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Tuberculose desce nas crianças até aos 5 anos em 2024

Agência Lusa , AM
24 mar, 07:14
Tuberculose

A maioria dos casos até aos 5 anos ocorreu em crianças nascidas em Portugal, registando-se também casos em crianças provenientes da Guiné-Bissau, Índia e Paquistão

Portugal registou 37 casos de tuberculose em crianças e jovens até aos 14 anos em 2024, com uma descida no grupo dos zero aos 5 anos, revela um relatório da Direção-Geral da Saúde (DGS) divulgado esta terça-feira.

Segundo o Relatório de Vigilância e Monitorização da Tuberculose em Portugal 2025, foram notificados 19 casos em crianças até aos 5 anos, correspondendo a uma taxa de incidência de 3,7 casos por 100 mil crianças, abaixo dos valores de 2023 (5,2) e de 2022 (6,2).

Entre os 6 e os 14 anos, foram registados 18 casos, mantendo-se a taxa de incidência nos 2,1 por 100 mil crianças, idêntica à de 2023 e superior à de 2022 (2,0 casos).

De acordo com os dados divulgados no Dia Mundial da Tuberculose, sete crianças até aos 5 anos (36,8%) e oito com idades entre os 6 e os 14 anos (44,4%) estavam vacinadas com BCG.

Os casos de tuberculose em crianças até aos 5 anos concentraram-se sobretudo nos distritos de Lisboa (42,1%), Porto (26,3%) e Setúbal (15,8%).

Já no grupo dos 6 aos 14 anos, o distrito de Lisboa registou o maior número de casos (38,9%), seguido de Setúbal (27,8%) e Porto (16,7%).

A maioria dos casos (23) até aos 5 anos ocorreu em crianças nascidas em Portugal, registando-se também casos em crianças provenientes da Guiné-Bissau, Índia e Paquistão.

No grupo dos 6 aos 14 anos, a maioria dos casos (11) ocorreu em crianças não nascidas em Portugal, provenientes de Angola (2), Guiné-Bissau (2), Índia (2), Brasil, Cabo Verde, Paquistão, China e República Democrática do Congo.

Em declarações à agência Lusa, a adjunta do Programa Nacional para a Tuberculose da DGS, Sofia Sousa, afirmou que “a tuberculose em contexto infantil existe, porque existem casos em adultos que transmitem esta doença às crianças”.

“É um grupo particularmente vulnerável. Uma exposição mesmo que breve pode conduzir ao desenvolvimento da infeção e da doença mais rapidamente”, alertou.

Sofia Sousa destacou que a DGS mantém uma vigilância apertada da tuberculose infantil em linha com as orientações de vacinação de grupos de risco elegíveis para a BCG, uma vacina que não previne a tuberculose, mas protege contra as formas mais graves da doença.

No total, as crianças e adolescentes até aos 15 anos representaram 2,4% dos 1.536 casos de tuberculose em 2024. Não se registaram mortes nestas idades, tal como em 2023.

Embora a maioria dos casos de tuberculose ocorra na população nascida em Portugal, a proporção de casos em migrantes tem tido uma tendência crescente, com 39,1% de casos notificados em 2024.

A taxa de notificação em migrantes foi de 38,9 casos por 100 mil habitantes em 2024 (44,8 casos por 100 mil habitantes em 2023), 2,7 vezes superior à da população em geral (14,3 casos por 100 mil habitantes), embora inferior à de 2023 (44,8 por 100 mil).

“Esta diminuição da taxa de notificação em 2023 e 2024 reflete o aumento da população migrante com o estatuto legal de residência”, segundo dados da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA).

Dos 601 casos notificados em migrantes, 278 casos (46,3%) ocorreram em pessoas com entrada em Portugal há menos de dois anos, refere a DGS, referindo que os países de língua oficial portuguesa representam 66,9% dos países de origem dos casos nesta população.

A maioria dos casos em migrantes registou-se no distrito de Lisboa, com aumento progressivo: 51% em 2022, 55,7% em 2023 e 66,5% em 2024.

No Porto, mantém-se elevada (15% em 2024), após tendência crescente nos anos anteriores (9,4% em 2022 e 16,3% em 2023).

Em Beja, apesar da redução do número absoluto de casos, a população migrante continua a representar a maioria, com 58,3% em 2024 (61,8% em 2023).

Entre os fatores de risco na população migrante destacam-se a infeção por VIH (10,5%), a diabetes (3,8%) e a residência em contexto comunitário (4,8%). Já o consumo de álcool registou uma diminuição em 2024 (2,8% face a 4,8% em 2023).

Sofia Sousa explicou que “esta população é vulnerável por vários motivos: Uma grande parte provém de países com alta incidência da doença e, portanto, é expectável que possam já estar infetados, mesmo não estando doentes”.

“É importante garantir o rastreio destas populações, que têm um acesso facilitado, não têm barreiras para aceder gratuitamente ao diagnóstico e ao tratamento da tuberculose em Portugal”, defendeu.

