Gouveia e Melo censura "ataque selvático, desproporcional e despropositado" a Fábio Guerra em discurso aos Fuzileiros

25 mar, 08:35

Chefe do Estado-Maior da Armada disse aos seus militares que ficou com um "nó na garganta" quando telefonou à família de Fábio Guerra e pediu que se evite a "justiça mediática"

O almirante Henrique Gouveia e Melo fez um discurso intenso ao Corpo de Fuzileiros, no Alfeite, no mesmo dia em que o agente da PSP Fábio Guerra  - que morreu esta segunda-feira depois de ter sido espancado à porta de uma discoteca em Lisboa enquanto separava uma rixa entre fuzileiros - foi a enterrar. Segundo avançou o Diário de Notícias esta quinta-feira à noite, o Chefe do Estado-Maior da Armada disse aos seus militares que incidente manchou as suas fardas, “independentemente do que vier a ser apurado”. “O ataque selvático, desproporcional e despropositado não pode ter desculpas e justificações nos nossos valores, pois fere o nosso juramento de defender a nossa pátria. O Agente Fábio Guerra era a nossa pátria, a PSP e as Forças de Segurança são a nossa pátria e nela todos os nossos cidadãos”, afirmou Gouveia e Melo.

"Não quero arruaceiros na Marinha; não quero bravatas fúteis, mas verdadeira coragem, física e moral; não quero militares sem valores, sem verdadeira dedicação à Pátria; não quero militares que não percebam que na Selva temos que ser Lobos, mas em casa cordeiros, pois isso é a verdadeira marca de autodomínio, autocontrole e de confiança dos outros em nós. Nós somos os guerreiros da Luz e não das trevas! Quem não agir e sentir isto que parta e nos deixe honrar a nossa farda, o nosso legado de mais de 700 anos de Marinha e de 400 de Fuzileiros", disse, assertivamente, Gouveia e Melo.

Na mensagem que, segundo o Expresso, foi depois tornada acessível na intranet da Marinha, Gouveia e Melo censurou “os desacatos e rixas” e sublinhou que quando vê alguém “a pontapear um ser caído no chão, vejo um inimigo de todos nós, dos seres decentes, vejo um selvagem, vejo o ódio materializado e cego, vejo acima de tudo um verdadeiro covarde”. Reiterando que existem valores e “linhas vermelhas” à atuação daquela Força Armada, o Chefe do Estado-Maior da Armada confessou que “ver fuzileiros envolvidos em desacatos e em rixas de rua, não demonstra qualquer tipo de coragem militar, mas sim fraqueza, falta de autodomínio, e uma necessidade de afirmação fútil e sem sentido”.

Gouveia e Melo recordou que os militares alegadamente envolvidos na morte do agente Fábio Guerra merecem a presunção de inocência e disse que era tempo de colaborar com a justiça, “de modo a sabermos realmente o que aconteceu, evitando a justiça mediática, ou popular, mas intransigente com a realidade e connosco próprios”.

O almirante revelou, na mensagem, que se sentiu um “nó na garganta” quando ligou à família do agente da PSP para lhes dar as suas condolências. “Estou profundamente triste”, disse, acrescentando que “não sabia o que dizer”, nem como explicar a “a aridez desta morte sem sentido”. Salientou também que, como dois homens estavam sob o seu comando, não conseguiu dizer “nada mais do que prometer justiça e lutar para que não voltasse a acontecer”. “Teria sido muito mais fácil e consolador poder ter dito que os meus homens tinham defendido o agente caído na rua, não permitindo que alguém o tivesse agredido cobardemente, já inanimado”, referiu, pedindo que os militares da Marinha fossem exemplares no seu comportamento.

Como a CNN Portugal avançou na quarta-feira, o juiz Carlos Alexandre decretou prisão preventiva para os dois fuzileiros suspeitos de terem matado o agente Fábio Guerra, da PSP, na madrugada de sábado, considerando que estão reunidos pressupostos como perturbação do inquérito pelo condicionar de testemunhas e alarme social.

Os militares vão ficar no estabelecimento prisional de Tomar a aguardar pela acusação do Ministério Público. A procuradora Felismina Carvalho Franco, que conduz a investigação, indiciou-os, em coautoria, por um crime de homicídio qualificado e três de ofensas à integridade física. Carlos Alexandre, apurou a CNN Portugal/TVI, concordou e manteve a indiciação no seu despacho.

A Polícia Judiciária está também, neste momento, à procura de um terceiro homem suspeito de ter participado no homicídio, que se encontra em fuga.Trata-se do filho de um homem que, em dezembro de 2020, foi morto pela GNR quando reagiu a tiro a um mandado de detenção, em Fernão Ferro, Seixal. Na tarde desta quarta-feira, a PSP realizou uma homenagem silenciosa ao agente assassinado.

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