Repousavam há 5 anos nos armários da Dra Andrea Marques os restos mortais do processo Tutti-Frutti, depois da “maior operação de sempre contra a corrupção autárquica em Portugal”, em 2018, quando a TVI, em 2023, fez o que lhe competia - jornalismo. E foi sindicar a ação da justiça, ou a denegação da mesma. Lá encontrámos o defunto, ainda sem autópsia, numa altura em que a sra. procuradora queria abandonar o cadáver, lavando as mãos do mesmo, e partir do DIAP de Lisboa para a “elite” do DCIAP como se nada fosse. Saíram notícias desagradáveis e o resto é História: a PGR obrigou a dra. Andrea a trabalhar e, graças à PJ, ao fim de um ano lá foi capaz de acusar 60 arguidos, que, esses sim, percebe-se que não gostem da TVI. Mas não. É mesmo o DIAP de Lisboa (juro) que, em vez de ter enviado um ramo de flores a agradecer, acusa agora quatro jornalistas por violação do segredo de justiça.
Portanto, tinham a ganhar pó num gabinete um inquérito onde a dita procuradora fazia sugestões gravíssimas, por escrito, sobre a conduta de dois políticos que, à data das reportagens da TVI, eram “só” os ministros das Finanças e do Ambiente em funções. Mas acham, primeiro, que a senhora podia lá ter o processo a apodrecer e fugir antes de retirar as devidas conclusões; e, segundo, que o interesse jornalístico, e logo público, de uma coisa destas tinha que obedecer ao culto do segredinho decretado pelas senhoras até lá para 2040 - sobre factos que já vinham de 2017.
Tudo isto seria só cómico, se não se tratasse do nosso Ministério Público e, já agora, do nosso dinheiro. Já que não cumprem com os mínimos de bom senso, podiam ao menos, agora que já nos tínhamos esquecido do assunto, ter tido o mínimo de inteligência de não o ir desenterrar - lembrando-nos que, logo nos dias seguintes à TVI ter ressuscitado o cadáver, a inércia da dra. Andrea e de quem lhe tinha permitido isto no DIAP - a diretora, Fernanda Pego - obrigaram a procuradora-geral da República a ordenar a criação de uma equipa especial, com cinco magistrados e cinco inspetores da PJ em exclusivo, para fazer o que a dra. não tinha feito nos cinco anos anteriores. Qualquer coisa que, numa empresa privada, teria atirado as duas para o centro de emprego com justa causa - mas no Estado tudo passa.
Decidiram voltar a perseguir jornalistas - e os factos acima descritos terão agora que ser lembrados ao Ministério Público na presença de juizes, seja na instrução ou em julgamento, o que é mais um embaraço para os do costume. Mas pelos vistos gostam mesmo, há quem lhe chame masoquismo: nenhum magistrado, por mais incompetente, pode ignorar o que diz o Tribunal Europeu sobre direito à informação, liberdade de imprensa, e, já agora, também o nosso Supremo Tribunal de Justiça - depois de um lindo acórdão que guardo com amor sobre o enxovalho que a dra. Andrea levou da última vez que decidiu perseguir jornalistas por motivos que, enfim, nós conhecemos. De resto, se nessa altura, em 2018, se tivesse dedicado ao Tutti-Frutti, ou à pesca, não estaríamos agora aqui mas era tudo menos divertido.