Cientistas documentam mais de 16 mil pegadas na mais extensa "autoestrada" de dinossauros do mundo

CNN , Mindy Weisberger
13 dez 2025, 15:00
Pegada dinossauro terópode Carreras Pampas, na Bolívia (Jeremy McLarty)

Uma movimentada "autoestrada dos dinossauros" pode ter-se estendido ao longo de uma costa no que hoje é a Bolívia. Viajando por essa rota movimentada estavam os terópodes — dinossauros carnívoros bípedes com três dedos, que deixaram para trás milhares de pegadas fossilizadas. Agora, paleontólogos descreveram as suas pegadas pela primeira vez, oferecendo um raro vislumbre dos movimentos destes dinossauros no seu habitat.

Os cientistas contaram recentemente 16.600 pegadas de terópodes — mais do que em qualquer outra área com pegadas — no sítio de pegadas de Carreras Pampas, no Parque Nacional Torotoro, na Bolívia. Ali, os terópodes marcaram os seus pés na lama macia e profunda há entre 101 milhões e 66 milhões de anos, no final do período Cretáceo.

Este estudo corresponde ao primeiro levantamento científico das áreas cobertas por pegadas, que se estendem por aproximadamente 7.485 metros quadrados. Algumas pegadas estavam isoladas, mas muitas formavam trilhos, ou múltiplas impressões deixadas pelo mesmo animal, como relatado pelos investigadores no jornal periódico especializado PLOS One.

"Em qualquer lugar para onde se olhe naquela camada de rocha no local, há pegadas de dinossauros", diz o coautor do estudo, Jeremy McLarty, professor associado de Biologia e diretor do Museu de Ciência dos Dinossauros e Centro de Pesquisa da Southwestern Adventist University, no Texas.

A maioria das pegadas seguia na direção noroeste e sudeste, refere McLarty à CNN. Provavelmente foram feitas durante um período relativamente curto, indicando que esta área era uma rota popular para terópodes e poderia ter feito parte de uma faixa maior de percurso para dinossauros que abrangia a Argentina, a Bolívia e o Peru.

Os formatos das pegadas e a distância entre elas revelaram como os animais se moviam; alguns caminhavam a um ritmo tranquilo, enquanto outros corriam pela margem lamacenta, e mais de 1.300 pegadas preservaram evidências de natação em águas rasas, relatam os pesquisadores.

Vários rastros incluíam marcas de arrasto das caudas dos terópodes, e os comprimentos e larguras variáveis ​​das pegadas sugeriram que estes dinossauros variavam muito em tamanho: de uma altura de quadril de entre cerca de 65 centímetros a mais de 125 centímetros. Centenas de pegadas adicionais no local foram feitas por aves que compartilhavam a margem com os dinossauros.

‘Implicações incríveis’

As pegadas estão preservadas no que antes era lama macia e profunda. Linhas de fio ajudam os investigadores a marcar a que trilha pertence cada tipo de pegada. foto Raúl Esperante

Identificar milhares de pegadas individuais e descrever as diferentes formas de andar "tem implicações incríveis para a reconstrução desses ambientes antigos e de como dinossauros e aves os utilizavam", sublinha a paleontóloga Sally Hurst, que não participou do novo estudo. Hurst é investigadora adjunta na Escola de Ciências Naturais da Universidade Macquarie, na Austrália.

As pegadas estão preservadas em diferentes profundidades no que antes era lama macia e profunda, "o que muitas vezes acaba a registar muita informação sobre como estes animais moviam os pés", diz Peter Falkingham, professor de paleobiologia da Universidade Liverpool John Moores, no Reino Unido, num e-mail enviado à CNN.

"São as pegadas mais profundas que preservam mais o movimento do pé, que é o que me interessa, e elas têm trilhas bastante longas", indica Falkingham, que estuda trilhas de dinossauros, mas que não participou na nova investigação.

