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Uma jovem de 16 anos ficou perdida numa cidade desconhecida, sem dinheiro. Duas freiras convidaram-na a passar a noite com elas

CNN , Francesca Street
21 mar, 11:00
Diann Droste (CNN)

Diann costumava viajar sozinha de autocarro com frequência quando era uma adolescente "bastante destemida". Mas aquela viagem em particular, em 1973, teve algumas reviravoltas inesperadas

Olhando pela janela do autocarro Greyhound, Diann Droste viu a neve a cair com intensidade e em grande quantidade.

"Lembro-me de estar a olhar pela janela e pensar: 'Não sei se isto é bom'", conta Diann à CNN. "Comecei a ver carros nas valas e depois vi camiões nas valas. Mas tinha 16 anos. E não sabia o que se passava numa situação destas, então continuei simplesmente a ler o meu livro."

Estávamos em janeiro de 1973. Diann era estudante do segundo ano do liceu e vivia em Waterloo, Iowa. Estava a regressar a casa depois de visitar a sua amiga por correspondência, que vivia em Brainerd, no Minnesota — “a parte mais a norte do Minnesota, onde faz muito frio”. A viagem de autocarro durou mais de 10 horas.

“Estes autocarros da Greyhound fazem muitas paragens. Houve uma troca em que saí do primeiro autocarro e apanhei outro”, recorda Diann. “Hoje os meus filhos acham estranho eu ter viajado de autocarro da Greyhound pelo país aos 16 anos. Mas não tínhamos dinheiro para aviões.”

Diann descreve-se como uma mulher “bem destemida” naquela época. Ou talvez fosse apenas “uma adolescente de outra época”. De qualquer forma, viajar sozinha de autocarro da Greyhound não a intimidava — até começar a nevar. À medida que a paisagem através da janela desaparecia no branco, Diann tentou concentrar-se no livro que tinha no colo.

“Não é raro nevar no Midwest em janeiro. Mas, de repente, começou a nevar intensamente e o autocarro estava a derrapar”, recorda.

O clima no autocarro também pareceu mudar.

“Lembro-me de pensar que as outras pessoas naquele autocarro — que estava praticamente cheio — pareciam um pouco nervosas”.

Um desvio inesperado

Diann costumava viajar sozinha de autocarro com frequência quando era uma adolescente "bastante destemida". Mas aquela viagem em particular, em 1973, teve algumas reviravoltas inesperadas. Cortesia de Diann Droste

Sentiu-se um alívio coletivo quando o autocarro chegou à cidade de Albert Lea, no Minnesota. O condutor saiu da autoestrada e estacionou em frente a um Holiday Inn.

“Ele parou o autocarro e disse: ‘Não podemos ir mais longe. Não é seguro para mim conduzir, por isso vamos passar aqui a noite’”, recorda Diann.

O pânico instalou-se imediatamente.

“Na altura, pensei: ‘Oh não’. Não fazia ideia que os autocarros paravam assim.”

Diann não tinha dinheiro. Esta é uma parte da história em que os seus filhos ainda não conseguem acreditar. Ela tinha levado cerca de 25 dólares para a viagem e agora, no regresso, só lhe restavam alguns dólares.

Saiu do autocarro, apertou o casaco à volta do pescoço e olhou para os outros passageiros, que foram logo para o motel. Pareciam todos muito mais velhos — pessoas que sabiam instintivamente o que fazer quando os planos de viagem corriam mal.

Diann avistou um telefone público e usou as poucas moedas que lhe restavam para ligar para casa. Contou à mãe o que tinha acontecido, mas tentou não alarmá-la.

“Quando contei isto aos meus filhos, disse: ‘Agora, se isto vos acontecer, liguem-me. Tenho um cartão de crédito’”, conta Diann. “Mas em 1972, 1973 ninguém tinha telemóvel e nem toda a gente tinha cartão de crédito.”

A mãe de Diann não tinha. Albert Lea ainda ficava a duas horas de Waterloo, e as condições meteorológicas eram demasiado perigosas para que a mãe fosse até lá para a ir buscar.

“Também estava a nevar no Iowa e esperavam até 30 centímetros de neve durante a noite”, recorda Diann.