A responsável destacou ainda o trabalho com organizações de base comunitária e da sociedade civil para reforçar a informação de que o tratamento é gratuito e o rastreio acessível, de forma a reduzir o tempo até ao diagnóstico e ao início do tratamento.

Portugal registou número de casos de tuberculose mais baixo de sempre

Portugal registou 1.536 casos de tuberculose em 2024, o valor mais baixo de sempre, segundo um relatório da Direção-Geral da Saúde, que mostra que entre os imigrantes a taxa é quase três vezes superior à média nacional.

O Relatório de Vigilância e Monitorização da Tuberculose em Portugal, divulgado no Dia Mundial da Tuberculose, confirma a tendência de descida da tuberculose no país, com uma taxa de notificação de 14,3 casos por 100 mil habitantes.

“Verificamos uma redução da taxa de incidência face aos números de 2015 na ordem dos 31,8%, [mas] ainda um pouco aquém daquilo que esperamos para conseguir o objetivo de reduzir 90% da incidência até 2035”, conforme definido pela Organização Mundial da Saúde, disse a agência Lusa a adjunta do Programa Nacional para a Tuberculose da DGS.

Sofia Sousa destacou ainda a evolução positiva na mortalidade, indicando que em 2024 se registaram 50 mortes por tuberculose, uma redução de quase 70% face aos números de 2015, o que aproxima Portugal das metas internacionais.

Segundo o relatório, Lisboa e Vale do Tejo e o Norte mantiveram-se como as regiões de maior incidência, com 17,1 e 16,4 casos por 100 mil habitantes, respetivamente.

A responsável explicou que esta concentração se deve à maior densidade populacional, à presença de grupos vulneráveis, a comorbilidades associadas e a fatores urbanos como a sobrelotação, que contribuem para “um aumento do número de casos, que já se verifica há muito tempo”.

Do total de casos, 1.418 correspondem a novos casos e 118 a retratamentos. Os homens continuam a ser mais afetados (64,4% do total de casos), enquanto as crianças e adolescentes até aos 15 anos representaram 2,4% das notificações.

A população migrante manteve-se como o grupo mais vulnerável, com uma taxa de notificação 2,7 vezes superior à média nacional, representando 39,1% dos casos em 2024, um aumento relativamente a 2023 (35,7%).

Segundo o relatório, o tempo entre o início dos sintomas e o início do tratamento manteve-se nos 81 dias em 2024, enquanto a demora do doente a chegar ao tratamento diminuiu para 41 dias (43 dias em 2023) e a demora dos cuidados de saúde aumentou para 14 dias (13 dias em 2023).

Sofia Sousa considerou que este intervalo “ainda é muito elevado”, sublinhando que o atraso na procura de ajuda médica continua a ser um dos principais desafios, defendendo o reforço da literacia em saúde e da proximidade aos serviços.

Referiu que em 2024 foi iniciada uma reorganização dos cuidados, com as consultas de tuberculose integradas nas consultas de cuidados respiratórias na comunidade, nas unidades locais de saúde, e a criação de centros de referência em Lisboa e no Porto para casos mais complexos, como a tuberculose multirresistente.

Em 2024, foram notificados 36 casos de tuberculose multirresistente, mais 63,6% face a 2023, concentrando-se maioritariamente em Lisboa e Vale do Tejo (63,9%).

A maioria ocorreu em homens e houve um caso de uma criança de quatro de origem angolana. Dos 36 casos, 24 ocorreram em migrantes, sobretudo de Angola, Brasil e Guiné-Bissau.

Sofia Sousa disse que têm sido feitas várias estratégias para melhorar a vigilância deste tipo de casos, inclusive a nível molecular, para se perceber quais são as estirpes que estão a ser introduzidas e onde estão.

A taxa de sucesso do tratamento atingiu 82,1%, o valor mais elevado dos últimos anos, o que, segundo a DGS, reflete “a qualidade do acompanhamento clínico em Portugal, mas ainda distante das metas internacionais”.

Em 2024, foram tratados 4.315 casos de infeção latente, o valor alto de sempre, evidenciando o resultado do rastreio nos grupos de maior risco.

Apesar da evolução positiva, a DGS alerta para “uma desaceleração preocupante” no ritmo de redução da incidência da doença entre 2020 e 2024.

Esta tendência, associada ao aumento da tuberculose multirresistente e à crescente concentração da doença em populações vulneráveis, exige “uma reorientação estratégica” para alcançar as metas da OMS, defendeu.

Lembrou que a tuberculose é uma doença com cura e prevenível, destacando o papel dos tratamentos preventivos na redução do risco de desenvolvimento da doença ativa, sobretudo em pessoas com fatores de risco, como contactos de doentes, pessoas com VIH ou com imunossupressão.

Destacou a importância da sensibilização para os sintomas, como a tosse persistente e a perda de peso, incentivando a população a procurar cuidados de saúde atempadamente.

Por outro lado, vincou, o combate ao estigma continua a ser um desafio, sendo fundamental falar abertamente sobre a doença, “dar voz a quem está doente” e promover o diagnóstico precoce, contribuindo para que a tuberculose deixe de ser vista como uma doença “que já não existe ou que já não devia existir”.

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