Russos e demais europeus têm um Dia da Vitória que é sobre o mesmo acontecimento mas que não é assinalado no mesmo dia. Porque o passado é maleável e é também dependente de subtilezas horárias - e de outras fragilidades e reinvenções. Acontece isto com o Dia da Vitória mas não só, como haverá de constatar aqui - incluindo sobre a nossa própria História, a portuguesa
Tudo se resume aos fusos horários. Esta quinta-feira celebra-se o 80.º aniversário da rendição incondicional da Alemanha nazi, às 23:01 do dia 8 de maio de 1945, então batizado Dia da Vitória na Europa pelos aliados que saíram vitoriosos da II Guerra Mundial – França, Grã-Bretanha e Estados Unidos da América. Mas só na sexta-feira é que a Rússia vai celebrar o seu Dia da Vitória, já que na União Soviética esse 8 de maio era já a madrugada de 9 de maio. O dia foi declarado feriado nacional pelo então líder da URSS, Josef Estaline, e o primeiro desfile da vitória russa, com os militares a transportarem as insígnias alemãs capturadas, teve lugar na Praça Vermelha menos de dois meses depois, a 24 de junho de 1945.
O Dia da Vitória tem especial importância para os russos no contexto daquilo que é ensinado nos seus livros de História como a Grande Guerra Patriótica, no decorrer da qual a União Soviética (que, além da Rússia, integrava também a Ucrânia, a Bielorrússia e outros países-satélite que viriam a tornar-se independentes décadas depois) perdeu 27 milhões de pessoas, 19 milhões das quais civis – mais do que qualquer outro país. Para o atual presidente da Rússia, Vladimir Putin, o Dia da Vitória é o feriado mais importante do país, sobretudo desde que usou o argumento da “desnazificação” da Ucrânia para invadir e ocupar parcialmente o país vizinho, tentando traçar paralelismos com a realidade de há 80 anos.
Pelo quarto ano consecutivo, desde a invasão em larga escala da Ucrânia a 24 de fevereiro de 2022, a parada celebratória em Moscovo vai acontecer sob apertadas medidas de segurança, perante receios de que Kiev aproveite a oportunidade para um contra-ataque. “A nossa posição em relação a todos os países que se deslocam à Rússia no dia 9 de maio é muito simples: não podemos ser responsabilizados pelo que acontece no território da Federação Russa”, disse Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, no sábado. “Eles [russos] são responsáveis pela vossa segurança. Não daremos quaisquer garantias porque não sabemos o que a Rússia pode fazer nessas datas.”
Zelensky também rejeitou a proposta de Putin para um cessar-fogo de três dias, entre 7 e 10 de maio, classificando-a como uma “encenação teatral” do líder russo, cujo evento que preparou para este ano contará com a presença de Xi Jinping, o poderoso presidente da China. Entre os líderes europeus. apenas dois planearam participar nas celebrações russas do Dia da Vitória – Robert Fico, o primeiro-ministro da Eslováquia, cuja possível deslocação à Rússia permanece incerta, e Alexander Vučić, presidente da Sérvia, que acabou por cancelar a viagem a Moscovo após ter adoecido numa visita oficial aos EUA.
CECA > CEE > UE
Os planos de Fico e Vučić de viajarem até à capital russa mereceram críticas e avisos por parte da União Europeia, que esta sexta-feira celebra uma outra efeméride – os 75 anos da Declaração Schuman, naquele que é tido como o dia em que a UE começou a ser desenhada, celebrado todos os 9 de maio como Dia da Europa.
Foi precisamente cinco anos e um dia depois da derrota formal do III Reich que o então chefe da diplomacia francesa delineou a sua visão para o futuro da Europa com base numa aliança entre o grande vencedor e o grande derrotado da II Guerra – França e Alemanha –, com o objetivo último de impedir futuras guerras devastadoras para o continente.
“Poucos discursos tiveram um impacto tão grande como a declaração de Robert Schuman de 9 de maio de 1950”, refere o historiador alemão Kiran Klaus Patel, num artigo de opinião recente. Ao propor a criação da Comunidade Económica do Carvão e do Aço (CECA), “o ministro francês dos Negócios Estrangeiros deu início a um novo começo na política do seu país, da Alemanha e da Europa, que ainda hoje ressoa”, e propôs algo que “era radical no verdadeiro sentido da palavra, pois ia à raiz dos problemas da época”.
Na prática, Schuman foi o primeiro a apresentar o conceito de supranacionalismo que vigora até hoje no bloco europeu, propondo “submeter toda a produção franco-alemã de carvão e aço a uma alta autoridade comum” para tornar uma futura guerra entre França e Alemanha "não só impensável, mas também materialmente impossível”.