Quando desligou o telefone, temeu ficar ali presa durante dias.

No interior do Holiday Inn, Diann sentou-se numa cadeira no átrio do hotel, sob as luzes fluorescentes, e observou os outros passageiros a fazerem fila na receção e a levantarem as chaves dos seus quartos.

"Ninguém pareceu sequer reparar na minha presença", conta. "E todos eles pegaram naas suas respetivas chaves e foram-se embora, e eu fiquei sentada na cadeira."

Não havia famílias entre o grupo. Nem jovens — apenas o que Diann considerava “verdadeiros adultos”. E ela estava sozinha e sem saber o que fazer.

“Não consigo um quarto, porque não tenho dinheiro”, lamentou-se para si mesma. Tentou manter a calma e elaborar um plano. Viu uma placa atrás da receção a anunciar pequeno-almoço grátis.

“Já é alguma coisa”, pensou. “Vou passar a noite neste átrio e, de manhã, tomo o pequeno-almoço gratuito. Espero que o autocarro parta amanhã.”

A cadeira não era muito confortável. Estava longe de ser o ideal para dormir. E Diann não se sentia propriamente à vontade no átrio de um motel no meio do nada.

Mas Diann tinha levado consigo um livro e tentou distrair-se a ler.

Eventualmente, o átrio ficou vazio. Parecia que todos os outros passageiros do autocarro Greyhound já tinham chegado aos seus quartos. Até que Diann olhou por cima do livro aberto e viu dois pares de sapatos pretos a tilintar no chão do átrio.

“E pensei para mim mesma: ‘Estas mulheres estão a usar sapatos muito confortáveis’”, recorda Diann. “É engraçado como nos lembramos de certas coisas.”

Diann olhou para cima. Eram duas mulheres que ela reconhecia do autocarro.

“Elas tinham por volta de 55 anos e estavam vestidas de forma muito simples”, lembra-se Diann.

Saias escuras. Blusas brancas. Sapatos confortáveis.

Sorriram para ela à medida que continuavam a andar.

“Quando estavam quase a chegar à porta, viraram-se e perguntaram-me: ‘Queres jantar connosco?’”

Ao lado do motel existia um Perkins, uma cadeia de restaurantes comum perto de autoestradas norte-americanas.

Ao ouvir falar em comida, o estômago de Diann roncou. Ela estava com fome. Mas também estava sem dinheiro.

"Não queria dizer que não tinha dinheiro. Apenas disse 'Não, obrigada'. Depois disseram 'Está bem' e foram-se embora", conta Diann.

Mas, momentos depois, os sapatos confortáveis ​​voltaram.

“Não estou a brincar, elas deram meia volta, voltaram e uma delas perguntou-me: ‘Aceitas jantar connosco se pagarmos a tua conta?’”, recorda Diann. “Deviam saber. Tenho a certeza que sabiam.”

E Diann aceitou.

Uma amizade improvável

Diann acompanhou as duas mulheres até lá fora. Por um instante, pensou: "Não devia estar a fazer isto". Eram estranhas. Talvez não fosse seguro. Mas estar sozinha no átrio de um motel também não parecia muito seguro.

No restaurante, sentiu-se culpada por duas estranhas lhe estarem a pagar o jantar e pediu apenas uma Coca-Cola pequena.

As novas amigas de Diann intervieram de imediato. “‘E ela vai querer um hambúrguer e batatas fritas para acompanhar’. Quando a empregada de mesa se afastou, eu contei-lhes: ‘Não tenho dinheiro para pagar isso.’ E elas responderam: ‘Nós dissemos que pagávamos o teu jantar’.”

Foram gentis, mas assertivas. Diann cedeu. Enquanto bebericava o refrigerante, começou a relaxar um pouco e as três começaram a conversar.

As duas mulheres disseram que eram Irmãs da Misericórdia, freiras católicas.

Isso explica os sapatos, pensou Diann.

As freiras contaram que davam aulas numa escola católica em Cedar Rapids, no Iowa, a cerca de uma hora da casa de Diann. Diann é católica e conhecia a escola, o que a deixou um pouco mais tranquila. Mesmo assim, agora consciente de que estava a jantar com duas professoras que também eram freiras — uma novidade para ela em ambos os casos — comportou-se da melhor forma possível.

