Como combater a discriminação? "As mudanças individuais só são eficazes quando acompanhadas de mudanças estruturais"

15 nov 2025, 13:10
Manifestação Vida Justa 25 de fevereiro de 2023 (Horacio Villalobos/ Corbis via Getty Images)
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A historiadora Filipa Lowndes Vicente e o especialista em psicologia social Jorge Vala foram os protagonistas do segundo debate do ciclo "Para uma ideia de harmonia", no qual explicaram porque é tão difícil - mas necessário - lutar contra as discriminações que existem na sociedade

Só aos 22 anos, já depois de terminada a licenciatura, é que Filipa Lowndes Vicente se apercebeu de que a sua educação tinha uma total ausência de mulheres. Não tinha lido livros escritos por mulheres nem tinha estudado obras de arte criadas por mulheres. Era como se as mulheres não tivessem feito nada de relevante ao longo de todos estes séculos, nada que valesse a pena chegar aos manuais escolares. “Como é que eu, que me considerava feminista desde a adolescência e que me preocupava com estes temas, nunca tinha reparado nisto?”, pergunta-se hoje em dia a historiadora e investigadora do Instituto de Ciências Sociais.

“A desigualdade foi sempre tão poderosa que se torna natural, nem nos apercebemos”, explicou Filipa Lowndes Vicente no debate “Discriminação: entre maiorias e minorias”, que, na sexta-feira à noite, juntou a historiadora e o especialista em psicologia social Jorge Vala no auditório do Muzeu Arpad Szenes - Vieira da Silva.

No segundo debate do ciclo “Para uma ideia de harmonia”, com curadoria e moderação da jornalista Alexandra Carita, procurava-se perceber como é que as desigualdades persistem na nossa sociedade e porque é que continua a ser tão difícil combater as várias discriminações, sobretudo aquelas baseadas no género e na cor da pele.

“A maioria numérica nem sempre significa mais poder ou maior valor simbólico”, explica Jorge Vala, autor do livro “Racismo Hoje: Portugal em Contexto Europeu”. O exemplo mais flagrante disto é o do apartheid na África do Sul, onde a minoria branca detinha o poder. Mas isto acontece também com as mulheres que existem mais ou menos em mesmo número do que os homens, alerta o especialista. Portanto, mais importante do que haver mais indivíduos de uma determinada categoria numa sociedade é perceber quem é que tem mais valor simbólico. “O valor que uma categoria tem determina o seu poder nas relações sociais e é o que define essa categoria como inferior ou superior.”

Segundo Jorge Vala, “o exercício de categorização que é intrínseco ao homem é sempre uma atribuição de valor e, logo, de hierarquização. A hierarquia é uma ideia muito querida ao sistema cognitivo". A hierarquia faz com que que o mundo se torne significante, para que consigamos funcionar nele. "É assim que uma diferença se torna inferiorização”, explica.

Do ponto de vista da psicologia, este é um comportamento normal. “Temos uma auto-estima a cultivar. É normal atribuirmos mais valor ao nosso grupo do que aos outros." A humanidade, diz, “soube criar um princípio, que nos defende da tirania, que é a igualdade”. Dizer que todos os seres humanos são iguais implica, necessariamente, aceitar o princípio da diversidade - somos todos iguais, mas todos diferentes. No entanto, “o princípio da diversidade sempre foi mais problemático. Gostamos dos que nos são semelhantes, agrupamo-nos”.

Foi por isso que, ao longo de séculos, a discriminação foi aceite em quase todas as as sociedades. Naturalizada. Um dado adquirido. Só no século XIX grupos organizados começaram a lutar contra as desigualdades, explica Filipa Lowndes Vicente, dando agora como exemplo as primeiras lutas feministas. E a palavra luta não é usada em vão.

Primeiro, porque, ainda hoje, lutar contra as discriminações é sempre lutar contra o poder instalado, contra modos de pensar e de fazer que são aceites, muitas vezes contra a maneira como nós próprios fomos educados. “Cada um de nós tem a sua genealogia, eu aprendi com quem me ensinou. É preciso algo que interrompa esse ciclo. Só podemos mudar uma situação quando temos consciência dela. É aí que a escola tem um papel determinante”, destaca a autora do livro “A Arte Sem História”. 

Depois, porque as vítimas de discriminação acabam não só por se deparar com dificuldades muito grandes (burocracia, falta de canais de denúncia) como sofrer consequências - exposição, culpabilização, humilhação, ainda mais discriminação.

Não existem estatísticas sobre o racismo ou sobre a discriminação de género. É impossível saber quantas pessoas são racistas ou quantas pessoas sofrem discriminação. O que sabemos é apenas o número de denúncias, que estão a aumentar, o que parece mostrar que existe uma maior consciência destes problemas. Por outro lado, quando vamos ver as estatísticas relacionadas com a forma como estas denúncias são tratadas - quantas são aceites, quantas dão origem a processos criminais, quantas resultam em condenações ou em penas efetivas - concluímos que este é um problema que ainda não é levado a sério. Isto acontece porque, “à medida que avançamos na hierarquia, os grupos vão-se masculinizando e clareando”, conclui Filipa Lowndes Vicente.

"Geralmente, quando discriminamos, dizemos que isso é necessário para o funcionamento da sociedade. Encontramos justificações que são socialmente aceites e que estão dentro das regras democráticas, dizemos que o fazemos em nome de valores maiores", acrescenta Jorge Vala. 

Como mudar, então? Essa é a pergunta a que temos de responder.

“Não podemos olhar para estas mudanças apenas do ponto de vista individual. As mudanças individuais só são eficazes quando acompanhadas de mudanças estruturais”, avisa Jorge Vala. "As normas legais ajudam a mudar as normas sociais." Dá o exemplo das quotas - em Portugal falamos sobretudo de quotas para igualdade de género. "Muitas pessoas reagiram contra, mas a história mostra-nos que a introdução de leis que ajudam a combater a desigualdade é importante. Todos os estudos demonstram que o mérito não chega."

"A introdução de quotas pode levantar problemas no curto prazo, as sociedades têm de se adaptar. Mas no médio e longo prazo, essas sociedades tornam-se mais igualitárias, mais abertas, mais desenvolvidas, incluindo do ponto de vista económico e tecnológico", diz o especialista. "E sociedades mais felizes. Temos de pensar nos efeitos da discriminação nas pessoas que são discriminadas, no sofrimento. Colocarmo-nos do lado da vítima pode ser importante para mudar. Daí a importância de as mudanças serem estruturais e institucionais."

Filipa Lowndes Vicente recorda como "as quotas raciais nos EUA e no Brasil tiveram resultados imediatos, e depois vemos como tudo foi destruído tão depressa". E recorda as palavras de Angela Davis: "A liberdade é uma luta constante". "É preciso que muitas pessoas em muitos lugares do mundo façam algo para que pequenas coisas mudem", diz a historiadora. Ou, nas palavras de Jorge Vala: "Não há nada de inevitável neste jogo, mas é um jogo difícil."

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