A CECA, primeiro ensaio da UE como a conhecemos, foi oficialmente criada a 18 de abril de 1951 por França, Alemanha Ocidental, Itália e o chamado Benelux – Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo. E seis anos depois deu origem à Comunidade Económica Europeia (CEE) com a assinatura dos Tratados de Roma, que vieram estabelecer um mercado comum entre os países fundadores da CECA e à qual mais tarde aderiram Reino Unido, Irlanda e Dinamarca em 1973, Grécia em 1981 e Portugal e Espanha em 1986, mais de uma década depois do fim das suas respetivas ditaduras.
Alguns historiadores dirão que não foi uma década depois, por considerarem que o fim do franquismo não se deu com a morte de Francisco Franco em novembro de 1975, mas sim com a negociação e promulgação, em dezembro de 1978, da Constituição que vigora até hoje em Espanha.
É um debate semelhante aos que continuam a ocorrer entre os portugueses sobre a sua própria transição democrática. Mais de 50 anos depois do 25 de Abril, essa é a data mais consensual do processo democrático – mas as revoluções não se fazem num dia. O fim da ditadura portuguesa começou com António de Oliveira Salazar a cair da cadeira a 3 de agosto de 1968 ou com a aprovação da atual Constituição da República Portuguesa, a 2 de abril de 1976?
O fim da II Guerra Mundial firmou-se naquele 8 de maio de 1945 (9 de maio mais a leste) ou apenas no ano seguinte, com as primeiras condenações nos julgamentos de Nuremberga, que ajudaram a reunir provas irrefutáveis dos crimes cometidos pelo regime de Adolf Hitler, incluindo a execução de seis milhões de judeus? Ou acabou apenas com o fim da guerra civil grega em 1949? Ou só na viragem para a década de 1950, quando cerca de 14 milhões de alemães étnicos tinham já sido expulsos das suas casas nos territórios do III Reich derrotado, incluindo Hungria e Jugoslávia?
Dias de vitória?
Tal é a importância das datas que, um ano após a invasão russa em 2022, Zelensky promulgou uma lei para alinhar a Ucrânia com o resto da Europa, decretando 8 de maio, e não 9, como o dia em memória da II Guerra Mundial. E tal é a importância das datas que o próprio presidente dos EUA, Donald Trump, decidiu há alguns dias rebatizar o 8 de maio, até agora conhecido entre os norte-americanos como dia da Vitória na Europa, como "Dia da Vitória na II Guerra Mundial", apesar de os EUA terem continuado em combates com o Japão até setembro de 1945, um mês depois de terem largado bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki.
"Fizemos mais do que qualquer outro país, de longe, para produzir um resultado vitorioso na Segunda Guerra Mundial", escreveu Trump na sua Truth Social. "Ganhámos as duas guerras mundiais, ninguém se aproximou de nós em termos de força, bravura ou brilhantismo militar, mas nunca celebramos nada. Vamos começar a celebrar as nossas vitórias novamente!"
Perante tentativas de reescrever a História, as datas ajudam a traçar semelhanças entre a Europa de hoje e a Europa de há 80 anos. E há já quem fale do Livro Branco da Defesa que a Comissão Von der Leyen apresentou a 18 de março de 2025 como uma espécie de nova declaração Schuman, o início de uma nova refundação da Europa em que a segurança do bloco será o seu novo motor. Vai essa data entrar para os anais da História? Só o futuro o dirá e o futuro é agora.
Há oito décadas, o fim da II Guerra marcou o arranque de uma nova Europa, que seria depois reinventada na reta final do milénio, com a assinatura do Tratado de Maastricht a 7 de fevereiro de 1992. Mas teria essa refundação acontecido sem a queda do muro de Berlim a 9 de novembro de 1989? E teria o muro caído sem a eleição de Mikhail Gorbachev, então praticamente um desconhecido, como líder da URSS a 11 de março de 1985? E sem a eleição de Gorbachev, teria a União Soviética sobrevivido para lá de 26 de dezembro de 1991, quando se assinou o reconhecimento da independência das suas 15 repúblicas, incluindo a Ucrânia que Putin quer hoje reconquistar? A Guerra Fria chegou realmente a acabar?
Houve quem, mais recentemente, achasse que a UE não iria sobreviver à saída do Reino Unido, um evento marcante que ficará para sempre conhecido como Brexit, oficializado a 31 de janeiro de 2020. Mas mais de cinco anos depois dessa data, a UE continua de pé – e pode estar prestes a assinar um novo tratado com o Reino Unido para garantir, como há 75 anos, que os europeus continuam unidos face a ameaças comuns.
Esse tratado pode vir a ser assinado já na próxima semana, na Cimeira de Londres de 19 de maio, e inaugurar um novo capítulo nas relações da UE com o Reino Unido no pós-Brexit, com impacto prometido no resto do mundo. Haverá artigos de jornais e bibliografia dedicada a essa data no futuro? Numa Europa mergulhada em instabilidade, onde tantas pessoas chegaram a acreditar que o "apagão do século" em Portugal e Espanha há uma semana se devia a um ciberataque russo, como vai o ano de 2025 ser lembrado?