“Perguntaram-me o que ia fazer, e eu não percebi a pergunta. Então, disse: ‘Bem, só estou no segundo ano do liceu, mas gostava de ir para a faculdade. Não sei para onde’.”

As duas mulheres sorriram uma para a outra e depois para Diann.

“Elas disseram: ‘Queremos dizer esta noite’, e eu respondi: ‘Ah, bem, acho que vou ficar no átrio e talvez dormir numa cadeira’.”

Diann reparou na preocupação no rosto das duas freiras.

"De manhã, espero que possamos ir embora", continuou Diann, divagando um pouco. "E posso tomar o pequeno-almoço lá, porque o pequeno-almoço é gratuito..."

As freiras entreolharam-se e assentiram.

"E uma delas disse: 'Temos um quarto com duas camas de casal. Gostarias de ficar connosco?'”

Olhando para trás, Diann sabe tudo isto soa. Parece "algo saído de um programa de televisão", reconhece. "Provavelmente não foi a coisa mais prudente a fazer, mas senti-me completamente segura com estas duas mulheres e não queria mesmo dormir no átrio", confessa.

Por isso, aceitou partilhar o quarto com as duas mulheres. Entre hambúrgueres e batatas fritas, Diann sentiu-se mais à vontade com a situação.

"No início, estava um pouco tímida com elas, mas antes de o jantar terminar, já estava a contar tudo. Contei-lhes o que fazia na escola, que tenho cinco irmãos e falei sobre isso.”

"Se me sentiria tão à vontade com outros adultos? Acho que não. Acho que não me sentia tão à vontade com a maioria dos meus professores, nem nada que se pareça. Elas fizeram-me sentir confortável. Numa situação normal, não teria sido tão aberta com elas."

A noite no motel

De regresso ao quarto do motel, as três passaram o tempo a jogar às cartas.

“Elas ensinaram-me a jogar e nunca mais joguei. Mas quando vejo um baralho de cartas, penso logo naquelas duas freiras.”

O jogo foi divertido. O trio riu e brincou enquanto jogava. As Irmãs, habituadas a interagir com adolescentes por causa do trabalho de professoras, fizeram com que Diann se sentisse cada vez mais à vontade.

“Sentia-me completamente segura, completamente”, diz Diann. “Elas dormiram numa cama, eu dormi na outra. Fomos dormir cedo. Acordámos cedo. Descemos para tomar o pequeno-almoço.”

O ambiente ao pequeno-almoço era acolhedor e convidativo, ao contrário da noite anterior, quando os passageiros do autocarro praticamente se ignoraram.

“Todo o ambiente mudou. As pessoas circulavam entre as mesas do pequeno-almoço, a conversar”, recorda Diann. “Havia uma camaradagem entre as pessoas que estavam no autocarro, pessoas que até então eram completas desconhecidas, todas a falar porque tínhamos partilhado esta experiência.”

Diann sentou-se à mesa com as freiras. O motorista do autocarro garantiu que não havia previsão de mais neve, pelo que poderiam partir nessa manhã. Todos festejaram.

Uma hora depois, Diann estava de volta ao autocarro. Desta vez, não abriu o livro, mas continuou a conversar com as freiras e outros passageiros.

"Fiquei a conversar com estas duas freiras e diverti-me muito", recorda. "De todas as viagens de autocarro que fiz quando era jovem, acho que esta foi a melhor, simplesmente porque as conheci e pude interagir com elas."

O autocarro Greyhound começou a aproximar-se da sua cidade natal. Diann avistou o familiar edifício de oito andares da loja de departamentos Black's Building, em Waterloo.

"Nunca fiquei tão feliz por ver aquele edifício alto no horizonte como naquele dia", admite Diann.

Quando percebeu que estava quase em casa, virou-se para as freiras.

“Se me derem os vossos nomes e moradas, eu envio o dinheiro que pagaram pela minha parte do quarto”, sugeriu. “Nem pensar”, responderam as duas. “E depois recusaram-se a dizer-me onde moravam. Eu insisti: ‘Digam-me onde moram. Devem viver num convento’”, assumiu Diann.

