“Diz ao mundo: eu, Johnny Depp, sou uma vítima de violência doméstica”. Johnny Depp e Amber Heard, um casamento que terminou com áudios de discussões na sala do tribunal

26 abr, 16:23

Julgamento do caso de difamação voltou a colocar o ex-casal frente a frente e mostrou o retrato de um casamento destruído. Nos áudios agora divulgados, a atriz chega a desafiar o agora ex-marido a contar "ao mundo" que é "uma vítima de violência doméstica". Em tribunal, o ator, de 58 anos, garante que sim, foi vítima de violência, mas justifica as mensagens em que disse que queria ver a ex-mulher morta como "humor irreverente e abstrato" retirado de um episódio de Monty Python

Johnny Depp e Amber Heard conheceram-se durante as filmagens do filme “O Diário de um Jornalista Bêbedo”, em 2011. Apaixonaram-se. Casaram-se. E a história de amor acabou na sala do tribunal, com acusações mútuas de agressões e violência doméstica.

O casal que se divorciou em 2017, com Deep a pagar quase 7 milhões de euros à ex-mulher, voltou a encontrar-se no tribunal de Fairfax, Virginia, na semana passada, para o julgamento do caso de difamação em que Depp processou a ex-mulher e pede 46 milhões de euros em danos e Amber Heard avançou com a mesma acusação, mas exige 93 milhões.

O ator dos Piratas das Caraíbas foi o primeiro a ser ouvido, ao longo de quatro dias, sobre o que se passou durante os anos de casamento, tendo sido apresentadas várias provas em tribunal, como gravações das discussões do casal.

No primeiro dia de audiência, na passada terça-feira, Johnny Depp sentou-se na cadeira das testemunhas e, garantindo ser "obcecado com a verdade", disse que as alegações contra ele de violência doméstica eram "perturbadoras e hediondas" e “não baseadas em nenhuma espécie de verdade”.

"Nada daquele género aconteceu alguma vez. Nunca cheguei ao ponto de bater na Sra. Heard de forma alguma. Nem nunca bati em nenhuma mulher na minha vida", garantiu.

O ator terá dado início a este processo para limpar o nome. “Senti responsabilidade de não só me defender, mas de tomar uma posição pelos meus filhos. Achei diabólico que os meus filhos tivessem de ir para a escola e terem os amigos a abordá-los com a famosa capa da revista ‘People’ com a senhora Heard com uma nódoa negra na cara", afirmou.

Na terça-feira, a defesa de Amber Heard apresentou em tribunal um conjunto de mensagens de texto e de áudio em que o ator fala da relação com a filha e o advogado Ben Rottenborn chegou mesmo a questionar Depp se tinha tentado esconder da filha que andava a beber. Depois de autorizado pelo juiz, Rottenborn reproduziu o áudio de uma mensagem trocada pelo ator com o agente Kevin Murphy.

"Agora a Lily-Rose odeia-me porque pensa que estou a beber e ela tem razão", dizia Depp. Numa segunda mensagem, em que Depp parecia chorar, e que foi contestada pelo ator, ouvia-se: "Nunca vou ficar limpo e sóbrio". 

Por sua vez, no primeiro dia de julgamento, a defesa de Johnny Depp apresentou um vídeo do terapeuta do casal que testemunhou que Johnny Depp e Amber Heard sofreram, ambos, de abusos durante a infância e que iniciaram comportamentos de "abusos mútuos" durante a relação.

"Era um ponto de orgulho para ela quando se sentia desrespeitada iniciar uma luta. Ela batia-lhe porque ele estava a ser incoerente e estava a falar sobre estar com outra mulher”, testemunhou, em vídeo, Laurel Anderson.

No entanto, a terapeuta afirmou que Depp terá dito à mulher que ninguém gostava dela e que ela estava a ganhar fama graças a ele. “Ninguém gosta de ti. Estás a ganhar fama comigo. Estou-me a apaixonar por ti. És uma p***”, cita a terapeuta.

"Perdi e vou carregar isso para sempre"

Johnny Depp no segundo dia de audiência (EPA)

No segundo dia de julgamento, Johnny Depp voltou ao banco das testemunhas para dar seguimento ao seu depoimento de como as acusações de violência doméstica feitas por Amber Heard destruíram a sua carreira. 

"Quando as alegações foram feitas, enquanto elas corriam o mundo, a dizerem que eu era um bêbado, uma ameaça cheia de cocaína que batia em mulheres, de repente, nos meus 50 anos, [a minha carreira] acabou. Estava acabado", afirmou, acrescentando. "Não interessa o resultado deste julgamento, no segundo em que essas acusações foram feitas contra mim, e se espalharam, eu perdi. Perdi, e vou carregar isso para sempre.”

