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Nem tanques, nem mísseis em Moscovo. Putin receia ataque da Ucrânia e 'encolhe' desfile do Dia da Vitória

CNN , Análise de Nathan Hodge
29 abr, 21:02
Rússia comemora Dia da Vitória

Este ano a Praça Vermelha de Moscovo não se vai encher de tanques. A decisão surge numa altura em que Moscovo enfrenta pressão militar, vulnerabilidades económicas e críticas públicas devido a falhas de internet e problemas de segurança

O desfile do Dia da Vitória de 9 de maio, na Praça Vermelha de Moscovo, é o evento principal para o presidente russo Vladimir Putin: todos os anos, a Rússia faz uma demonstração de poder militar que exibe as armas mais impressionantes do país, incluindo os seus mísseis e tanques de última geração.

Este ano, no entanto, o desfile promete ser um evento mais discreto.

No final de terça-feira, o ministério russo da Defesa anunciou que o desfile contará com uma coluna de tropas das academias militares e das forças armadas a marchar a pé. Mas, numa quebra com o precedente recente, o ministério disse que nenhum equipamento militar passará este ano diante do túmulo de Lenine.

"Devido à atual situação operacional, alunos das Escolas Militares Suvorov e das Escolas Navais Nakhimov, bem como do corpo de cadetes, e uma coluna de equipamento militar não participarão no desfile militar deste ano", lia-se no comunicado.

Não é preciso grande Kremlinologia para perceber o que significa aqui a "atual situação operacional". O exército russo parece estar a perder algum terreno na Ucrânia, ao contrário das alegações de Moscovo; ataques ucranianos estão a infligir danos importantes a infraestruturas vitais de petróleo e gás russas; e ataques com drones por parte de Kiev já perturbaram anteriormente a vida na capital russa.

Questionado na quarta-feira sobre os planos para o desfile, e sobre se o equipamento era necessário para a linha da frente, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, deu uma interpretação ligeiramente diferente da situação, dizendo que Moscovo enfrentava uma "ameaça terrorista" por parte de Kiev.

Militares russos marcham em colunas no Dia da Vitória em Moscovo, a 9 de maio de 2025. (Getty Images)

"Estamos a falar da situação operacional", afirmou. "O regime de Kiev, que está a perder terreno no campo de batalha todos os dias, lançou agora um ataque terrorista em grande escala. E por isso, perante esta ameaça terrorista, claro, estão a ser tomadas todas as medidas para minimizar o perigo. O desfile vai realizar-se, mas não esqueçamos que no ano passado foi um desfile de aniversário. Um desfile em grande escala, do tipo que deve ocorrer numa data significativa. Esta data não é um aniversário, mas o desfile vai realizar-se na mesma, embora num formato reduzido."

A Rússia tem reduzido o desfile do Dia da Vitória nos anos seguintes desde o início da invasão em grande escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022. Em 2022 e 2023, a tradicional passagem aérea de aeronaves militares foi cancelada; o desfile de 2024 contou apenas com um tanque, um T-34 da era da Segunda Guerra Mundial.

Mas, como Peskov referiu, o desfile do Dia da Vitória do ano passado, que assinalou o 80.º aniversário da vitória da União Soviética sobre a Alemanha nazi, foi um evento de gala. Putin presidiu a um desfile que contou com equipamento como o Geran-2, a versão russa do drone iraniano Shahed, e recebeu líderes aliados, incluindo o presidente chinês Xi Jinping.

O ministério russo da Defesa declarou  que o desfile do próximo mês contará com um tradicional momento alto: equipas acrobáticas vão sobrevoar a Praça Vermelha, com aviões de ataque ao solo Su-25 a pintarem o tricolor russo no céu de Moscovo. Mas o desfile reduzido surge num ponto de viragem para Putin.

Nas últimas semanas, o descontentamento tem vindo à superfície na Rússia após uma vaga de falhas de internet que tornaram a vida inconveniente na capital russa e noutros locais. As falhas de internet - que as autoridades russas dizem serem necessárias por razões de segurança - provocaram críticas públicas raras à liderança do país.

Ataques repetidos da Ucrânia à refinaria de petróleo de Tuapse, na costa russa do Mar Negro, também mostraram a vulnerabilidade económica de Moscovo. Imagens do desastre ambiental em curso sublinharam igualmente aquilo que alguns consideraram uma resposta lenta por parte das autoridades.

Outros sinais de alarme económico estão a soar para o Kremlin. Na terça-feira, Elvira Nabiullina, governadora do Banco Central da Rússia, disse que o país enfrentava uma escassez de mão de obra sem precedentes.

"Nunca antes na história da Rússia moderna enfrentámos uma escassez de mão de obra como esta", afirmou, segundo a agência estatal russa RIA Novosti. "Nunca tivemos nada parecido, e isto está a ter impacto em toda a situação económica."

A escassez de mão de obra na Rússia não surpreende. O país assistiu a uma vaga de emigração - e a uma séria fuga de cérebros - após uma mobilização militar parcial anunciada em setembro de 2022. E a Rússia tem tido dificuldades em repor as suas fileiras militares perante as terríveis baixas na linha da frente ucraniana.

Em 2008, Putin explicou porque razão a Rússia estava a trazer de volta à Praça Vermelha o espetáculo de tanques e mísseis, na primeira grande demonstração de armamento desde o colapso soviético.

"Isto não é agitar sabres: não estamos a ameaçar ninguém, não tencionamos fazê-lo, não estamos a impor nada a ninguém - temos de tudo em abundância", afirmou. "Isto é uma demonstração das nossas crescentes capacidades de defesa. Somos capazes de proteger o nosso povo, os nossos cidadãos, o nosso Estado e a nossa riqueza."

Se o exército russo é capaz de proteger a capital no contexto de uma guerra prolongada e sangrenta com a Ucrânia parece agora ser uma questão em aberto.

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