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CEO do Bison Bank

O futuro do dinheiro passa por Portugal

9 jun, 12:42
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O dinheiro está a mudar, e Portugal já se posicionou. Durante décadas, a inovação financeira veio sobretudo dos Estados Unidos. Hoje, a Europa começa a escrever o seu próprio capítulo. Na minha perspetiva, este não é apenas um momento de inovação tecnológica - é um momento de redefinição do papel da Europa no sistema financeiro global

Existem atualmente cerca de 200 stablecoins no mundo, num mercado que vale aproximadamente 320 mil milhões de dólares. Quase 60% desse valor está concentrado numa única stablecoin referenciada ao Dólar Americano, o Tether (USDT). Do lado europeu, o cenário é muito mais contido: existem 10 stablecoins indexadas ao euro e ao abrigo do MiCA. De acordo com o BCE, as moedas europeias representam menos de 1% do mercado global. É neste contraste, entre o domínio do dólar e o espaço ainda por ocupar pelo euro, que surge o lançamento da primeira stablecoin portuguesa.

Ao longo das décadas, o dinheiro passou por transformações profundas. Do físico ao digital, cada transição alargou o acesso, reduziu custos e criou possibilidades. A próxima transição, já em curso, é para o dinheiro programável, e as stablecoins são a sua infraestrutura. O sistema financeiro convive, historicamente, com uma profunda dualidade. Se, por um lado, as transferências domésticas e europeias atingiram um patamar de excelência, por outro, os pagamentos transfronteiriços permaneceram num paradigma mais incerto. Enviar valores para outras geografias continua a ser um processo lento, que exige uma cadeia de intermediários que o torna menos ágil. Segundo o Banco Mundial no seu relatório "Remittance Prices Worldwide" de 2025, o custo médio global para enviar dinheiro para o estrangeiro ainda se situa acima dos 6%, um valor que esta nova tecnologia se propõe a reduzir drasticamente.

Atualmente, a verdadeira disrupção não é criar dinheiro novo, mas sim tornar o dinheiro existente mais útil. As stablecoins funcionam como uma camada de liquidação financeira, uma ponte de confiança entre instituições reguladas, permitindo liquidação direta sem a complexidade dos intermediários tradicionais. Ao possibilitar que dois bancos, em geografias distintas, transacionem valores de forma quase instantânea, esta tecnologia reduz a fricção operacional, diminui os custos e reforça a previsibilidade. Num futuro próximo, a programabilidade vai mais longe, com a tokenização de ativos reais, como o imobiliário e os fundos de investimento, a abrir novas formas de liquidez e acesso ao mercado.

É fundamental distinguir esta inovação dos criptoativos especulativos. Não se trata de um ativo volátil, mas de um instrumento com paridade 1:1 com moedas oficiais, emitido por uma instituição bancária supervisionada, com reservas integralmente salvaguardadas. A próxima fase das stablecoins não vai ser definida pelas fintechs isoladamente, mas pela sua integração com bancos regulados. Inovação sem confiança falha, mas confiança sem inovação torna-se irrelevante.

Naturalmente, a integração de novas tecnologias acarreta desafios. O próprio Bank for International Settlements (BIS) alerta para a necessidade de garantir a interoperabilidade, a segurança jurídica e uma governação sólida. É precisamente por se reconhecerem estes desafios que uma abordagem liderada por um banco se torna tão crítica, assegurando que a inovação ocorre dentro de um perímetro de máxima segurança.

A credibilidade deste novo modelo não vai ser definida pelo anúncio de novas stablecoins, mas pela sua utilização no mundo real. Portugal não tem escala para liderar pela dimensão - mas tem todas as condições para liderar pela execução. Temos talento técnico reconhecido internacionalmente e um ecossistema fintech em crescimento. Estes ativos, combinados com a credibilidade de instituições bancárias reguladas, criam condições únicas para este momento. 

A Europa tem, pela primeira vez em décadas, a oportunidade de definir standards globais no sistema financeiro. O futuro do dinheiro não será apenas digital, será programável, regulado e integrado na economia real.

Este pode ser um dos raros momentos em que Portugal não acompanha a evolução do dinheiro - ajuda a defini-la.

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