Alimentos ultraprocessados estão associados a doenças cardíacas, diabetes, perturbações mentais e morte prematura

CNN , Sandee LaMotte
29 fev, 13:44
Mais de 70% da oferta alimentar dos Estados Unidos é constituída por alimentos ultraprocessados, de acordo com uma investigação. jenifoto/iStockphoto/Getty Images

Os investigadores encontraram provas altamente sugestivas de que o consumo de alimentos ultraprocessados aumenta o risco de obesidade em 55%, de perturbações do sono em 41%, de desenvolvimento de diabetes tipo 2 em 40% e de depressão em 20%

O consumo de alimentos ultraprocessados aumenta o risco de desenvolver ou morrer de dezenas de problemas de saúde adversos, de acordo com uma novo estudo que teve por base 45 meta-análises efetuadas em quase 10 milhões de pessoas.

"Encontrámos provas consistentes que associam um maior consumo de alimentos ultraprocessados a mais de 70% dos 45 resultados de saúde diferentes que avaliámos", afirmou o autor sénior Wolfgang Marx, investigador sénior do Food & Mood Centre da Universidade de Deakin, em Geelong, Austrália.

Uma maior ingestão foi considerada cerca de uma porção ou cerca de 10% mais de alimentos ultraprocessados por dia, disse Heinz Freisling, cientista do ramo de nutrição e metabolismo da Agência Internacional de Investigação do Cancro da Organização Mundial de Saúde.

"Esta proporção pode ser considerada como 'linha de base' e para as pessoas que consomem mais do que esta linha de base, o risco pode aumentar", indicou Freisling, que não esteve envolvido no estudo.

Os investigadores classificaram cada estudo como tendo provas credíveis ou fortes, altamente sugestivas, sugestivas, fracas ou inexistentes. Todos os estudos da revisão foram publicados nos últimos três anos e nenhum foi financiado por empresas envolvidas na produção de alimentos ultraprocessados, indicaram os autores.

"A forte evidência mostra que uma maior ingestão de alimentos ultraprocessados foi associada a um risco aproximadamente 50% maior de morte relacionada com doenças cardiovasculares e transtornos mentais comuns", disse a autora principal, Melissa Lane, investigadora em Deakin. As doenças cardiovasculares incluem ataques cardíacos, acidentes vasculares cerebrais, artérias obstruídas e doença arterial periférica.

Existem provas convincentes de que uma ingestão elevada versus baixa de alimentos ultraprocessados pode aumentar o risco de ansiedade até 53% e o risco de morte prematura por qualquer causa em 20%, de acordo com o estudo publicado quarta-feira na revista The BMJ.

"Não é surpreendente que haja muitos estudos que apontem para uma associação positiva entre o consumo de alimentos ultraprocessados e o risco de vários resultados de doenças", disse a epidemiologista do cancro Fang Fang Zhang, professora associada e presidente da divisão de epidemiologia nutricional e ciência de dados da Universidade Tufts em Boston, que não esteve envolvida na nova investigação.

"Os alimentos ultraprocessados são ricos em calorias, açúcar adicionado, sódio e pobres em fibras", disse Zhang. "Todos estes fatores já são conhecidos por contribuírem para resultados de saúde cardiometabólica, aumento de peso, obesidade, diabetes tipo 2 e hipertensão."

No entanto, Zhang questionou os resultados dos estudos sobre ansiedade e depressão, que tendem a ser feitos apenas em pessoas que já foram diagnosticadas com essas condições.

"As pessoas que estão a ter sintomas depressivos ou ansiedade podem procurar alimentos ultraprocessados por várias razões, como o autoconforto", considerou. "Pode não ser que o consumo de alimentos ultraprocessados coloque a pessoa em alto risco de depressão - não podemos dizer."

Impacto misto em algumas condições de saúde

Os investigadores encontraram provas altamente sugestivas de que o consumo de alimentos ultraprocessados aumenta o risco de obesidade em 55%, de perturbações do sono em 41%, de desenvolvimento de diabetes tipo 2 em 40% e de depressão em 20%.

No entanto, a evidência foi limitada para uma associação entre o consumo de alimentos ultraprocessados e a asma, a saúde gastrointestinal e os fatores de risco cardiometabólico, tais como gorduras elevadas no sangue e baixos níveis de colesterol "bom" de lipoproteínas de alta densidade, ou HDL, de acordo com o estudo.

Além disso, o estudo encontrou apenas provas sugestivas ou inexistentes de uma associação entre os alimentos ultraprocessados e o cancro. É surpreendente, segundo Zhang, que investigou o papel dos alimentos ultraprocessados e do cancro.

"A obesidade é um fator de risco para 13 tipos de cancro. Os alimentos ultraprocessados aumentam o ganho de peso e a obesidade aumenta o cancro", apontou. Num estudo de agosto de 2022 em que foi coautora, Zhang descobriu que os homens que comiam mais alimentos ultraprocessados de qualquer tipo tinham um risco 29% maior de desenvolver cancro colorretal.

