De onde vieram os gatos domésticos? ADN antigo baralha a história da sua origem

CNN , Katie Hunt
27 dez 2025, 16:00
Vários crânios de gatos domésticos desenterrados no local arqueológico de Xitucheng, na China. (Yu Han)
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Novas descobertas revelam que os gatos domésticos têm uma história mais recente do que se pensava

As origens dos gatos domésticos - séculos antes de conquistarem os sofás e os memes em todo o mundo - sempre foram pouco claras. Agora, ADN antigo está a ajudar a preencher as lacunas, e as descobertas abalam a história tradicional.

Os arqueólogos pensavam que gatos e humanos tinham começado a viver lado a lado há cerca de 9.500 anos, no Levante, região que hoje abrange partes do Médio Oriente e do Mediterrâneo oriental, no início do período Neolítico, quando os humanos começaram a cultivar.

Os armazéns de cereais atraíam roedores, que por sua vez despertavam o interesse dos gatos selvagens. Os humanos acharam útil manter esses caçadores de ratos por perto, o que levou à eventual domesticação dos felinos. Os mais antigos restos mortais de gato conhecidos nos registos arqueológicos são de um túmulo em Chipre desse período.

Contudo, novas análises de informação genética proveniente de ossadas de gatos encontradas em várias escavações arqueológicas na Europa, Médio Oriente e Ásia sugerem que os gatos domésticos que conhecemos hoje têm origens muito mais recentes e que não foram os primeiros felinos a viver ao lado dos humanos.

"Começámos a analisar ossos atribuídos a gatos domésticos com cerca de 10.000 anos, para perceber quais deles partilhavam, de facto, o mesmo perfil genético da população de gatos modernos", explica Greger Larson, professor na área da arqueologia na Universidade de Oxford, no Reino Unido. Larson é coautor de dois estudos resultantes desta investigação.

"Isso destrói completamente a história anterior", acrescenta.

Os gatos domésticos são hoje animais de estimação muito populares. (Viktoriya Skorikova/Moment RF/Getty Images via CNN)
Os gatos domésticos são hoje animais de estimação muito populares. (Viktoriya Skorikova/Moment RF/Getty Images via CNN)

Um estudo centrado na Europa, publicado na revista Science, analisou 87 genomas de gatos antigos e modernos e concluiu que o gato doméstico, cujo nome científico é Felis catus, teve origem no Norte de África, e não no Levante, como se pensava anteriormente. Os seus antepassados estavam intimamente ligados ao gato-selvagem-africano, Felis lybica lybica.

Segundo o estudo, estes gatos deram origem ao património genético do gato doméstico moderno e terão começado a espalhar-se pela Europa com a expansão do Império Romano, há cerca de 2.000 anos.

Por volta do ano 730, o gato doméstico já tinha chegado à China, provavelmente transportado em caravanas comerciais ao longo da Rota da Seda, de acordo com um segundo estudo publicado na revista Cell Genomics. A investigação analisou ADN de 22 ossos de felinos encontrados em território chinês ao longo dos últimos 5.000 anos.

Antes disso, uma espécie de felino completamente diferente, sem ligação ao gato doméstico ou aos seus antepassados, viveu lado a lado com os humanos desde, pelo menos, há 5.400 anos até ao ano 150 d.C, descobriram os investigadores. Conhecido cientificamente como Prionailurus bengalensis, ou gato-leopardo, os seus restos mortais - encontrados em sete escavações arqueológicas na China - foram identificados nesta nova análise.

Vizinhos discretos

Crânio de um gato-leopardo encontrado num túmulo da dinastia Han, na antiga cidade de Zheng-Han, na China. (Ziyi Li e Wenquan Fan via CNN)
Crânio de um gato-leopardo encontrado num túmulo da dinastia Han, na antiga cidade de Zheng-Han, na China. (Ziyi Li e Wenquan Fan via CNN)

Originário da Ásia, o Prionailurus bengalensis é um pequeno felino selvagem que não se cruza naturalmente com espécies do género Felis. No entanto, a partir da década de 1980, criadores de gatos começaram a cruzar deliberadamente as duas espécies para dar origem ao gato-bengala, segundo o estudo.

A relação do gato-leopardo com os humanos foi historicamente "comensal" - ambas as partes beneficiavam dela. Mas o felino nunca chegou a ser totalmente domesticado, apesar de ter vivido lado a lado com as pessoas durante mais de 3.500 anos, explica Shu-jin Luo, autora sénior do estudo centrado na China e investigadora da Faculdade de Ciências da Vida da Universidade de Pequim. Os humanos beneficiavam da capacidade destes gatos selvagens para caçar ratos, enquanto os felinos tinham acesso fácil a roedores para se alimentarem - mas, ao que tudo indica, nunca houve um controlo deliberado da população de gatos-leopardos.

