"A maior parte das pessoas não se apercebe porque não dói". Há um tipo de doença que mata mais do que qualquer outro em Portugal

29 set 2025, 13:07
Novo estudo diz que as pessoas com uma dieta pobre em hidratos de carbono e rica em gorduras têm um risco maior de desenvolver problemas cardiovasculares graves. manusapon kasosod/Moment RF/Getty Images

Sintomas que nem sempre doem aliados a hábitos cada vez menos saudáveis. Parece estar escrita a receita para o desastre. Neste Dia Mundial do Coração, os especialistas fazem um pedido simples: que vigiemos de perto os sintomas.

Todos os anos em Portugal, cerca de 33 mil pessoas perdem a vida para uma doença cardiovascular, que continua a ser a principal causa de morte no país, mesmo que “80% delas possam ser prevenidas”. É o que garante à CNN Portugal a cardiologista Cristina Gavina, também presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), que admite números “preocupantes”.

“É quase como dizer que uma em cada três pessoas vai morrer de doença cardiovascular, mas ninguém está logo à partida condenado a esse fado”, sublinha.

A tendência a desenvolver problemas cardiovasculares pode ser agravada por alguns fatores, explica a especialista. Podem ser biológicos, como a obesidade, a hipertensão arterial, a diabetes, e a dislipidemia, onde se encaixa o colesterol; ou associados ao estilo de vida e, por isso, à partida mais fáceis de controlar - o tabagismo, a dieta inadequada, o consumo de álcool e um nível baixo de atividade física.

“Também há uma predisposição genética que nós não podemos controlar, como o género e a idade”, reconhece a cardiologista, que não deixa de avisar que “se a essas coisas, que não podemos controlar, adicionamos as outras que estão no nosso controlo e que dependem dos estilos de vida e de comportamentos, então aí estamos a pôr-nos a jeito para que as coisas aconteçam.”

Atualmente, as mortes por doença cardiovascular representam uma fatia de 30% no todo da mortalidade em Portugal, segundo a presidente da SPC. Nesta percentagem as causas vão desde acidentes vasculares cerebrais (AVC) e enfartes do miocárdio, também conhecidos como ataques cardíacos, à insuficiência cardíaca e às arritmias, que podem culminar numa morte súbita.

Grande parte do problema está nos sintomas de que “a maioria das pessoas não se apercebe, porque isto não dói e se as pessoas não procurarem ativamente não vão saber.”

Tensão, colesterol e glicemia são os "números mágicos"

Existem “três números mágicos” a que devemos estar atentos, diz a especialista. São eles o valor da tensão arterial, o valor do colesterol e o valor da glicemia, “ou seja, sabermos se somos diabéticos, se temos hipertensão arterial e sabermos se temos o colesterol elevado” pode ajudar a tomar outro tipo de precauções.

“São estas coisas que nós só vamos saber se procurarmos, porque muitas vezes são esquecidas. Nomeadamente a partir dos 40 anos, têm de ser monitorizadas de forma regular. E estamos a falar de uma vez por ano, não é nada de extraordinário.”

Todo o processo implica proatividade e idas ao médico, mas, “independentemente disso”, alerta a médica, “há muitas destas coisas que podem ser feitas em casa, nomeadamente a medição da pressão arterial, porque hoje em dia qualquer pessoa tem acesso a um medidor de tensões e pode fazer esse tipo de vigilância.”

Por outro lado, controlar os hábitos de alimentação, prevenir a obesidade - que já afeta “20% da população portuguesa” - e os níveis altos de colesterol, adotar padrões de sono saudáveis e contrariar o sedentarismo são boas formas - e eficazes - de “garantir uma menor probabilidade de vir a ter um problema cardiovascular”.

Para a responsável da SPC, a desvalorização dos sintomas pode mesmo ser o maior contributo para se dar um evento. “As pessoas sabem que não deviam ter a tensão um bocadinho alta, sabem que é mau ter o colesterol um bocadinho alto, sabem que é mau ter um bocadinho de excesso de peso, mas a questão é que, muitas vezes, percecionam estas coisas como sendo pouco relevantes. Acham sempre que é só um bocadinho e os bocadinhos todos juntos são o que torna a situação numa bomba-relógio”, reforça.

A relação que se estabelece entre o agravamento das doenças cardíacas e comportamentos “mais sedentários”, assim como “a perda da alimentação mediterrânica que nos protegia”, está mais do que comprovada, mas para a comunidade médica um dos pontos essenciais é que se compreenda que “isto  é algo que dá para prevenir”. “Nós estamos a pedir que as pessoas estejam atentas a estas pequenas coisas que vão fazer toda a diferença na sua vida futura, e essa prevenção não custa propriamente dinheiro, essa é a parte boa.”

Os jovens são quem mais vale a pena prevenir

A principal conclusão de um estudo desenvolvido pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) concluiu que, em 2014, 68% da população portuguesa apresentava pelo menos dois fatores de risco que potenciam doenças cardiovasculares. Mas “o elevado grau de desconhecimento dos indivíduos em relação à sua situação clínica e à medicação prescrita” é outro dos problemas que a investigação salienta.

“As pessoas até podem achar que têm alguma noção do que é que são as doenças e os problemas mas, na realidade, não têm bem consciência do verdadeiro impacto que os fatores de risco depois têm na sua vida”, defende Cristina Gavina.

Uma população mais literada em saúde e um acompanhamento próximo dos sintomas podem ser hábitos-chave na prevenção cardiovascular, especialmente nos jovens, que são a camada da população “que ainda vale a pena prevenir”. O foco desvia-se assim das “pessoas com 70 ou 80 anos, que já não vão ter grande possibilidade de alterar toda uma vida com pressões arteriais elevadas e colesterol elevado, em que os danos já estão feitos.”

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