Quem conhece um país só não conhece país nenhum. Conhecendo o mundo, havemos de nos conhecer melhor. E se nos quisermos conhecer mesmo bem, podemos ver o mundo todo num bairro só
Há muitas razões para celebrar o Dia de Portugal, mas por vezes parecem faltar razões atuais, contemporâneas, para essa celebração. E nada ilustra melhor o que parece ser um mal-estar coletivo com o país que temos do que a fuga dos nossos mais jovens, dos nossos melhores, dos nossos mais bem preparados.
Nunca em democracia tantos portugueses fugiram de Portugal como durante o governo de coligação PSD-CDS-Troika, liderado por Pedro Passos Coelho. Uma debandada só comparável às que acontecem a países em guerra. Contudo, a “guerra” acabou, e muitos dos nossos continuaram a debandada. Alguns, poucos, voltaram, mas muitos mais continuaram a fazer a trouxa e zarpar. Já não vêm mais cinco, vão mais cinco. E mais cinco, e mais cinco, e mais cinco…
O Presidente da República percebeu-o bem: celebrar Portugal hoje é pensar um país que perdeu argumentos para reter ou atrair de volta os seus. Por isso, no Luxemburgo, uma espécie de petit Portugal no centro da Europa, António José Seguro lembrou aos emigrantes portugueses que o seu país de origem os quer de regresso. Portugal “é um país que quer receber de volta os seus”, disse o Presidente da República, como já tinha dito antes, em Espanha. Luís Montenegro fez eco e disse que Portugal de volta os quer. Também terá acrescentado, como se impunha, que o Governo tudo-fará-para-blá-blá-blá. Não creio que alguma vez um governo que fez tão pouco tenha repetido tantas vezes que tudo fará. Quando tudo é nada, é natural que tudo não chegue.
Malassadas madeirenses em Tóquio via Havai
Bem sei que fomos sempre um país que precisou de sair de si e ir para o mundo. Adriano Moreira constatava a nossa condição de “país exíguo”, talvez saudoso de um império que ele sabia ser impossível manter no século XX. Por isso, depois de país de navegadores cantados como “descobridores”, nos tornámos país de caminhantes à cata de descobrir noutras paragens o que Portugal não nos dava.
Por isso o Dia de Portugal tem esta singular caraterística de ser o dia da coisa e do seu contexto. É o Dia de Portugal mas não se vê mesmo Portugal sem se olhar para o mundo – e comemoramos de uma assentada o poeta que cantou a nossa epopeia global, tão gloriosa quanto necessária, tão heróica como humana; e festejamos também os nossos que não estão entre nós: as comunidades portuguesas que nos fazem maiores do que o quinhão de terra que nos coube.
Sim, fomos sempre um país de emigrantes. Cresci, como qualquer madeirense, ouvindo falar dos que estavam na Venezuela, em França, em Jersey, na África do Sul. Noutros tempos teria ouvido falar dos que foram até ao Havai, imagine-se!, por isso no Havai há malassadas (espécie de farturas à moda da Madeira) e também por isso há “malasadas” no Japão, levadas pelos imigrantes do Havai, que as aprenderam com os imigrantes da Madeira. Sendo eu imigrante vivendo em Tóquio (mas o tipo de imigrante a que chamam “expat”, da espécie de migrantes de luxo), alguma vez imaginei que encontraria na maior metrópole do mundo “malasadas” que me fariam lembrar a minha infância em Câmara de Lobos? Não, essa não estava no meu bingo.
Voltar para baixos salários, precariedade e impossibilidade de uma casa?
Antes, Portugal perdia para a emigração os seus mais pobres, com menos perspectivas de singrar entre portas. Hoje, perde os seus mais jovens, os mais preparados, os mais letrados, mas também os outros, os que têm menos qualificações, mas bons braços, boa cabeça e vontade de trabalhar. Ou seja, agora perdemos os nossos, em geral, porque o país não é bom para quase ninguém.
O apelo genuíno de Seguro para que regressem cairá, portanto, em saco roto; assim como o eco cínico de Montenegro. Cínico, porque o chefe do Governo sabe bem as políticas que está a prosseguir no país, e sabe bem que nunca, com estas políticas, tornará Portugal atrativo para fazer regressar quem encontrou lá fora aquilo que o seu país lhes nega. Para começo de conversa: salários decentes (e muito acima de decentes), estabilidade laboral, perspectivas de carreira, habitação.
O Presidente da República conhece bem as razões por que Portugal está a falhar aos seus. Reconheceu-as ontem no discurso do 10 de junho. “Temos jovens extraordinariamente qualificados. (...) O problema não é o talento. Nunca foi o talento. O problema é que esse talento parte para outros destinos, demasiadas vezes, porque não encontra em Portugal as condições para crescer. O que se ganhou em qualificação não tem sido acompanhado em remuneração. A habitação é praticamente inacessível e esgota qualquer orçamento. Com honestidade, o Estado e as empresas têm de reconhecer que o mercado de trabalho ainda não aprendeu a recompensar adequadamente o conhecimento e a inovação.”
