Jordan Petersen, Andrew Tate, ou Numeiro, são estrelas entre jovens adultos masculinos, e estão a educá-los para uma revalorização da masculinidade forte e orgulhosa, depois da esquerda cultural lhes ter dito que deviam envergonhar-se da sua inerente «masculinidade tóxica». Isto não é apenas um problema social, é também um problema político.
A literatura científica mostra que os chamados millennials e geração Z, nascidos em democracia, têm-lhe pouco apego, estando dispostos a experimentar soluções autoritárias. O desencantamento democrático é hoje uma realidade, estando associado ao crescimento de partidos e movimentos de direita radical em todo o mundo.
De uma vista aérea, o crescimento da direita radical, fortemente iliberal e crescentemente autocrática, encontra-se num cruzamento entre gerações e crises de referenciais, entre adultos (sobretudo homens) de baixa escolaridade e de baixos rendimentos, dependentes da flutuação económica e laboral, presos à «competição étnica» com os imigrantes, e jovens adultos (igualmente sobretudo homens) crescidos com a crise de 2008 e as consequentes incertezas de futuro, e pressionados por uma vaga «woke» que fez do homem branco heterossexual a encarnação dos “males do mundo”.
Esta operação de simplificação identitária teve consequências inesperadas: ao reduzir a complexidade histórica a uma narrativa de culpa monolítica, abriu espaço para uma reação emocional tão intensa quanto simplista.
O caldeirão das identidades, dos ressentimentos e das purezas ideológicas foi aquecido no lume de uma crise da democracia liberal, de matriz representativa, partidocrata e burocrática, afastada do povo, e onde as lógicas partidárias funcionam como um polvo, envolvendo a máquina do Estado, ao mesmo tempo que a integração numa economia global interdependente e numa política realocada, por exemplo, para a União Europeia, abriram caminho para uma retórica populista do “nós” contra “eles”, que durante a troika foi o guião da esquerda radical e que na virada da esquerda para a agenda identitária – com o desaparecimento ou deslaçar da capacidade de representação social por parte dos partidos materialistas como os partidos comunistas – se tornou combustível para a direita radical.
Nenhuma transformação cultural ocorre hoje sem o amplificador mais poderoso da nossa era: as redes sociais.
Para entender a profundidade do fenómeno, importa perguntar: por que motivo esta retórica da direita radical é mais apelativa para os homens?
Correntes pós-modernistas que alimentaram estudos pós-coloniais, de género, queer, de raça, entre outros, identificaram – e bem – uma constante nas múltiplas formas de segregação, marginalização e opressão: a cultura patriarcal e colonial ocidental. Apesar da correta identificação de uma constante, a verdade é que adotaram um «essencialismo estratégico» (termo de Gayatri Chakravorty Spivak) a toda a linha, ao ponto de explicar a história da humanidade a partir de um único identificador: o homem branco heterossexual. Ou seja, aplicaram uma das principais críticas que fundou o pós-modernismo (com autores como Edward Said): o estereótipo uniformizador.
Assim, o combate ao machismo, ao racismo, à homofobia, etc., teve por fio condutor o combate ao homem branco heterossexual, o qual tinha duas alternativas diante de si: ou aderia ao wokismo da «síntese identitária» (termo de Yascha Mounk) e se dedicava ao autopoliciamento, a verificar os seus «privilégios» e a praticar a contrição purificadora da sua «masculinidade tóxica» e do seu racismo inerentes e inescapáveis, ou aderia à retórica da direita radical, que lhes prometeu um espaço para se sentirem à vontade com a sua masculinidade.
Mas a oferta de abrigo à masculinidade autoconsciente da direita radical não termina nessa dimensão, e é por isso que se tornou uma vaga política poderosa e polarizadora ao ser embrulhada em valores nacionalistas, com um apelo nostálgico e romântico da era do “homem de família” e dos valores conservadores religiosos.
Para compreender como chegámos aqui, não basta explicar o fracasso que foi a ideia esquerdista radical de fazer do homem heterossexual o mal do mundo. É preciso compreender que vivemos uma era de «fragilidade masculina» efetiva. Como mostra Richard Reeves, em Of Boys and Men, em quase todos os países desenvolvidos, as raparigas superam hoje os rapazes em todos os níveis de ensino. Nos EUA, 60% dos estudantes universitários são mulheres. No plano do mercado de trabalho, a perda de empregos industriais afetou de forma desproporcionada os homens, pelo que jovens adultos do sexo masculino estão mais propensos ao desemprego e empregos precários. Este cenário tem consequências na saúde mental, com os rapazes a apresentarem têm taxas muito mais altas de suicídio, overdose de drogas e encarceramento.