Na quarta-feira, o ator recordou ainda o dia em que a ex-mulher ficou chateada por ele estar a beber durante as filmagens de um dos filmes de Piratas das Caraíbas, na Austrália, e lhe atirou uma garrafa de vodka, que lhe arrancou parte de um dedo da mão direita.

"O sangue jorrava. Acho que entrei em algum tipo de... não sei como é um colapso nervoso, mas provavelmente é o mais próximo que já estive. Nada fazia sentido", afirmou o ator, acrescentando que se escondeu na casa de banho antes de ser levado para o hospital, onde mentiu sobre o que tinha acontecido. "Menti porque não queria contar que a senhora Heard me tinha atirado com uma garrafa de vodka e arrancado o dedo. Não a queria colocar em problemas".

O ator afirmou ainda que a ex-mulher "tem uma necessidade de violência que vem do nada" e que os conflitos muitas vezes começavam por discussões verbais e escalavam para atos de violência física.

"A única coisa que aprendi a fazer foi precisamente aquilo que fazia quando era criança - retraía-me”, afirmou, lembrando a violência que sofria por parte da mãe.

Garantindo que nunca respondeu de forma violenta, Depp afirmou ainda que decidiu manter o casamento porque não queria desistir dele, tal como o pai se tinha mantido com a mãe apesar dos episódios de violência doméstica.

“A violência é desnecessária. Porque é que haverias de bater em alguém para que essa pessoa concorde contigo? (...) Não queria falhar. Queria tentar que resultasse. Pensei que a pudesse ajudar. Pensei que talvez lhe pudesse dar a volta, porque a Amber Heard que conheci durante o primeiro ano, ou ano e meio, não era esta adversária.”

Fezes humanas na cama

No segundo dia de depoimentos, Johnny Depp recordou ainda o dia em que comunicou à ex-mulher que iria pedir o divórcio, pouco depois da mãe, Betty Sue Palmer, ter morrido.

"Decidi ligar à Amber e dizer-lhe que a minha mãe tinha morrido naquele dia. Disse-lhe: 'Olha, tomei uma decisão e acho que é o melhor. Vou pedir o divórcio'", contou o ator, acrescentando que terá dito à ex-mulher que não iria alegar diferenças irreconciliáveis ou qualquer relação abusiva.

Quando soube que Amber Heard ia para o Coachella com uns amigos, Depp decidiu ir até à casa do casal para recolher os seus pertences sem que a mulher estivesse presente. No entanto, à chegada, o segurança Sean Bett sugeriu que talvez não fosse o melhor dia para o fazer.

“Eu tinha falado com o senhor Bett e disse-lhe: ‘Ela está no Coachella, acho que é uma boa altura para ir retirar algumas das minhas coisas’, especialmente pertences que eram preciosos para mim. E ele disse ‘acho que não é uma boa altura’. E eu pensei: ‘É o timing perfeito. Ela não vai estar em casa durante dois dias’. Mas depois ele mostrou-me uma fotografia. Era uma imagem da nossa cama, e no meu lado da cama estavam fezes humanas. Foi tão bizarro e grotesco que só me consegui rir", afirmou, acrescentando que a ex-mulher tentou culpar os cães, "os pequenos Yorkies de quatro quilos", de terem feito aquilo.

Segundo o ator, citado pelo The Guardian, mais tarde, a atriz afirmou ao telefone com o artista iO Tillet Wright “o maravilhoso e engraçado" que foi que Depp pensasse que as fezes eram dela.

Gravações, mensagens e confissões

No terceiro dia de depoimento, Johnny Depp voltou a ser confrontado com mensagens que trocava com os amigos sobre a relação com Amber Heard e em que afirmava que era um "monstro" e que queria afogar e queimar a ex-mulher.

Entre as mensagens trocadas, citadas pela Reuters, estavam várias enviadas pelo ator a Paul Bettany, onde confessava transformar-se depois de ter "bebido demais". Na trocas de texto, Johnny Depp terá dito mesmo que a ex-mulher era uma "p*** imunda", que queria ver morta.

Nas mensagens que datam de 2013, dois anos antes do casamento, Depp terá mesmo dito a Bettany: “Vamos afogá-la antes de a queimarmos. Depois, vou f**** o seu cadáver queimado para ter a certeza de que ela está morta”.

Questionado em tribunal sobre as mensagens que trocou, Depp afirmou não estar "orgulhoso de nenhum dos termos que usava nos momentos de raiva”, mas acabou por dizer que as mensagens eram uma referência "direta" a um episódio de Monty Python (série de comédia britânica) e que se tratava apenas de "humor irreverente e abstrato".