"A relação comensal entre humanos e gatos-leopardos acabou por se extinguir, e os gatos-leopardos regressaram aos seus habitats naturais, vivendo hoje como vizinhos discretos e esquivos", afirma Luo.

Uma das hipóteses para explicar porque é que o gato-leopardo nunca chegou a ser totalmente domesticado prende-se com a sua reputação de caçar galinhas, além de roedores, ao contrário dos gatos domésticos, mais eficazes a apanhar ratos. No folclore chinês, o gato-leopardo é conhecido como o "tigre caçador de galinhas", uma referência direta ao seu apetite por aves domésticas, explica Luo.

"Após a Dinastia Han, o crescimento e a mudança nos métodos de criação de aves - de sistemas em que andavam à solta para criação em gaiolas - terão provavelmente agravado o conflito entre humanos e gatos-leopardos", escreve Luo, num email. "A sua forte tendência para caçar galinhas, e para matar mais do que o necessário em espaços confinados, terá tornado os gatos-leopardos cada vez menos bem-vindos junto de povoações humanas."

O desaparecimento dos gatos-leopardos das áreas habitadas coincidiu com os séculos turbulentos entre a queda da dinastia Han, em 220 d.C., e a ascensão da dinastia Tang, em 618 d.C., um período mais frio e seco que reduziu a produção agrícola, perturbando o nicho ecológico destes felinos, explica Luo.

"Isto não significa que os gatos-leopardos se tenham extinguido; significa apenas que se afastaram das áreas habitadas por humanos e continuaram a sobreviver nos seus habitats florestais naturais", acrescenta.

Um gato-leopardo selvagem captado por uma câmara de vigilância de vida selvagem nos arredores de Pequim. (Shu-Jin Luo via CNN)
Um gato-leopardo selvagem captado por uma câmara de vigilância de vida selvagem nos arredores de Pequim. (Shu-Jin Luo via CNN)

O desenvolvimento de comunidades agrícolas, como a China, implicou mudanças nas relações com muitos animais, incluindo os gatos selvagens, afirma William Taylor, professor auxiliar e curador de arqueologia no Museu de História Natural da Universidade do Colorado, que estuda a domesticação de animais. Taylor não participou na investigação.

"É muito interessante ver como estes estudos de ADN ajudam a reconstruir a história dos gatos da Europa e da Ásia - um pequeno animal tão comum que muitas pessoas dão como garantido - e como isso nos leva de volta às primeiras rotas comerciais, como a Rota da Seda, que assentavam nas viagens feitas com a ajuda de animais como cavalos, burros e camelos."

Um gato-bengala moderno, como o que se vê na imagem, resulta do cruzamento entre um gato doméstico (Felis catus) e um gato-leopardo (Prionailurus bengalensis). (SolStock/E+/Getty Images via CNN)
Um gato-bengala moderno, como o que se vê na imagem, resulta do cruzamento entre um gato doméstico (Felis catus) e um gato-leopardo (Prionailurus bengalensis). (SolStock/E+/Getty Images via CNN)

Gatos e o antigo Egito

Os novos dados, que apontam a origem do gato doméstico para o Norte de África, talvez não sejam surpreendentes, afirma Jonathan Losos, professor de Biologia na Universidade de Washington, em St. Louis.

Os gatos desempenham um papel importante na iconografia do antigo Egito, aponta num comentário publicado em paralelo com o estudo da Science. As paredes dos túmulos retratam gatos como membros da família, com coleiras, brincos e colares; a comer de tigelas; e sentados debaixo de cadeiras.

No entanto, não é claro se a terra dos faraós foi o local onde todo o processo de domesticação ocorreu, ou se funcionou apenas como uma espécie de etapa final, onde caçadores de ratos se transformaram em companheiros domésticos, escreve Losos.

O estudo centrado na Europa concluiu que os gatos encontrados em escavações arqueológicas anteriores a 200 a.C. eram geneticamente identificáveis como gatos-selvagens-europeus da espécie Felis silvestris, e não como gatos domésticos, apesar de os seus esqueletos serem difíceis de distinguir. Ainda assim, observa Losos, é possível que estes gatos selvagens tenham vivido entre humanos, uma vez que as suas crias podem ser relativamente fáceis de amansar.

O trabalho para desvendar a história dos gatos continua, e Losos sublinha que a escassez de amostras arqueológicas provenientes do Norte de África e do sudoeste da Ásia significa que a história sobre a origem do gato doméstico está ainda longe de estar completa.

"Eternamente enigmáticos, como esfinges, os gatos revelam os seus segredos com relutância", acrescenta. "Será necessário recorrer a mais material genético do passado para desvendar estes mistérios de tempos remotos."

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