Por exemplo, pegadas de natação “têm uma aparência nitidamente diferente das pegadas normais de caminhada”, exemplifica McLarty. Quando um terópode era impulsionado pela água, o seu dedo médio pressionava mais profundamente a lama, e os outros dois dedos e o calcanhar deixavam uma impressão muito mais leve.

“As pegadas são um registo de tecidos moles, de movimentos e dos ambientes em que os dinossauros realmente viviam”, acrescenta Falkingham. Este sítio arqueológico, com as suas abundantes pegadas de animais de diferentes tamanhos que se moviam de várias maneiras, “dá realmente vida a estes ecossistemas perdidos de uma forma que os ossos não conseguem”.

Deixar uma impressão

Sítios com pegadas como Carreras Pampas revelam como os dinossauros se moviam. Mais de 16.000 pegadas de terópodes foram contabilizadas ali. foto Raúl Esperante

Desde a década de 1980, Carreras Pampas é conhecida pelas suas pegadas de dinossauros, mas a extensão e a quantidade nunca haviam sido estudadas ao detalhe, diz McLarty. O trabalho da sua equipa levanta novas questões sobre essa porção preservada da vida cretácea sul-americana, como porque é que quase todas as pegadas pertencem a terópodes e por que existem tantas delas, adianta McLarty.

Muitos sítios ao redor do mundo preservam múltiplos rastros de saurópodes, os dinossauros herbívoros de pescoço comprido que cresceram ao ponto de serem maiores do que qualquer animal terrestre vivo hoje. Os saurópodes eram conhecidos por viajar em manadas, assim como muitos tipos de grandes herbívoros modernos. Em comparação, os terópodes são predadores, que normalmente não vagueiam em grandes grupos.

A Bolívia é conhecida pelos seus numerosos sítios com pegadas, datados dos períodos Triássico, Jurássico e Cretáceo, como relatam os autores do estudo. Antes do mapeamento de Carreras Pampas, o sítio com o maior número de pegadas de dinossauros do mundo também ficava na Bolívia: Cal Orck'o, em Sucre, datado de há cerca de 68 milhões de anos e contendo aproximadamente 14.000 pegadas.

“Como é que aquilo que estamos a encontrar em Carreras Pampas se relaciona com esses outros sítios na Bolívia?”, questiona McLarty. “Que tipo de panorama geral surge quando começamos a comparar diferentes sítios?”

Essas milhares de pegadas fornecem pistas importantes sobre dinossauros que os seus esqueletos fossilizados não conseguem, porque as trilhas revelam como os animais vivos se moviam, diz o paleontólogo Anthony Romilio, investigador associado da Universidade de Queensland, na Austrália, que não participou neste estudo.

“Um esqueleto mostra o que um animal podia fazer; os trilhos mostram o que ele realmente fez, momento a momento”, explica Romilio à CNN por e-mail. “Elas registam velocidade, direção, comportamento de viragem, escorregões, postura e, às vezes, movimentos em grupo.”

As pegadas de Carreras Pampas são significativas devido aos diferentes tamanhos de terópodes representados, diz Romilio. "Isso pode refletir múltiplas espécies, múltiplas classes de idade ou uma combinação de ambas."

E, ao contrário dos fósseis corporais, as trilhas de pegadas preservam a conexão de um dinossauro com um local específico quando ele estava vivo. Os ossos podem ser transportados após a morte de um animal, "então, onde se encontra um osso de dinossauro pode não ser o local exato onde o dinossauro estava", observa McLarty. Em comparação, as trilhas de pegadas oferecem um retrato direto de um momento antigo no tempo — neste caso, quando dezenas de terópodes cruzavam uma costa a correr.

"As pegadas não se movem", ressalta McLarty. "Quando se visita Carreras Pampas, sabemos que estamos a pisar onde um dinossauro caminhou."

 

Mindy Weisberger é escritora científica e produtora de media, com trabalhos publicados em publicações como Live Science, Scientific American e na revista How It Works. É autora de “Rise of the Zombie Bugs: The Surprising Science of Parasitic Mind-Control” (Hopkins Press).

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