As freiras esquivaram-se às perguntas. “Não, não, não”, responderam, resolutas, insistindo que Diann não tinha de retribuir a gentileza.

O autocarro parou em Waterloo. Através da janela, Diann viu a mãe à espera para a ir buscar.

“A minha mãe esperava-me sempre quando regressava, mas desta vez estava especialmente grata por vê-la e chegar a casa”, confessa Diann.

Virou-se para as freiras, apontando animadamente para a mãe. “Que bom, a minha mãe está aqui”, disse-lhes. “Podemos abençoar-te?”, perguntaram as duas mulheres. Diann assentiu e elas “fizeram uma pequena oração”..

Depois, Diann desceu do autocarro, acenando e despedindo-se das freiras e dos outros passageiros.

Nessa noite, Diann contou a história à sua família. A mãe de Diann agradeceu a amabilidade das freiras. Mais tarde, no seu quarto, Diann escreveu uma carta à sua amiga por correspondência, Arlene, relatando detalhadamente a agitada viagem de regresso a casa.

“Quando voltei à escola, provavelmente um ou dois dias depois, lembro-me de ter contado às minhas amigas, e elas perguntaram: ‘Dormiste num quarto com duas pessoas que nem conhecias?’ Eu respondi: ‘Não faz sentido, certo?’”

Diann já não se lembra dos nomes das freiras. Na altura, não lhe ocorreu procurá-las para lhes agradecer.

"No mundo de hoje, poderia ter descoberto facilmente quem eram", reflete. "A internet teria facilitado tudo. Acho que podia ter escrito uma carta para a escola. Mas também tinha 16 anos e as raparigas de 16 anos são bastante ingénuas."

Pouco tempo depois, Diann tirou a carta de condução e deixou de andar de autocarro. Não voltou a visitar Arlene. "Talvez tenha tido medo de fazer isto outra vez depois daquela viagem", ri-se. Ambas perderam o contacto quando Diann foi para a faculdade, mas recentemente voltaram a falar através do Facebook e descobriram que se são ambas enfermeiras.

"Fui enfermeira durante 40 anos", conta Diann. "Sou casada. Sou mãe de três filhos e avó de seis. Ela era casada e tinha três filhos como os meus. Incrível como as nossas vidas se cruzaram."

As duas mulheres encontraram-se algumas vezes desde então — desta vez, já não precisaram de viajar de autocarro da Greyhound para o fazer.

A bondade dos desconhecidos

Diann Droste, aqui fotografada em 2026, ainda se lembra da bondade das freiras cinco décadas depois. Cortesia de Charles Droste

Nas cinco décadas que se seguiram à sua estadia em Albert Lea, Diann contou a sua história das “freiras no autocarro” aos seus filhos e netos em muitas ocasiões.

Quando conta esta história, já está habituada aos olhares curiosos sobre a sua falta de dinheiro, a sua natureza confiante e a improbabilidade de tudo o que se passou. Mas a parte mais importante da história, para Diann, é a forma como a experiência desta bondade por parte de completas desconhecidas moldou a sua visão do mundo.

“Quando trabalhava, tinha um pequeno bilhete na minha secretária”, conta. “Lia-o várias vezes ao dia e tornou-se o meu mantra, palavras pelas quais tentava viver. O bilhete dizia: ‘Quando tiveres de escolher entre ter razão ou ser gentil, escolhe ser gentil.’ Todos estes anos depois, ainda me lembro daquele grande ato de bondade de duas freiras muito gentis e intuitivas. Conto esta história com frequência.”

“Eu estava grata por elas estarem lá, e espero que elas soubessem disso.” Tenho a certeza de que já faleceram há muito tempo, mas espero que soubessem que o que fizeram naquela noite me afetou para sempre. E, de certa forma, tentei retribuir o favor. Nunca deixei um estranho dormir no meu quarto de hotel, mas sempre fui gentil com desconhecidos e tento ajudá-los.”

"Às vezes, penso que as pessoas simplesmente entram na nossa vida por uma razão, e aquelas pessoas, aquelas duas mulheres, entraram na minha vida por uma razão. Muitas vezes, espero que tenham pensado em mim mais tarde, porque certamente penso nelas todos os anos", confessa Diann.

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