para uma operação militar no país vizinho até já estão criadas. Mal entrou no poder, em janeiro do ano passado, Donald Trump assinou uma ação executiva que designa os cartéis de drogas como organizações terroristas estrangeiras, o que permite o uso de força militar em território estrangeiro. Isto daria a Trump a cobertura legal doméstica para congelar ativos do Estado mexicano caso este seja visto como "cúmplice" ou "incapaz".

Cenário radical: "O ataque preventivo"

O cenário onde a presidente mexicana mantém a recusa em aceitar "ajuda" no combate aos cartéis que continuam a inundar as ruas americanas com fentanil pode levar a uma ação mais musculada americana. A administração Trump terá iniciado planos detalhados para uma nova missão militar no México, com o objetivo de atacar diretamente os cartéis de droga, segundo um exclusivo da NBC News. As primeiras fases de treino para a operação secreta já terão inclusive começado.

O plano pode incluir bombardeamentos cirúrgicos com mísseis de longo alcance e drones contra laboratórios e complexos dos cartéis mexicanos. A operação pode voltar a incluir incursões das forças especiais americanas no terreno, para capturar ou eliminar chefes desses grupos criminosos. Este cenário radical provocaria o caos diplomático absoluto, mas Trump continuaria a vender a ideia internamente como uma prova de força.

Irão

Grau de iminência: de 4,5 de 5

Se nos outros cenários estão em causa ameaças, no Irão estamos a falar de uma guerra em suspenso. Trump garante que os Estados Unidos estão "prontos para disparar" contra o Irão, numa altura em que o país atravessa a segunda semana de protestos contra as autoridades e com alguns relatos de quase duas dezenas de mortos. "Se eles começarem a matar pessoas como fizeram no passado [...] vão ser atingidos com muita força", ameaçou Trump.

Do outro lado, o aiatola Ali Khamenei invoca a resistência habitual, afirmando que a República Islâmica "não cederá ao inimigo" e prometendo "colocar no seu lugar" os manifestantes. Mas, na verdade, o regime está ferido e os Estados Unidos começam a mostrar abertura para abalar definitivamente as estruturas do poder no Irão, criando as condições ideais para um cocktail geopolítico explosivo.  

Cenário mais provável: "Uma Revolução Assistida"

Ao contrário de 2009 ou 2019, onde os EUA se limitaram a apoio moral, a "Doutrina Donroe" implica um apoio operacional ativo à mudança de regime, sem necessariamente envolver botas no terreno. Trump sabe que o regime está fragilizado pelo bombardeamento de junho e pela crise económica. 

Isto pode levar os EUA a ordenar o Comando Cibernético americano (CYBERCOM a atingir o sistema de comunicações da polícia de choque iraniana e da Guarda Revolucionária, cegando a repressão em tempo real. Em simultâneo, as forças americanas podem tentar fazer chegar ao país terminais de internet por satélite para garantir que os vídeos da repressão chegam ao mundo, impedindo o regime de "apagar as luzes" para cometer massacres.

Cenário radical: "Decapitar o Regime"

Este cenário pode ser ativado se Khamenei ignorar os alertas americanos e ordenar um massacre estilo "Tiananmen" ou se as agências de serviços de informação detetarem a reconstrução acelerada de centrifugadoras nucleares. Tendo em conta que as instalações nucleares já foram atingidas em junho, o próximo alvo não seriam infraestruturas, mas sim a liderança.

Os EUA iriam levar a cabo "ataques de saturação" com mísseis Tomahawk contra os quartéis-generais da Guarda Revolucionária Islâmica e contra centros dos serviços secretos. Os norte-americanos poderiam também lançar um ataque direto aos complexos residenciais da liderança ou bunkers de comando, numa tentativa de eliminar a cabeça do regime.

Taiwan

Grau de iminência: 4 de 5

Taiwan arrisca ser uma das principais vítimas colaterais da nova "Doutrina Donroe", com os Estados Unidos - até agora um dos principais garantes do status quo no sudeste asiático - a focarem-se agressivamente no "seu" hemisfério. Com a intervenção na Venezuela e com uma possível anexação da Groenlândia no horizonte, Trump está a enviar uma mensagem que é do agrado de Pequim, com o regresso à política das esferas de influência.

Se Washington se arroga o direito de intervir nos vizinhos para garantir a sua segurança nacional, perde toda a legitimidade moral e diplomática para criticar a China por querer "reunificar" uma ilha a 160 km da sua costa. Donald Trump já sinalizou que a defesa da democracia taiwanesa não é um princípio sagrado, mas uma transação comercial. "Taiwan roubou o nosso negócio de chips. Eles devem pagar-nos pela defesa", disse o presidente americano no passado.

Cenário mais provável: "O Grande Abandono"

Este cenário vê a China a beneficiar daquilo que aparenta ser um isolacionismo agressivo de Donald Trump para avançar com a anexação no seu quintal. Pequim deverá avançar com a estratégia de criar um bloqueio naval para sufocar a economia da ilha. A resposta de Trump não seria uma tentativa de romper o bloqueio, mas sim uma negociação direta com Xi Jinping, contornando a vontade dos parceiros taiwaneses.

Os EUA aceitariam a "integração gradual" de Taiwan na China, semelhante ao modelo de Hong Kong, em troca de garantias comerciais maçiças para os EUA, envolvendo o gigante de semicondutores TSMC.

Cenário radical: "Política de Terra Queimada"

Se a China decidir que a legitimidade conferida pelas ações americanas justifica uma invasão anfíbia rápida, Taiwan fica numa posição desesperada. Sem a garantia de intervenção militar americana, a ilha poderia cair em dias ou semanas. Neste cenário radical, a única preocupação dos EUA seria negar à China acesso à indústria tecnológica taiwanesa. 

Washington poderia ativar planos de contingência para sabotar remotamente ou bombardear a fábrica da TSMC, garantindo que, se a China tomar a ilha, herdará apenas ruínas e não a supremacia global em microchips. Seria o fim de Taiwan como entidade política e o fim da hegemonia americana no Pacífico, formalizando a divisão do mundo em dois blocos fechados.

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