Menos casos de VIH em Portugal em 2024, mas maioria dos diagnósticos foi tardia

Agência Lusa , AM
27 nov, 07:12
VIH (AP)

Serviços para infeções sexualmente transmissíveis foram reestruturados para ampliar resposta

Portugal registou menos casos de infeção por VIH em 2024, totalizando 997, mas mais de metade dos diagnósticos ocorreram tardiamente, sobretudo em pessoas com 50 ou mais anos, revela um relatório divulgado pela Direção-Geral da Saúde (DGS).

“Em 2024, verificamos uma redução dos casos notificados, comparativamente ao total de 2023, mantendo-se globalmente a tendência decrescente nos últimos anos relativamente aos novos diagnósticos”, disse à agência Lusa a nova diretora do Programa Nacional para as Infeções Sexualmente Transmissíveis e Infeção pelo Vírus da Imunodeficiência Humana/Sida.

Bárbara Flor de Lima alertou, contudo, para o facto de cerca de 54% dos novos diagnósticos ainda serem tardios.

"Na primeira avaliação clínica predominaram os casos assintomáticos (58,5%), mas a apresentação aos cuidados de saúde foi tardia em 53,9% dos casos, particularmente nas pessoas com 50 ou mais anos (65,4%) e nos homens com transmissão heterossexual (67,6%)", salienta o relatório "Infeção por VIH em Portugal 2025".

“Temos alguma preocupação nesta população, que implica termos algumas medidas específicas no sentido de oportunidades de diagnósticos que têm sido perdidas e aumentar a testagem e rastreio nesta população específica”, defendeu a infeciologista.

Segundo o relatório elaborado pela DGS e pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (Insa), dos 997 novos casos notificados no ano passado, 951 ocorreram no país, correspondendo a 8,8 casos por 100.000 habitantes (valor ainda não ajustado ao atraso da notificação).

A maioria dos diagnósticos ocorreu em homens, numa proporção de 2,7 casos por cada caso em mulheres. Foram notificados cinco casos em menores de 15 anos, três deles com transmissão mãe-filho e diagnosticados em Portugal.

Nos restantes casos a mediana das idades foi de 37 anos e 27,6% tinham menos de 30 anos. Entre estes, 68,7% eram homens que têm sexo com homens (HSH), com idade mediana mais baixa (31 anos).

A taxa mais elevada de diagnóstico registou-se no grupo etário dos 25-29 anos, particularmente entre os homens, com 46 casos por 100.000 habitantes.

O maior número de novos diagnósticos (14,6 casos/100.000 habitantes) foi registado na Grande Lisboa, seguindo-se a Península de Setúbal (13,3) e a Madeira (8,5).

Mais de metade dos novos casos (53,6%) ocorreu em pessoas nascidas no estrangeiro, mas, sublinha o documento, “Portugal foi indicado como o país de provável contágio em 52,5% dos casos com essa informação disponível e em 69,9% dos casos em pessoas provenientes da América Latina”.

Entre os homens estrangeiros, 59% eram originários da América Latina, enquanto nas mulheres estrangeiras predominavam as provenientes de países africanos (79,2%).

A transmissão por via sexual foi referida em 97% dos casos diagnosticados. Predominou a transmissão heterossexual (52,5%), embora 60,6% dos novos diagnósticos em homens tenham ocorrido em HSH.

Em 2024, foram diagnosticados 194 novos casos de sida (1,8 casos por 100.000 habitantes), valor superior ao dos dois anos anteriores (3,4), sendo que apenas 77 (39,7%) diziam respeito a pessoas nascidas em Portugal.

Bárbara Flor de Lima destacou que os novos casos de sida baixaram 43%, entre 2015 e 2024, e os novos casos de infeção por VIH 35%.

“Apesar dos diagnósticos tardios, nem todos se traduzem efetivamente em diagnósticos de sida”, comentou a responsável.

Em 2024, foram notificados 108 óbitos, dos quais 46,3% aconteceram mais de 20 anos após o diagnóstico e 17,6% cinco anos depois, refere o relatório apresentado a quatro dias do Dia Mundial Contra a Sida.

