Não há cura para a demência mas esta dieta pode ajudar a reduzir o risco

CNN , Katie Hunt*
18 mar 2023, 11:00
Dieta mediterrânica (foto: unsplash david-b)

Não há cura ou forma comprovada de prevenir a demência, que afeta 55 milhões de pessoas em todo o mundo, mas vários estudos afirmam que seguir uma dieta mediterrânica pode reduzir o risco de desenvolver a doença.

As pessoas que seguiram uma dieta mediterrânica de forma rigorosa - rica em peixe e alimentos à base de vegetais - tiveram um risco até 23% menor de demência, segundo o estudo mais recente, publicado por uma equipa internacional de investigadores na revista BMC Medicine. Em termos absolutos, foi descoberto que adotar uma dieta mediterrânica era equivalente a uma redução de 0,55% no risco de desenvolvimento de demência. 

A investigação mais recente envolveu 60.298 pessoas que fizeram parte do estudo do UK Biobank e foram acompanhadas durante um período de pouco mais de nove anos. Durante o estudo, surgiram 882 casos de demência entre o grupo. Os indivíduos tinham entre 40 e 69 anos, e eram britânicos ou irlandeses caucasianos. A avaliação do quanto seguiram a dieta mediterrânica foi realizada através de dois questionários diferentes, amplamente utilizados em estudos anteriores sobre a dieta, referiram os investigadores.

“Existem muitas provas de que uma dieta saudável e equilibrada pode ajudar a reduzir o risco de declínio cognitivo. Mas as evidências de dietas específicas são muito menos claras”, disse Susan Mitchell, chefe de política do Alzheimer’s Research UK, em comunicado. Ela não esteve envolvida na pesquisa. 

“Este novo e extenso estudo contribui para este quadro geral, mas baseou-se apenas em dados de pessoas com ascendência caucasiana, britânica ou irlandesa”, indicou. “É necessária mais investigação para se poder tirar partido dos seus intrigantes resultados e descobrir se os benefícios relatados também se aplicam em comunidades minoritárias, onde historicamente a demência tem sido muitas vezes mal compreendida e altamente estigmatizada, e onde a consciência de como as pessoas podem reduzir o seu risco é baixa.”

Não existe uma solução mágica para acabar com a demência, mas comer muitos vegetais e frutas, praticar atividade física regular e não fumar são comportamentos que contribuem para a saúde cardíaca, o que ajuda a proteger o cérebro de doenças associadas à demência, acrescentou.

Que alimentos estão incluídos na dieta mediterrânica

A dieta mediterrânica tem uma lista impressionante de ciência por trás. Esta forma de comer pode prevenir o declínio cognitivo, mas também proteger o coração, reduzir a diabetes, prevenir a perda óssea, estimular a perda de peso e muito mais, segundo os estudos. 

Um estudo publicado a 8 de março revelou que as pessoas que consumiam alimentos das dietas mediterrânica e MIND, que promove a saúde do cérebro, tinham menos sinais característicos de doença de Alzheimer – placas de proteína beta-amiloide e proteína tau no cérebro - quando autopsiadas.  A doença de Alzheimer é uma forma de demência. MIND é uma abreviatura para Mediterranean-DASH Diet Intervention for Neurodegenerative Delay.

A dieta mediterrânica foca-se numa alimentação à base de vegetais. A maioria das refeições inclui frutas e vegetais, grãos integrais, feijões e sementes, juntamente com algumas nozes. O azeite virgem extra é um ingrediente essencial. Manteiga e outras gorduras raramente são consumidas. Doces e produtos feitos de açúcar refinado ou farinha branca são raros.

A carne pode aparecer de vez em quando, mas geralmente apenas para dar sabor a um prato. Em alternativa, as refeições podem incluir ovos, laticínios e aves, mas em porções muito menores do que na dieta ocidental tradicional. No entanto, o peixe, rico em ómega-3, um estimulante do cérebro, é um alimento básico.

Os participantes do estudo que adotaram a dieta de forma mais rigorosa eram mais propensos a serem do sexo feminino, com um IMC dentro da faixa saudável, nível de educação superior e mais ativos fisicamente do que aqueles que menos aderiram à dieta. 

David Curtis, professor honorário do UCL Genetics Institute, em Londres, que não esteve envolvido na pesquisa, destacou que o último estudo foi observacional e não descobriu causa e efeito. A descoberta pode refletir um estilo de vida geralmente mais saudável, considerou.

"Não é claro que esta dieta em si reduza o risco de demência, embora seja plausível que possa acontecer. É importante notar que o estudo diz respeito a todas as formas de demência, e não especificamente à doença de Alzheimer. Na minha opinião, se houver algum efeito da dieta, é mais provável que seja na saúde cardiovascular em geral e, por isso, tenha mais impacto na demência devido a doença vascular do que na doença de Alzheimer".

A componente social da dieta mediterrânica

Duane Mellor, nutricionista e professor catedrático da Aston University em Birmingham, Reino Unido, referiu que os benefícios de uma dieta mediterrânica não se limitam aos nutrientes fornecidos pelos alimentos. 

"A forma de comer mediterrânica não é apenas o que está no prato, é também sobre as interações sociais ligadas à alimentação, e as pessoas que mais socializam têm menor risco de demência e outras condições", referiu Mellor, que não participou na pesquisa.

"Temos de considerar de que forma uma dieta mediterrânica poderá ser adaptada aos alimentos disponíveis e consumidos no Reino Unido, de forma a poderem ser desenvolvidas mensagens inclusivas sobre alimentação saudável, que incluam a importância dos aspetos sociais de partilha e do consumo de alimentos com outras pessoas."

O estudo sugeriu que a adoção de uma dieta mediterrânica estava associada a um menor risco de demência, mesmo quando existia um maior risco genético de contrair a doença.

*Sandee La Motte contribuiu para este artigo

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