"É um filme que todos vimos quando tínhamos dez anos. É apenas humor abstrato e irreverente. O texto sobre queimar a senhora Heard vem de Monty Python e o episódio é sobre queimar bruxas", afirmou perante o tribunal, cita o The Washington Post.

Foi ainda mostrado um vídeo, filmado por Amber Heard, que mostra Johnny Depp a pontapear e a socar os armários da cozinha da casa, em West Hollywood, e quando confrontado pela ex-mulher, o ator enche um grande copo de vinho e percebe que está a ser filmado, começando a correr atrás da então companheira. Comentando o vídeo, Depp afirmou que estava a "ter um mau momento".

“Claramente, estava a ter um mau momento. Não me lembro porquê, mas ser gravado ilegalmente pelo seu cônjuge combina perfeitamente com o resto das fotos e gravações. Ela tentou esconder isso de mim, riu-se e sorriu no final. Essa foi a parte mais interessante", afirmou.

"Só maltratei uma única pessoa na vida"

O caso voltou à sala do tribunal de Fairfax, Virgínia, esta segunda-feira, para que Depp terminasse o seu depoimento, tendo-se exaltado por várias vezes com o advogado da ex-mulher, Ben Rottenborn.

Foram divulgadas várias mensagens enviadas por Johnny Depp, desta vez ao médico, depois do ator ter perdido parte do dedo.

Na mensagem, o ator descreve a ex-mulher como uma “cabra maliciosa, malvada e vingativa”, que tinha “uma obsessão com ela mesma” e estava “desesperada por sucesso e fama.”

Para finalizar a apresentação de provas, a defesa da atriz apresentou ainda um áudio para provar que Johnny Depp sofria de dependência de álcool e drogas, com o ator a descrever as acusações como “grosseiramente falsificadas” pela ex-mulher que, acusa, era quem tornava as discussões em episódios de violência física. O advogado de defesa de Heard questionou mesmo o ator se a ex-mulher era a única que tinha um problema com o facto de Depp beber tanto.

“Em toda a minha vida, se alguém teve algum problema devido à minha relação com a bebida, esse alguém fui eu próprio. Só maltratei uma única pessoa na vida. Essa pessoa sou eu”, acrescentou.

Num dos áudios apresentados, Depp e Heard podem ser ouvidos a negociar tempos limite para discutirem, com Heard a dizer que não pode "confiar no marido para retomar as discussões", porque ele "desaparece durante horas". O ator contrapõe dizendo que, "nas discussões", Heard "tem tendência a dar socos".

“Estou a falar de discussões, não das vezes em que é físico. Desapareces imediatamente. Não lidas com o problema. Não lidas com o confronto. E separas-te. Fazes isso por um período indeterminado de tempo. Fazes isso sem realmente me respeitar.”

"Diz ao mundo, Johnny"

Também os advogados de Depp apresentaram áudios de uma discussão entre o ex-casal, onde a atriz acusa o ex-marido de estar a atirar um cigarro contra ela durante uma discussão sobre um sofá.

"Quero um sofá. Já agora, acabaste de atirar um cigarro contra mim", ouve-se Amber Heard dizer. 

Quando questionado sobre a discussão, Depp explicou que “ficou bem claro" que era a ex-mulher que estava a ditar as ordens e que qualquer outra ideia "era ridícula". No entanto, admite que pode ter enviado cinzas do cigarro na sua direção. 

"Ela não está a gritar de dor como se eu tivesse apagado um cigarro nela”, acrescentou.

Amber Heard no quarto dia de audiência de Johnny Depp (Foto: EPA)

O quarto dia de Depp no banco das testemunhas terminou com os advogados a reproduzirem a gravação de uma conversa entre o ex-casal que, a pedido da atriz, se encontra num quarto de hotel em São Francisco.

No áudio, é possível ouvir-se Depp a propor uma "solução pacífica": uma carta conjunta em que o casal diz que se amava e que foi criada uma tempestade em volta deles pela imprensa. No entanto, a atriz resiste à ideia e desafia o ex-marido a ir a público com a sua afirmação de que tinha sido ele a sofrer abusos. 

“Diz ao mundo, Johnny. Diz-lhes que eu, Johnny Depp - um homem -, sou uma vítima também de violência doméstica.”

Questionado pela advogada sobre o que responderia se fosse questionado se era vítima de violência doméstica, Depp respondeu: "Sim, sou".

O caso, que começou a 11 de abril, deve durar seis semanas a ser julgado. Amber Heard ainda não testemunhou.

Novo Dia CNN

5 coisas que importam

Dê-nos 5 minutos, e iremos pô-lo a par das notícias que precisa de saber todas as manhãs.
Saiba mais

Artes

Mais Artes

Patrocinados