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O que é um pai?

19 mar, 10:00
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Há dias enviaram-me um vídeo viral em que um grupo de crianças é confrontado com duas questões: que queixas têm em relação aos seus pais; e se estariam dispostas a trocar o seu pai por um “pai ideal” criado por inteligência artificial. As respostas são muito básicas: pequenas queixas do quotidiano. Pais que trabalham demasiado, que ralham, que têm pouco tempo para brincar.

Pouco depois aparece um homem, o pai perfeito, que promete tudo aquilo que uma criança poderia desejar: nunca ralhar, oferecer presentes, viajar para a Disneyland e garantir uma vida cheia de comodidades. Há apenas uma condição: abandonar o pai verdadeiro para sempre.

De repente, as crianças ficam inquietas. Hesitam. Olham para o chão. Percebem que a pergunta não é assim tão simples. Afinal, pergunto eu, o que deve ser um pai?

É uma pergunta antiga. No romance O primeiro homem, Albert Camus colocava na boca do protagonista uma confissão comovente: “Preciso de alguém que me mostre o caminho, que me elogie e me corrija… preciso do meu pai.”

Vivemos rodeados de reflexões, podcasts sobre educação, psicologia e família. Mas, paradoxalmente, muitos pais sentem-se inseguros quanto ao seu lugar. Alguns autores falam mesmo de uma “perda da cultura da paternidade”(1).

Durante gerações, o modelo era relativamente claro: o pai trabalhava e assegurava o sustento da casa. Estudos recentes publicados na Harvard Business Review mostram que a forma como os pais vivem o seu trabalho influencia diretamente a relação com os filhos. 

Muitos homens desejam estar mais presentes, participar na educação dos filhos, acompanhar o seu crescimento. Mas esta mudança trouxe também uma dificuldade inesperada.

Ser pai não é apenas gerar um filho. Três segundos bastam para ser progenitor, mas não bastam para ser pai. A paternidade nasce de uma decisão interior: aceitar o filho, acolhê-lo e decidir caminhar com ele.

Ser pai não é trazer dinheiro para casa ao fim do mês. Durante muito tempo acreditou-se que o principal dever do pai era garantir o sustento da família. 

Ser pai não é apenas ser amigo dos filhos. Os filhos precisam de alguém que os ame profundamente, mas que também os oriente. Alguém que encoraje, mas que também corrija. Alguém que saiba abraçar, mas que também diga “não” quando é necessário. Quando os pais evitam esse papel por medo de desagradar aos filhos, acabam por lhes provocar mais insegurança.

Mas como se pode ser um bom pai? Trabalho numa escola e as conversas que vou tendo com os pais, sugerem-me dicas interessantes que podem ajudar. São aplicáveis a filhos e filhas, basta a criatividade própria para adequar as estratégias à idade e ao carácter de cada criança.

  1. Almoçar a sós com um filho todos os meses. Um almoço no restaurante preferido do seu filho pode ser um momento privilegiado para conversar, ouvir como foi a semana, perguntar pelos sonhos e pelas preocupações, pelo que ele vê na Internet e nas Redes Sociais, fazer aquelas perguntas abertas que o seu filho não vai querer responder em casa. Deixe-o falar, opte por escutar, mais do que fazer-se ouvir. 
     
  2. Rezar com os filhos diariamente. As crianças aprendem a rezar sobretudo vendo os pais a rezar: agradecer, confiar em Deus e pedir ajuda. Rezar à mesa antes das refeições (durante 20 segundos), rezar 3 ave-marias a Nossa Senhora de Fátima, saber agradecer as coias boas no final do dia. S. José, que foi o melhor pai e rezou tantas vezes com Jesus é um bom modelo. Também ajuda ler este documento do Papa Francisco: Com coração de Pai.
     
  3. Passear e investir (e não gastar) tempo com os filhos. Jogar futebol, brincar, andar de bicicleta, conversar sem pressa. As crianças recordam raramente as prendas que receberam. Mas não esquecem os momentos vividos com os pais.
     
  4. Contar com a ajuda dos filhos nas tarefas da casa. Responsabilizar os filhos pelas tarefas de casa diz-lhes algo muito importante: “Tu és necessário nesta família.” Que eles façam a sua cama, levantem a mesa, aspirem o quarto ou levem o cão a passear.
     
  5. Mostrar aos filhos o carinho pela mãe. Uma das mensagens mais fortes que um pai transmite aos filhos é através da forma como trata a mãe. As crianças aprendem como é que um homem deve tratar uma mulher mediante pequenos gestos: respeito mútuo, palavras amáveis, pedidos de desculpa, gestos de generosidade, surpresas nos dias especiais e olhares carinhosos.
     
  6. E acompanhar o estudo e a leitura. Não apenas perguntar pelas notas, mas incentivar a leitura, o gosto por aprender. Um filho aprende pouco com um pai colado ao telefone, ao computador ou à televisão.

***

No final daquele vídeo acontece algo simples, expectável, emocionante: o verdadeiro pai abraça o filho. E a resposta das crianças é clara: “Claro que não trocaria o meu pai.”

Para um filho, o pai não é perfeito. Mas é insubstituível. E talvez o maior presente que um pai pode dar aos seus filhos seja  tempo, presença e atenção. Se os filhos não querem trocar de pai, não troque os seus filhos por nada deste mundo!

Feliz Dia do Pai.

 

(1) Expressão da autora María Calvo no livro Paternidad robada (Córdoba: Almuzara, 2021). Outros autores utilizam ou analisam ideias semelhantes sobre a crise da figura paterna, como Luigi Zoja em El gesto de Héctor. Prehistoria, historia y actualidad de la figura del padre (Madrid: Taurus, 2018) e Jean‑Claude Mulliez em Histoire des pères et de la paternité (Paris: Larousse)

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