Uma razão para a descoberta inesperada é que a pesquisa sobre alimentos ultraprocessados ainda está muito no início, disse a coautora do estudo Mathilde Touvier, diretora de pesquisa do Instituto Nacional Francês de Saúde e Pesquisa Médica, uma organização pública de pesquisa.

"Precisamos definitivamente de mais estudos para podermos aumentar o peso das provas relativas ao cancro, por exemplo", afirmou Touvier, que é também a principal investigadora da coorte NutriNet-Santé, um estudo a longo prazo sobre a relação entre nutrição e saúde.

"Portanto, não é porque não haja nada, é apenas porque precisamos de mais investigação", defendeu.

A produção de alimentos ultraprocessados

Os alimentos ultraprocessados são muito mais do que simples alimentos "modificados", afirmou o investigador em nutrição Carlos Monteiro, diretor do Centro de Estudos Epidemiológicos em Saúde e Nutrição da Universidade de São Paulo, no Brasil. Ele não esteve envolvido na nova pesquisa.

"São formulações de ingredientes baratos, muitas vezes manipulados quimicamente, como amidos modificados, açúcares, óleos, gorduras e proteínas isoladas, com pouca ou nenhuma adição de alimentos integrais", indicou Monteiro, professor de nutrição e saúde pública, num editorial anexo.

Monteiro cunhou o termo alimento ultraprocessado em 2009, quando desenvolveu o NOVA, um sistema de classificação de alimentos em quatro categorias. O grupo 1 é composto por alimentos não processados ou minimamente processados, como frutas, legumes, ovos e leite. O grupo 2 inclui ingredientes culinários, como sal, ervas, óleos e afins. O grupo 3 é constituído por alimentos transformados que combinam os grupos 1 e 2 - os produtos enlatados e os legumes congelados são exemplos.

O grupo 4 é constituído pelos alimentos ultraprocessados, que, segundo Monteiro, são tornados saborosos e sedutores através da utilização de combinações de sabores artificiais, corantes, espessantes e outros aditivos que têm sido "associados por provas experimentais e epidemiológicas a desequilíbrios na microbiota intestinal e à inflamação sistémica".

"Não há razões para acreditar que o ser humano se possa adaptar totalmente a estes produtos", escreveu Monteiro no editorial. "O organismo pode reagir a eles como inúteis ou nocivos, e os seus sistemas podem ficar comprometidos ou danificados, dependendo da sua vulnerabilidade e da quantidade de alimentos ultraprocessados consumidos."

Desde que Monteiro definiu os alimentos ultraprocessados, os nutricionistas, investigadores e responsáveis pela saúde pública têm-se preocupado com a crescente prevalência destes alimentos nos Estados Unidos, Austrália, Reino Unido, Canadá e em muitos países em desenvolvimento.

"Dois terços das calorias que as crianças consomem nos EUA são ultraprocessadas, enquanto cerca de 60% das dietas dos adultos são ultraprocessadas", disse Zhang.

"Penso que é como quando inventámos os automóveis", acrescentou. "Sim, eles trazem-nos comodidade, mas se usarmos o carro para tudo e não fizermos exercício, temos problemas. Precisamos de novas estratégias para reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados para um nível mais saudável."

Como reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados

Há uma solução fácil - comprar comida verdadeira e cozinhá-la em casa. É assim tão simples, dizem os especialistas. Mas os especialistas também concordam que, no mundo acelerado de hoje, é difícil abdicar da comodidade dos alimentos prontos a aquecer e prontos a comer. Para além disso, é quase impossível evitar a tentação, uma vez que mais de 70% do abastecimento alimentar dos EUA é feito de alimentos ultraprocessados.

A regulamentação por parte das agências de saúde pública e dos governos deve ser considerada, disse Monteiro, como rótulos de advertência na frente da embalagem; restrição da publicidade, especialmente para crianças; e a proibição da venda de alimentos ultraprocessados em ou perto de escolas e hospitais, tudo isso enquanto torna os alimentos minimamente processados mais acessíveis e baratos.

Entretanto, Marx e Lane deram os seguintes conselhos:

1) Ler e comparar os rótulos dos produtos e tentar escolher alternativas menos processadas. Por exemplo, troque o iogurte aromatizado por iogurte natural com fruta adicionada.

2) O que inclui é tão importante como o que exclui. Concentre-se no que pode acrescentar à sua dieta, como frutas, legumes, feijões e leguminosas frescos, congelados ou enlatados.

3) Tenha cuidado com as bebidas. As bebidas açucaradas não têm qualquer valor nutricional. Troque-as por água.

4) Quando comer fora, vá a restaurantes e cafés locais em vez de ir a cadeias de fast-food. Os restaurantes locais têm menos probabilidades de produzir alimentos ultraprocessados.

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