O Governo insiste, de forma sádica e masoquista, num olhar vesgo para o mercado de trabalho, castigando os trabalhadores com mais precariedade, menos condições de conciliar vida laboral e familiar, e eternos baixos salários que não acompanham o talento, o conhecimento e a inovação, e ainda menos acompanham os aumentos de retribuição que empresários e gestores atribuem a si mesmos, aumentando cada vez mais o abismo entre os lá de cima e os de cá de baixo. Enquanto isso, o Presidente da República lembrou que o problema não é a mão de obra, que chegando lá fora é produtiva e bem remunerada. O problema estará mesmo no “Estado e nas empresas” – precisamente as variáveis que o infame Código do Trabalho ignora.
Seguro foi mais longe, para deixar tudo mais clarinho. Portugal não precisa de milagres; “o que precisamos é de decisões que dependem inteiramente de nós. (...) Precisamos de políticas que fixem talento em vez de o exportar. De salários que reflitam a produtividade e a qualificação dos trabalhadores portugueses. De um mercado de habitação que permita aos jovens construir uma vida no país onde nasceram ou estudaram. De um Estado que simplifique em vez de complicar, que antecipe em vez de reagir, que planeie além do mandato em vez de gerir apenas a urgência do presente.”
Tão simples, tão distante.
Os "nossos" que estão lá e os "outros" que estão cá
Uns dias antes de entrar em “modo 10 de Junho”, o Presidente da República tinha alertado para um dos maiores desafios existenciais que Portugal enfrenta: a pressão demográfica, com o efeito combinado do envelhecimento da população e das baixíssimas taxas de natalidade. De pouco servem apoios pontuais, do tipo X euros por cada filho que nasça, se o país tudo faz para dificultar a vida a quem está em idade de constituir família e ter filhos. Quem casa quer casa – mas quem sonha em constituir família num país onde as casas são cada vez mais (porque os preços de rendas e propriedades continuam a subir) privilégio de ricos? Onde as medidas para a “habitação jovem” só se aplicam a quem já tem posses, e não a quem vive de salários médios que parecem salários mínimos? Quem arrisca ter filhos num país onde o emprego é uma lotaria e o rendimento uma miséria? Ou num país onde rede de pré-escolar pública é coisa não existe? Quem se aventura a ter filhos se tem de viver longe de tudo? – do emprego, que existe onde calha, mas também longe da eventual rede de apoio familiar, abandonada pela necessidade de galgar quilómetros à procura de uma renda acessível que seja mesmo acessível, e não nos valores “acessíveis” imaginados na cabeça do ministro Pinto Luz.
Alguém estranha que sejamos cada vez menos, seja porque uns partem, seja porque outros ficam com projetos adiados de família e filhos?
Por isso, sim, faz sentido que o Dia de Portugal seja também o dia de Camões e das Comunidades Portuguesas, designação criada em 1978 por alguém que via mais e melhor do que nós. Porque somos também os nossos que estão fora.
Já agora, somos igualmente “os outros” que estão cá dentro. Os que vieram de fora e aqui trabalham, aqui pagam impostos e prestações sociais, e aqui fazem filhos. Celebrar Portugal deve ser celebrar Portugal no Mundo e o Mundo em Portugal – o que damos e o que recebemos. Dia das comunidades emigrantes, mas também das comunidades imigrantes. São estas que têm emprestado algum volume às nossas taxas de natalidade. São estas que têm feito os trabalhos mal pagos que tantos dos que aqui nasceram não aceitam fazer. São estas que têm ajudado a equilibrar as contas da Segurança Social que alguns agora usam como argumento populista de regateio político.
As fronteiras escancaradas às teorias racistas
Infelizmente, nem para uns nem para outros somos bons. Empurramos para fora os que nascem cá, e enxotamos para o canto os que para cá vêm. A retórica de “nós contra eles” rasga ainda mais um tecido social já puído. Para isso têm contribuído os discursos racistas e polarizadores de vocês sabem quem. Os tais que fizeram desaparecer do discurso público as “palavras do meio” de que falou ontem Seguro.
Também para perceber isso temos de perceber Portugal no Mundo. Entender que não há nada de original nessas teses xenófobas, nessas teorias da “grande substituição”, nessas fantasias da pureza originária dos portugueses e da sua cultura. Triste país onde já nem as teorias racistas são nossas. Tanto se queixam do “bar aberto” para o que vem lá de fora, e vivem com as fronteiras escancaradas a qualquer teoria MAGA, por mais abstrusa que seja.
