Dinamarca segue o problema com a atenção a ordem em cima da mesa é clara: em caso de invasão é para disparar sem perguntar
Caso os Estados Unidos decidam tomar a Gronelândia por via da força militar, a obrigação de defender a ilha dinamarquesa vai recair, pelo menos em parte, num norte-americano.
A estranha ironia é o resultado de uma mudança recente na NATO, que pode ver-se num confronto armado entre Estados-membros, o que confirmaria o fim da Aliança Atlântica, como já preconizou a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen.
De acordo com o jornal alemão Die Welt, na NATO já existe mesmo uma discussão sobre os vários cenários que estão em cima da mesa.
É que uma eventual ocupação militar da Gronelândia por parte dos Estados Unidos cria um imbróglio à Aliança Atlântica, com um país a atacar outro.
Esse cenário até há umas semanas impossível - mas que a administração Trump não descartou por completo - levaria a uma situação no mínimo bizarra, já que a defesa da Gronelândia estaria, em grande parte, a cabo de um almirante norte-americano.
Segundo o Die Welt, é isso que consta numa carta secreta do Comando Supremo Aliado que data de novembro de 2025. Essa mesma missiva transfere a responsabilidade da defesa dos países nórdicos da Finlândia, Suécia e Dinamarca - esta última que tutela a Gronelândia - do Comando de Força Conjunto de Brunssum para Norfolk.
O mesmo é dizer que a responsabilidade passa dos Países Baixos para os Estados Unidos, de acordo com a carta assinada pelo general Alexus G. Grynkewich, que comanda todas as forças da NATO.
Os Comandos de Força Conjuntos, que estão sob a liderança da sede estratégica de Mons, na Bélgica, são responsáveis por planear e executar todas as operações militares nas suas respetivas regiões.
Há muito que Finlândia, Suécia e Dinamarca queriam esta transferência para Norfolk, de acordo com vários responsáveis da NATO que falaram ao jornal alemão, até porque isso dá uma maior e mais forte conexão com os Estados Unidos.
Esta carta mudou isso, sim, talvez até esquecendo a questão da Gronelândia, que estava apenas adormecida na cabeça de Donald Trump, mas já existia e sabia-se disso.
Agora, com esta mudança já confirmada, tudo isto significa que o vice-almirante Douglas G. Perry será o responsável por defender a Gronelândia de quaisquer ataques, incluindo… dos Estados Unidos.
Assim, caso Donald Trump entenda que uma invasão militar é a forma escolhida para tentar anexar a Gronelândia, da parte da NATO a reação terá de ser liderada por um alto militar norte-americano, que terá de entrar em conflito com o seu comandante supremo, já que é o presidente dos Estados Unidos que supervisiona as tropas norte-americanas.
O Die Welt escreve também que há já uma grande especulação na NATO sobre qual poderá ser a reação de Douglas G. Perry. No entanto, um alto responsável da Aliança Atlântica que falou ao jornal alemão não tem dúvidas em alinhar com as palavras de Mette Frederiksen: “Se Trump escalar militarmente, será o fim da NATO. Mas não consigo imaginar isso a acontecer”.
Em todo o caso, e num cenário em que a invasão militar aconteça mesmo, a Dinamarca não terá nunca de esperar por quaisquer ordens para reagir. De acordo com o jornal dinamarquês Berlingske, os soldados dinamarqueses que estão a defender a Gronelândia têm ordens para disparar sem pedir autorização.
Tudo por causa de uma diretiva do Ministério da Defesa da Dinamarca que data de 1952, e na qual é referido que os militares dinamarqueses não devem esperar por quaisquer ordens para reagir a um ataque, nomeadamente uma invasão.