Recordações da casa amarela

18 jan, 09:56

O ataque a Dnipro, a imagem de uma cozinha intacta num prédio esventrado e o poder da memória

Nos escombros do prédio esventrado em Dnipro por um míssil russo, uma luz ficará acesa na memória colectiva da Ucrânia atacada pela Rússia: a imagem de uma cozinha, pintada a amarelo, misteriosamente intacta entre tudo o que colapsou. O derradeiro símbolo da luta pela sobrevivência perante as trevas da deliberada destruição. E que eterniza o propósito desse combate existencial, nas recordações de uma família e da vida que aí levavam, na tentativa de viver na possível normalidade, até ao peso trágico da perda, como estilhaços que a guerra crava e fará perdurar, entre tantas famílias.

É este o poder da história de Mykhailo Korenovsky, um treinador de boxe que morreu no ataque. A família terá sobrevivido. E como eles, em Dnipro e na guerra, tantos relatos cruzados, tantas dezenas de mortos, tantas dezenas de feridos, tantas dezenas de desaparecidos que ninguém sabe se alguma vez serão encontrados. A perda, incompreensível, evitável.

A recordação da cozinha amarela é, assim, a universalidade do sofrimento ucraniano: a vida que havia antes da invasão, a vida que houve durante, e a vida que ainda está por viver - uma luz intacta no meio da devastação, acesa pela eternidade da memória, como a preservação de uma esperança na vitória, partilhada colectivamente. Haja luz.

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