De acordo com Reeves, a sociedade modernizou-se de uma forma que beneficiou enormemente as mulheres – corrigindo, justamente, assimetrias históricas, porém não criou caminhos claros para os rapazes se adaptarem, gerando crises de pertença entre jovens adultos do sexo masculino heterossexuais.
Essa realidade abriu espaço para que figuras populistas e radicais se apresentassem como «empoderadoras» da masculinidade, como Andrew Tate e Jordan Peterson.
Esta nova oferta de modelos de masculinidade – muitas vezes baseada em força física, dominação económica e rejeição aberta da vulnerabilidade emocional – tem especial apelo entre jovens que se sentem excluídos ou desvalorizados pela cultura dominante. Andrew Tate, ex-campeão mundial de kickboxing nascido em Washington em 1986 e mais tarde tornado uma figura mediática controversa, construiu uma persona online assente na ostentação de riqueza, no desprezo pelo politicamente correto e na promoção de uma masculinidade agressiva. Jordan Peterson, psicólogo clínico e professor canadiano nascido em 1962, alcançou notoriedade internacional com o seu livro 12 Rules for Life, onde advoga a importância da responsabilidade pessoal, da ordem hierárquica e da resiliência emocional, especialmente dirigida a jovens homens em crise.
Ambos se assumem como “gurus” de uma nova masculinidade, que, na prática, resgata ideais nostálgicos do “homem forte”, politicamente personificado em figuras como Donald Trump, Vladimir Putin ou Jair Bolsonaro. Andrew Tate adota esse imaginário de forma explícita, promovendo o sucesso económico, a dominação social e a agressividade como marcas da "verdadeira" masculinidade, muitas vezes envolvendo-se em polémicas que incluem acusações de misoginia e apologia da violência. Jordan Peterson, embora com uma abordagem mais elaborada e menos conflituosa, propõe igualmente a recuperação de hierarquias sociais "naturais" e papéis de género tradicionais, apelando a uma ordem social que ressoa, ainda que subtilmente, com nostalgias de estruturas sociais pré-democráticas.
As redes sociais são hoje o principal motor do crescimento da direita radical no Ocidente.
Criadas para maximizar o envolvimento emocional, plataformas como o TikTok, o YouTube e o Instagram favorecem o dissdissenso, o choque e a repetição de mensagens simples. Num ambiente assim, influenciadoresratégicos têm vantagem natural: com linguagem directa, frases curtas e apelos emocionais, são capazes de moldar uma geração de rapazes e jovens adultos em valores conservadores e hierarquias sociais rígidas, onde o lugar da mulher volta a ser, sem ironia, o lar.
A lógica é simples e brutal: oferecer aos jovens uma identidade forte e clara num mundo que lhes parece confuso e ameaçador. Ao explorar a fragilidade masculina latente – o medo do fracasso, a sensação de desvalorização – os populistas digitais criam uma pertença baseada na rejeição: rejeição do progressismo, da justiça social, da igualdade de género, do próprio ideal democrático de pluralismo.
Mais do que criar opinião, moldam carácter. Criam uma legião ressentida, emocionalmente mobilizada, preparada para ver o outro – o diferente, o frágil, o progressista – como inimigo. O populismo digital que emerge destas redes é uma nova forma de radicalismo: altamente emocional, visualmente apelativo, e desenhado para transformar ressentimento em identidade política.
E agora?
É difícil dizer se ainda há tempo para salvar a democracia liberal. Já antes defendi que estamos diante de três estradas: a da esquerda, que pretende levar-nos para um caminho de «democracia minoritarista» ou «comunitarista», estando centrada na ideia de sociedade política baseada nas especificidades de grupos sociais e culturais concretos, cujo resultado é uma manta de retalhos social, com grupos incomunicáveis, a que Mounk dá o nome de «armadilha da identidade»; a da direita, que pretende submeter os grupos minoritários, o Estado de direito e os direitos fundamentais à soberania da maioria; e a estrada do meio, que é a da democracia liberal-social, que, embora imperfeita, tem o potencial de nos levar para uma sociedade plural, coesa e democrática, conquanto as elites políticas voltem a emanar da sociedade civil e estejam comprometidas com a «coisa pública».
Os dois caminhos mais populares e emocionais têm a vantagem de tornar o complexo simples, de apresentar culpados e soluções purificadoras. Beneficiam ainda do apoio do algoritmo e do apelo ao sensacionalismo mediático.
O caminho do meio está cheio de obstáculos – implica respeitar as regras da democracia, corrigir desigualdades históricas e quotidianas, sem endereçar culpados absolutos, fomentar o elevador social, revigorar os partidos além da máquina partidária, e tornar a democracia na qual os jovens já nasceram numa ideia fashion, num clássico reeditado que volta a ser tendência.
