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Os 'sagrados' grupos de mães

30 dez 2024, 12:05
Mãe com bebé

Há algo de quase sagrado num grupo de mães. Não um sagrado religioso, mas um sagrado feroz, tribal, que transforma uma notificação do WhatsApp numa espécie de chamada à guerra ou a uma conferência académica improvisada. São templos virtuais onde se procura, não apenas a resposta para uma febre noturna, mas a confirmação de que, no fim do dia, estamos a criar seres humanos inteiros.

Mas não se iludam: os grupos de mães não são feitos apenas de acolhimento e empatia. Há regras não escritas, tão rígidas quanto as tábuas de Moisés, e personalidades que se destacam como personagens de um épico improvável.

Há a Mãe Científica, que responde a cada dúvida com um link para estudos de Harvard. Pergunte-lhe o que fazer com uma criança que não come nabiças e ela citará o microbioma intestinal como quem recita poesia.
"Amigas, estudos recentes demonstram que a introdução precoce de vegetais de folhas verdes reduz em 47% o risco de desenvolver paladar monocromático na vida adulta."
E todas nós fingimos que sabemos o que isso significa.

Depois vem a Mãe Coach, a guru do mindset positivo, que pode transformar até uma noite inteira sem dormir num ensinamento de vida.
"O bebé não está a chorar, está a comunicar numa frequência que, se estiveres disponível, conseguirás captar."
Com ela, até o colapso nervoso se torna num workshop de autodescoberta.

E há, claro, a Mãe Julgadora Silenciosa. Ela nunca diz nada; só manda um emoji de olho quando a conversa segue um rumo que ela desaprova. Publicou uma vez sobre como os seus filhos nunca beberam um refrigerante e não comeram um grama de açúcar até aos cinco anos e, desde então, é vista como a sacerdotisa de um padrão impossível.

Nada, nada une um grupo de mães como a tragédia partilhada e nada divide tanto como a opinião sobre o uso de ecrãs antes dos dois anos; o leite artificial versus materno; parto normal ou cesariana.

Mas o que realmente une essas mulheres é isto: todas estão, de alguma forma, perdidas.  No fundo, o grupo de mães é uma comunidade que tenta, entre discussões sobre snacks saudáveis e teorias conspiradoras sobre chuchas ou leite em pó, lidar com o peso invisível de criar o futuro enquanto lida com as incertezas do presente.

Há um lado coletivo na maternidade que os grupos tornam visível. Uma mãe pergunta:
"Meninas, o que fazer quando o bebé não dorme?"
E a enxurrada de respostas chega, como flechas disparadas de todas as direções. Há o eco, que diz o que nós já sabemos – "Camomila, um banho morno, paciência." – e há o espelho, que devolve a insegurança: "Talvez ele esteja a sentir a tua ansiedade."

E, quando tudo dá errado – porque às vezes dá –, o grupo transforma-se  num coral dissonante, cheio de conselhos contraditórios:
"Camomila cura tudo."
"Camomila? É tóxica!"

"Tóxica é a tua atitude, Patrícia."

Imediatamente antes, o grupo quase implodiu quando Cláudia sugeriu que Nutella podia ser considerada um snack porque tem avelãs.

E a vida segue, entre julgamentos e acolhimentos, como um teatro de absurdos e ternura.

O grupo de mães é, no fundo, um espelho fragmentado, onde cada mulher projeta aquilo que gostaria de ver: aprovação, pertença, orientação. E, por isso mesmo, o grupo também se torna um palco de conflitos. Não são apenas debates sobre tetinas, fraldas ou lancheiras; são micro-revoluções internas sobre o que é ser uma boa mãe.

"Será que estou a fazer da forma certa?" Essa pergunta paira sobre cada mensagem, ainda que nunca seja escrita.

Há algo profundamente poético nesses espaços. Não pelas respostas em si – muitas vezes caóticas, outras francamente inúteis –, mas pelo que elas representam. Cada conselho é, na verdade, um pedido de ajuda disfarçado. Cada desavença sobre o uso de ecrãs ou alimentos biológicos é uma tentativa de trazer sentido a uma tarefa para a qual nunca se está realmente preparada.

"Entre o som do choro do bebé e a cacofonia do grupo, há uma busca incessante por algo que nenhuma notificação pode trazer: certeza."

E assim, o grupo de mães torna-se um microcosmo da maternidade em si: confuso, ruidoso, mas cheio de beleza. É no caos das mensagens que se revela o maior segredo da criação: não é sobre ter todas as respostas, mas sobre saber que não estamos sozinhas na busca.

E entre uma pergunta sobre fraldas biodegradáveis e outra sobre a melhor marca de cremes para assaduras, há dedos trémulos teclando em busca de um alívio que nenhuma pomada pode trazer.

E, já que falamos em dedos, há dois que se erguem nos grupos de mães. O dedo que adivinha – aquele que, mesmo sem provas, sabe exatamente o que o choro significa, o que o olhar pede, o que o silêncio esconde. É o dedo que toca no intangível, o que aponta para a intuição, essa bússola invisível que cada mãe carrega e, paradoxalmente, duvida.

O outro é o dedo que aponta. Ele não hesita, não vacila, não se cala. É o dedo julgador, que ergue a sua sentença em emojis ou palavras sutis.

No fim do dia, talvez a lição dos grupos de mães seja aprender a usar mais o dedo que adivinha – aquele que acolhe, que percebe, que intui sem impor. E menos o dedo que aponta, porque nenhuma mãe precisa de mais uma culpa para carregar.

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