Entre 1983 e 2024, Portugal contabilizou 66.421 casos de infeção por VIH e 16.050 óbitos, refere o relatório, sublinhando que, desde 2021, as mortes por outras causas, como neoplasias e doenças do aparelho circulatório, tornaram-se predominantes face aos relacionados com o VIH.

Apesar da tendência sustentada de descida, o relatório alerta que Portugal continua entre os países da União Europeia com taxas anuais mais elevadas de diagnóstico de sida, aproximadamente o triplo da média europeia.

Cinco casos de VIH em menores de 15 anos em Portugal

Cinco casos de infeção por VIH em menores de 15 anos foram notificados em Portugal em 2024, com transmissão de mãe para filho em três casos.

Segundo o relatório “Infeção por VIH - 2025”, foram diagnosticados, em 2024, 997 novos casos de infeção pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH), dos quais cinco ocorreram em crianças até aos 15 anos, três dos quais com diagnóstico em Portugal, tendo sido referida a transmissão mãe-filho.

Os três casos correspondiam a crianças nascidas em Portugal, dois meninos e uma menina, tendo um dos casos sido diagnosticado no primeiro ano de vida e os restantes tinham entre um e quatro anos. Foi referida transmissão mãe-filho nos três casos.

O relatório cita dados do Grupo de Trabalho sobre Infeção por VIH na Criança (GTVIHC), criado em 1998, e atualmente um grupo de estudo da Sociedade de Infecciologia Pediátrica, que recolhe e analisa informações referentes às crianças nascidas de mães com infeção por VIH, desde o parto até ao término do seguimento.

Segundo os dados, nasceram em Portugal, entre 2015 e 2024, 2.185 crianças filhas de mães com infeção por VIH, tendo esta infeção sido transmitida a apenas 16 crianças (0,73%).

Desde 2017 predominam as mães de nacionalidades estrangeiras, maioritariamente de Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.

Relativamente às crianças nascidas em 2024, apenas 30,4% eram filhas de mães nascidas em Portugal, 66,6% das mães eram multíparas e em 73,7% das mulheres a infeção por VIH foi diagnosticada antes da gravidez.

Nos casos em que o diagnóstico materno ocorreu durante a gravidez, 72,3% eram mulheres de origem africana e 52,5% viviam em Portugal há um ano ou menos.

Foi verificado um caso de transmissão vertical do VIH, numa gravidez mal vigiada, em que o diagnóstico da infeção materna aconteceu no 3.º trimestre da gravidez e que, embora sob terapêutica, no parto a mãe tinha ainda virémia (vírus no sangue) elevada.

Analisando os casos de infeção por VIH em crianças, entre 1984-2024, o documento revela que, até 31 de dezembro do ano passado, foram notificados 746 casos em crianças com idade, à data do diagnóstico, inferior a 15 anos, 642 dos quais diagnosticados em Portugal.

O relatório da DGS e do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge (INSA) indica que 51,6% dessas crianças eram meninas, os diagnósticos ocorreram principalmente no primeiro ano de vida, 47,7% viviam na Grande Lisboa, 73,7% nasceram em Portugal e a via mais frequente de transmissão foi mãe-filho.

Apenas 7,5% do total de casos de transmissão vertical foram diagnosticados na última década e, tal como noutros países - salienta - “as medidas implementadas em Portugal para a prevenção da transmissão vertical do VIH, tiveram muito sucesso”.

Em declarações à agência Lusa, a nova diretora do Programa Nacional para as Infeções Sexualmente Transmissíveis e VIH/Sida, Bárbara Flor de Lima, defendeu a importância de assegurar “o rastreio atempado das grávidas e uma vigilância adequada da gravidez, por forma a evitar que os recém-nascidos tenham ou adquiram a infeção VIH”.

“Nós temos forma de o evitar com a terapia antirretroviral, com a profilaxia que o recém-nascido realiza ao nascimento. Ainda assim, foram reportados três casos de infeção VIH por transmissão vertical em Portugal”, salientou.

Bárbara Flor de Lima disse que as autoridades de saúde estão atentas a estes dados e, com o grupo de trabalho específico no âmbito da pediatria, pretendem melhorar e assegurar que “não haja nenhuma criança” nascida em Portugal com o diagnóstico de VIH.