Quase tudo é importado e entregue diretamente do produtor ao consumidor português pelos Venturas e seus aprendizes (incluindo-se entre estes Passos Coelho, que outrora se julgava líder e hoje não é mais do que um Ventura postiço). Que pureza étnica é essa?, que cultura pura é essa?, que “grande substituição” pode ser essa?, num país que é mestiço desde os tempos da ocupação árabe – sim, árabe, os árabes que nos deixaram os nomes do Alentejo, e do Algarve, e até o nome de família Cid, que é nome de família da deputada Rita Cid Matias, do Chega. Um país que, depois da “Reconquista”, para alguns a data inicial, inteira e pura, foi à procura de mais mestiçagens, aquelas sobre que escreveu Camões, em África, na América, na Ásia, e levou e trouxe, trouxe e levou.
Foi essa história que fez de nós quem somos, e por isso Miguel Monjardino, açoriano e observador do mundo a partir do meio do Atlântico, que ontem discursou na cerimónia do 10 de Junho antes do Presidente da República, lembrou que é “essencial acentuar a importância do conhecimento histórico”, e notou o óbvio: sem essa ferramenta básica, existe, e existirá sempre, “um problema cognitivo na percepção dos factos”. Sem conhecermos o passado que a história nos traz, sem conseguirmos entender o presente em que vivemos, não haverá rumo, nem ambição, nem capacidade de enfrentar mares alterosos como aqueles com que o mundo nos ameaça.
Nós com os outros
“Uma Nação livre não deve ter medo”, disse Monjardino, de pés assentes nos Açores, os seus Açores, a região autónoma que nos devia servir a todos de bandeira de afirmação e liberdade, a meio caminho entre a Europa e as Américas.
Conhecendo, ou não, o que iria dizer o seu antecessor, os discursos encaixaram e Seguro pegou na deixa: “Autonomia não significa isolamento. Significa liberdade de decisão e responsabilidade, aperfeiçoando, atualizando e reforçando cooperações bilaterais com os nossos aliados.”
Um país digno de si, da sua história e do seu futuro, entende isto. Não é orgulhosamente só nem é submissamente pastoreado. É autónomo, ainda que bem acompanhado. E o que vale para Portugal vale para a Europa. “A autonomia estratégica europeia como prioridade não é contraditória com a defesa transatlântica”, reiterou o Presidente da República. No Dia de Portugal, sim. Bom dia para o dizer, o Dia de Portugal no Mundo.
Porque a soberania, a integridade territorial e a liberdade dos povos, que são fundamento das Nações, nunca estiveram tão em causa como hoje desde que se estabeleceu a ordem global pós II Guerra Mundial. E para a generalidade dos países (e seguramente para Portugal) não há soberania, nem integridade territorial, nem liberdade, sem aliados confiáveis. Somos nós e os outros. Nós com os outros. Desde que haja um chão comum, também invocado pelo chefe do Estado, “assente em valores que, apesar da incerteza dos tempos, não mudam: a Paz, a Liberdade, os Direitos Humanos e o Multilateralismo.”
Sabemos do que falava António José Seguro. Não precisou de citar Trump, não precisou de manchar um belo discurso com o nome ignóbil, para percebermos todos a que se referia o Presidente da República. Afinal, estava nos Açores, a pouca distância da Base das Lajes, entreposto da defesa das democracias ocidentais durante a Guerra Fria, mas também plataforma logística para o ataque unilateral dos Estados Unidos ao Irão à margem das organizações multilaterais e do Direito Internacional, neste ano da graça de 2026. A mesma base, cedida com os mesmos acordos, de texto inequívoco e letra fácil de entender. “Entre o Atlântico Norte e as grandes rotas marítimas e aéreas que estruturam a ordem global. Por todas estas razões, é um lugar que nos obriga a assumir especiais responsabilidades e deveres, no quadro da afirmação plena da nossa soberania, dos nossos interesses e do nosso futuro estratégico.”
Sim, o Dia de Portugal no Mundo é também o dia de questionar como nos temos posicionado nesse mundo. Autónomos e leais, mas retos, ou medrosos como ratos? Talvez Paulo Rangel e Marco Rubio tenham uma ou duas coisinhas a dizer sobre o assunto.
“Uma Nação livre não deve ter medo”, recorde-se. Nem dos outros, nem de si. Acima de tudo, não deve ter medo de ser o que é. Se é mestiça, seja. Se é frágil, que não se fragilize mais. Se é dependente, que não seja subserviente.
Quem conhece só um país não conhece país nenhum. Conhecendo o mundo, havemos de nos conhecer melhor. E se nos quisermos conhecer mesmo bem, podemos ver o mundo todo num bairro só.
