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"Em 2023, Portugal registou, mais de 17 mil divórcios, um a cada 30 minutos, ao longo de todo o ano (Fonte: INE, Estatísticas Demográficas 2023)”.
Os divórcios contêm histórias de dor, de incerteza e, muitas vezes, uma profunda desorientação emocional, porque são a fragmentação de uma identidade construída a dois. O divórcio é efetivamente uma transição crítica no ciclo vital da família.
O divórcio não é apenas o fim do casamento, é a reorganização de toda uma identidade, obriga a uma redefinição do Eu. A pessoa deixa de ser marido de…, ou mulher de…, e precisa de redescobrir os seus próprios gostos, interesses e autonomia.
Existem autores da terapia familiar sistémica que comparam o impacto emocional de um divórcio ao luto pela morte de um ente querido. Assim, o divórcio carrega uma particularidade chamada de "perda ambígua": A pessoa partiu, mas continua fisicamente presente no mundo, o que pode dificultar o processo de perda emocional.
O divórcio abala a identidade da pessoa, o seu sentido de pertença e o projeto de futuro que havia construído a dois. Este momento não é o fim de uma família, mas a sua reorganização. A abordagem sistémica analisa o sistema relacional no seu conjunto: casal, filhos, famílias de origem, reconhecendo que a separação afeta e é afetada por todos os seus membros. O divórcio não dissolve a família, é uma fase que exige reorganização e que, quando bem acompanhada, pode ser atravessada com mais saúde psicológica para todos.
Existe frequentemente uma sensação de projeto falhado, como se o fim da conjugalidade invalidasse os anos de investimento e a própria competência de amar. Um divórcio é um fim natural de um ciclo.
As fases de recuperação emocional
Inicialmente, as pessoas sentem choque e desorganização já que os primeiros meses após a separação são marcados por incredulidade, raiva e tristeza profunda. Às vezes até o alívio pode coexistir e alternar-se de forma desconcertante. As respostas emocionais intensas são respostas normais a uma perda real.
Depois aparece a fase de reorganização identitária. A pessoa confronta-se com perguntas existenciais como: “Quem sou eu fora desta relação? O que falhei? O que quero para o futuro?” E este é o período mais propício para o acompanhamento terapêutico.
No fim do processo de recuperação emocional surge a fase de reconstrução e integração. Com o tempo e apoio a maioria das pessoas consegue integrar a experiência do divórcio na sua história de vida, como uma parte do processo de crescimento pessoal. Não nos podemos esquecer de Erikson e também Walsh sobre os momentos de vulnerabilidade das famílias e do seu grande potencial para o crescimento individual e familiar.
O pós-divórcio e a parentalidade
O fim do casamento não significa o fim da família. A dissolução de um matrimónio tem sido redefinida não como uma ruptura, mas como uma transição para a chamada família binuclear. A conjugalidade chega ao fim, mas a parentalidade deve permanecer como um pilar resiliente e estruturado. O risco real para o desenvolvimento dos filhos reside na persistência de conflitos entre os pais e não no divórcio em si. Uma separação gerida de forma colaborativa revela-se um ambiente muito mais saudável para as crianças do que a manutenção de um lar marcado por tensões e conflitos permanentes.
Sugestões para mitigar o impacto do divórcio:
Cuidado emocional
Reconheça o luto. Permita-se sentir a tristeza, a raiva e o medo. O sentir é a primeira fase para processar as emoções.
Escreva sobre o que sente. A escrita expressiva ajuda a processar emoções difíceis e criar distância narrativa face à dor.
Procure apoio terapêutico para se reorganizar individualmente e para compreender e distinguir o que são padrões de comportamento da relação do que são padrões comportamentais pessoais mais enraizado. Um psicólogo pode ajudar.
Nos primeiros meses, o sistema emocional está desregulado. Evite decisões precipitadas. Adiar decisões reduz o risco de arrependimentos.
Relação com os filhos e a construção da coparentalidade
Fale com os seus filhos de forma adequada à idade. Explicar o que vai mudar de forma honesta e simples reduz a ansiedade das crianças. Evite que a imaginação infantil crie cenários fantasiosos, habitualmente bem mais complicados.
Mantenha as rotinas. A escola, hobbies, horários de refeição e de sono estáveis, estar com primos e familiares, transmitem segurança num período de muita incerteza para as crianças.
Não use os filhos como mensageiros ou confidentes do conflito conjugal já que este é o factor de risco mais documentado para o seu bem-estar. Nunca triangule os seus filhos.
Valorize o outro progenitor. Os filhos precisam sentir que podem amar os dois pais sem culpa. A depreciação do ex-cônjuge prejudica diretamente a autoestima da criança.
Nos períodos de maior conflito comunique apenas sobre os filhos. Limitar a comunicação ao essencial sobre os filhos reduz o atrito e protege todas as partes.
Construa consistência entre os dois lares. Regras básicas semelhantes nos dois lares dão às crianças um sentido de continuidade. A ideia chave é dois lares, uma família.
Reconstrução pessoal
Cuide do corpo. Sono, alimentação e movimento físico regular são âncoras fisiológicas que estabilizam o sistema nervoso em períodos de crise emocional intensa.
Mantenha laços sociais. Amizades, família de origem e grupos de apoio são recursos protetores documentados. O isolamento agrava o sofrimento.
Redefina a sua identidade. Quem sou eu fora desta relação? Interesses abandonados, projetos adiados e novas aprendizagens ajudam a construir um sentido do Eu renovado.
Dê tempo ao tempo. Alguns autores referem que a reorganização familiar após o divórcio leva em média dois a três anos. Lembre-se que o sofrimento atual não é permanente. Pratique a compaixão consigo próprio.
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