Manual de sobrevivência para o Dia dos Namorados

13 fev, 10:30

Há dias que chegam com ordem de celebração. Dias que nos dizem como devemos sentir, que nos vendem postais e músicas escolhidas a dedo para embalar corações. O Dia dos Namorados é um desses dias. Este manual não é um antídoto. É apenas um conjunto de palavras soltas para lembrar que o amor não se deixa domesticar por datas. E que sobreviver a este dia — como a qualquer outro — é só mais uma forma de seguir em frente, com ou sem mãos entrelaçadas.

1. Atenção às armadilhas
Hoje, vão dizer-nos que o amor tem cheiro a rosas e sabor a chocolate belga, que as histórias de amor se escrevem em tons de vermelho e se selam com beijos cinematográficos. Vão tentar convencer-nos de que o amor se traduz em promessas murmuradas sob a chuva ou ao pôr do sol cor de laranja, mas a verdade é outra: o amor não tem rótulo, não tem banda sonora, não tem filtros dourados. É feito de silêncios partilhados, de gestos invisíveis, de tudo aquilo que nunca caberia numa publicação de qualquer feed.

2. Evitar comparações fatais
Hoje, os restaurantes vão encher-se de velas, de mãos dadas sobre toalhas bordadas e de sorrisos emoldurados por filtros de felicidade. Haverá fotografias com legendas ensaiadas, cartas escritas com a urgência de quem quer ser lido por outros olhos que não necessariamente os do destinatário. Mas o amor não grita. Mora nos silêncios. E o amor que se exibe nem sempre é o amor que se vive. O amor dos outros nada sabe do nosso.

3. Cuidado com os fantasmas
Hoje, alguns amarão. Outros esperarão. E muitos recordarão. Há nomes que ficaram num tempo onde sabemos já não regressar, cheiros que resistem na pele, toques que deixaram marcas invisíveis. Há quem fantasie com o príncipe que nunca desceu do cavalo e que, por isso mesmo, nunca teve borbulhas; há quem sonhe com o amor que não foi, quem se demore na ideia de um corpo que nunca envelheceu, de um sorriso que nunca cedeu ao cansaço. Se os fantasmas vierem, deixemo-los-entrar, mas não os convidemos a sentar.

4. Nem tudo é sobre o amor romântico
O amor é vasto, maior do que aquilo que hoje tentam vender-nos. Está no “dia tão diário disso tudo”, como diria Sérgio Godinho. Reduzi-lo a um só formato é como tentar guardar o mar numa garrafa.

5. A solidão não é maltratante
A solidão não é um quarto escuro em forma de castigo. É um espaço onde podemos descobrir que a melhor companhia pode, por vezes, estar em nós.

6. Se sim, pois que seja de verdade
Não há data que salve um amor que já se foi. Hoje não é um dia para fingir, para forjar sorrisos, para acreditar que uma mesa reservada pode remendar o que está desfeito.

7. Sobreviver não é sinónimo de viver

Vivamos o amor sem pressa, sem a urgência de provar. Lembremo-nos que o amor não segue calendários, não vem embalado e não tem prazo de entrega.

E, acima de tudo, não nos esqueçamos disto: amar começa por dentro.

Feliz 14 de fevereiro. Ou feliz quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira. Porque o amor não cabe num dia.

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