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Especialista em Direito Internacional

Morrer por instinto de sobrevivência: ucranianos mortos a caminho do abrigo

2 ago, 17:20
Explosão em Dnipro (Francisco Cordeiro de Araújo)
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Chego pela manhã à rua Zdolbunivska, na margem esquerda do Dnipro. É uma espécie de margem sul do Tejo, mas continua a ser Kiev. Uma zona suburbana, dominada por altos prédios residenciais, muitos deles herança da arquitetura soviética, onde a funcionalidade sempre venceu a estética.

Hoje, porém, é a destruição que domina a paisagem.

De um lado da rua há uma fábrica e vários pequenos negócios; do outro, blocos de apartamentos. Os estilhaços estão por toda a parte. A primeira imagem que retenho é a de um automóvel parado na faixa da direita, como se o condutor tivesse sido surpreendido em plena fuga. O veículo está completamente carbonizado e perfurado por dezenas de fragmentos.

Na verdade, as primeiras imagens desta tragédia cruzaram-se comigo ainda durante a noite. Enquanto os ataques decorriam, o Telegram enchia-se de vídeos e fotografias. Entre elas, cadáveres espalhados entre os destroços. Imagens difíceis de digerir, mesmo para quem já viu demasiadas.

Foi uma noite dura. À uma e meia da manhã acordámos com o som dos mísseis balísticos. Durante cerca de meia hora sucederam-se explosões, uma atrás da outra, numa cadência quase absurda, que fazia lembrar uma claque de futebol descoordenada a rebentar pirotecnia. A diferença é que aqui não há espetáculo. Há guerra.

Decidimos permanecer no corredor do prédio, longe das janelas, acompanhando as notificações no telemóvel enquanto tentávamos perceber, pelo som das explosões, quão perto estavam.

Na rua Zdolbunivska, a realidade foi outra.

Os mísseis atingiram diretamente esta zona residencial. É uma experiência impossível de imaginar para quem nunca a viveu. Resta-me observar o que ficou e ouvir quem sobreviveu.

Um morador conta-nos que ouviu três explosões principais: duas em frente ao prédio e outra algumas dezenas de metros mais à frente. Depois, descreve uma imagem que dificilmente esquecerei. Viu pessoas a correr para o abrigo e a serem atingidas antes de lá chegarem. Mais tarde reconheceu os corpos de vizinhos com quem se cruzava todos os dias. No rosto não há lágrimas. Há apenas a frustração de quem se sente impotente.

Talvez seja esta uma das maiores crueldades da guerra. O instinto de sobrevivência leva muitos a correr para o abrigo. Mas, por vezes, é precisamente esse caminho que conduz à morte. É uma lotaria macabra em que a diferença entre viver e morrer pode medir-se em metros ou em segundos.

As crateras confirmam os relatos. Estão abertas no passeio, ainda com cheiro a queimado. Entre elas não distam mais de quinze metros. Junto aos buracos permanecem pedaços dos mísseis. Uma mãe passa de mão dada com a filha. Penso no peso invisível de educar uma criança num país onde aprender a procurar abrigo faz parte da infância.

Num prédio de 22 andares não encontro um único vidro intacto. Voluntários e moradores recolhem cacos, enquanto tábuas de madeira circulam de mão em mão para tapar janelas e tornar alguns apartamentos minimamente habitáveis.

A vida tenta reencontrar-se.

Exceto para aqueles que a perderam a caminho do lugar onde julgavam estar mais protegidos.

As vítimas seriam outras se o míssil tivesse caído alguns metros mais à frente ou alguns segundos mais tarde. Entre permanecer num prédio durante um ataque — a recomendação mais frequente quando não há tempo para chegar a um abrigo — e correr para o exterior, existe um dilema probabilístico sem resposta certa. São danos irreversíveis de uma agressão e mais um episódio da banalidade da crueldade.

É essa sucessão de probabilidades que continua a ocupar-me o pensamento. Há, porém, uma pergunta que regressa sempre: e se a Ucrânia dispusesse dos sistemas de defesa aérea de que necessita? Naquela noite foram lançados 27 mísseis balísticos contra Kiev. Apenas um foi intercetado. A distância entre a vida e a morte pode, por vezes, medir-se apenas pela existência — ou ausência — de um sistema de defesa aérea eficaz.

Francisco Cordeiro de Araújo é especialista em Direito Internacional e está na Ucrânia em serviço especial para a CNN Portugal

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