Para a maioria dos portugueses, planear as férias resume-se a escolher um destino, marcar alojamento e organizar a viagem. Para milhares de doentes renais, o processo começa de forma muito diferente: encontrar uma unidade de diálise que tenha disponibilidade para assegurar um tratamento que não pode ser adiado nem interrompido. Se essa vaga não existir, não há férias.
É esta a realidade vivida pelos portugueses que fazem diálise. Uma realidade que se torna ainda mais evidente durante os meses de verão, quando aumenta a procura por tratamentos em regiões como o Algarve e o Alentejo, precisamente aquelas que concentram um maior número de visitantes nesta época do ano, isto sem esquecer os que vivem nestas regiões e que precisam de dar continuidade aos seus tratamentos.
A Associação Portuguesa de Insuficientes Renais tem recebido, nas últimas semanas, um número crescente de contactos de pessoas que não conseguem agendar sessões de diálise durante o período de férias. São cidadãos que apenas pretendem usufruir de alguns dias de descanso com a família, sem colocar em causa um tratamento indispensável à sua sobrevivência.
Esta situação não pode ser encarada como uma inevitabilidade. As férias fazem parte da qualidade de vida. Contribuem para o equilíbrio físico, psicológico e social de qualquer pessoa. Para quem vive com doença renal crónica, sujeitando-se a tratamentos várias vezes por semana, representam também uma oportunidade para recuperar energia, reduzir o desgaste emocional e preservar uma vida tão normal quanto possível.
Importa reconhecer que Portugal dispõe de hospitais públicos e de uma rede de unidades de diálise convencionada reconhecidos pela qualidade dos cuidados que prestam. Ao longo de décadas, o setor tem demonstrado elevados padrões clínicos, inovação tecnológica e um forte compromisso com os doentes.
Contudo, a qualidade dos cuidados depende, antes de tudo, das pessoas que os prestam. Médicos, enfermeiros, técnicos e outros profissionais são o elemento essencial deste sistema. E é precisamente aí que hoje reside o maior desafio.
A dificuldade crescente em recrutar e reter profissionais de saúde está a limitar a capacidade de resposta das unidades. Não se trata de falta de vontade das clínicas nem de insuficiência tecnológica. Trata-se de um problema estrutural de recursos humanos que afeta todo o Serviço Nacional de Saúde e também os prestadores privados convencionados, tornando cada vez mais difícil responder aos picos sazonais de procura.
O que hoje acontece nas marcações de diálise para o verão deve ser visto como um aviso. Ignorar estes sinais será aceitar que um problema pontual se transforme, progressivamente, numa limitação permanente do acesso aos cuidados.