Serviços para infeções sexualmente transmissíveis reestruturados para ampliar resposta

Os serviços de saúde dedicados às infeções sexualmente transmissíveis vão começar a ser restruturados em 2026, com novas consultas, rastreios e maior acesso à Profilaxia Pré-Exposição ao VIH, visando prevenir infeções e reduzir diagnósticos tardios.

Em declarações à agência Lusa, a nova diretora do Programa Nacional para as Infeções Sexualmente Transmissíveis e VIH/Sida (PNISTVIH), Bárbara Flor de Lima, destacou a necessidade de reorganizar a resposta no terreno face ao aumento crescente de utilizadores de Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e à elevada proporção de diagnósticos tardios.

O relatório “Infeção por VIH - 2025”, hoje divulgado, indica que Portugal registou menos casos de infeção por VIH em 2024, totalizando 997, mas cerca de 54% dos diagnósticos ocorreram tardiamente, sobretudo entre homens heterossexuais com 50 ou mais anos.

O documento assinala também o aumento no número de pes­soas abrangidas pela PrEP, descrita como uma “importante estratégia de prevenção”, tanto em contexto de dispensa hospitalar, como através de prescrição e dispensa nas farmácias comunitárias, maioritariamente entre homens e homens que fazem sexo com homens.

Elaborado pela DGS e pelo Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge (INSA), o relatório defende a necessidade de alargar o número de consultas nos cuidados de saúde primários e nas organizações de base comunitária, afirmando que “só deste modo, será possível aumentar o acesso, a cobertura e os contextos de prescrição da PrEP, com impacto na redução do número de novas infeções por VIH”.

Bárbara Flor de Lima disse que o crescimento do número de utilizadores justifica uma reorganização mais ampla dos serviços, não apenas da PrEP, mas também do diagnóstico das IST e da saúde sexual.

A diretora do programa reconheceu que tem havido atraso no acesso às primeiras consultas, particularmente a nível hospitalar, cuja capacidade de expansão está próxima do limite.

Por isso, explicou, a reestruturação incluirá a criação de novas consultas nos cuidados de saúde primários, para melhorar o acesso, reforçar o rastreio das IST e do VIH e garantir “maior testagem”.

Questionada sobre o calendário da reestruturação, Bárbara Flor de Lima considera possível avançar já em 2026, explicando, contudo, que o ritmo dependerá da organização interna de cada unidade local de saúde e da articulação com as estruturas comunitárias, um processo que poderá levar tempo até estar plenamente implementado.

Ainda assim, garante que “poderá ser iniciada a muito curto prazo”, salientando que algumas unidades já começaram a organizar-se e a implementar consultas multidisciplinares neste âmbito.

A infecciologia observou que a criação das unidades locais de saúde traz a oportunidade de integrar os cuidados de saúde primários e estruturas comunitárias em projetos conjuntos, permitindo “uma resposta mais efetiva” nesta área.

Com esta reestruturação, resumiu, prevê-se “uma melhor capacidade de resposta e também de acesso a testagem, aconselhamento, rastreio”, assim como “diminuir ainda mais o número de novos casos” e contribuir para a redução da proporção ainda elevada de diagnósticos tardios.

O objetivo é aproximar Portugal da meta da ONUSida 95-95-95: Diagnosticar 95% das pessoas com VIH, tratar 95% das diagnosticadas e garantir carga viral suprimida em 95% das tratadas, idealmente antes de 2030.

Segundo o relatório, em 2024, foram realizados cerca de 68.000 testes rápidos para VIH em diversas estruturas de saúde e comunitárias, assim como a prescrição e realização de mais de 625 testes no âmbito dos cuidados de saúde primários e hospitalares do SNS, verificando-se uma diminuição no número de testes rápidos realizados comparativamente a 2023.

Foram ainda dispensados 5.659 autotestes, mantendo a tendência crescente no número de autotestes dispensados anualmente pelas farmácias comunitárias.

No ano passado, foram também distribuídos, através do PNISTVIH, mais de 6,6 milhões de preservativos externos e internos e mais de um 1,8 milhões de embalagens de gel lubrificante.

O Programa Troca de Seringa permitiu a distribuição de mais de 960.000 seringas em 2024, totalizando cerca de 66 milhões entre a população de utilizadores de drogas injetadas, desde a sua implementação.

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